LuCaS
A condição humana é
marcada por uma tensão essencial: a coexistência entre as pulsões instintivas
herdadas da animalidade e o anseio por transcendência simbólica. O Homo
sapiens, ao longo da história, revela-se como um ser em fuga — não no sentido
de evasão frágil, mas como uma busca ontológica de superação da própria
natureza biológica. Essa fuga manifesta-se em diversos sistemas simbólicos:
linguagem, arte, religião, filosofia — todas tentativas de atribuir sentido à
existência para além da matéria. Ao negar o animal em si, o humano não elimina
sua presença, mas a ressignifica: a carne se transforma em ética, o instinto
vira reflexão, e a agressividade, norma civilizatória. Essa negação constitui o
núcleo da diferença humana — não como apagamento da natureza, mas como
reconfiguração orientada pelo espírito.
Nesse percurso, a utopia
surge como monumento da fuga. É a projeção idealizada de um ser desvinculado da
dor, do conflito e da escassez — um humano pleno, ético e harmônico consigo
mesmo. Não se trata apenas de negar o que é, mas de afirmar o que poderia ser.
A utopia, então, não é um devaneio distante, mas ferramenta ontológica: revela
o desejo de significar, de se tornar mais do que sobrevive.
A radicalização
contemporânea dessa fuga encontra expressão no transumanismo, que propõe
superar as limitações biológicas por meio da tecnologia. O corpo passa a ser
visto como obsoleto, a morte como falha técnica, e a carne como erro de design.
Nessa lógica, o Homo sapiens busca deixar de ser animal por completo,
convertendo a utopia em engenharia. No entanto, essa fuga total traz um
paradoxo: ao negar a corporeidade, corre-se o risco de esvaziar os vínculos
simbólicos e afetivos que sustentam a própria humanidade. A tensão entre
instinto e consciência, entre carne e espírito, talvez seja exatamente o que
nos define como humanos — e tentar apagá-la pode levar à desumanização.
É nesse contexto que a
Maçonaria oferece uma alternativa simbólica à fuga. Em vez de negar, ela propõe
lapidar. Trabalha com ritos e alegorias que operam como chaves para a
transformação da pedra bruta — o ser instintivo — em pedra polida — o ser ético
e consciente. O templo interior que o maçom é chamado a construir é justamente
uma utopia simbólica: não uma fuga da condição humana, mas um esforço contínuo
de sua elevação. Cada instrumento maçônico participa desse processo: o compasso
e o esquadro regulam os impulsos e orientam a razão; o volume da lei sagrada
oferece linguagem e referência espiritual; e o rito representa a negação ritual
da ignorância em direção à luz. Ao morrer simbolicamente e renascer como
iniciado, o ser humano não escapa de si — ele se confronta e se supera.
Curiosamente, Maçonaria e
transumanismo compartilham o mesmo impulso — o desejo de aperfeiçoamento do ser
— mas trilham caminhos distintos. Enquanto o transumanismo aposta na técnica
para reconstruir o humano, a Maçonaria aposta na ética, no autoconhecimento e
na espiritualidade para elevar o ser. A utopia maçônica é integradora:
reconhece a animalidade, mas busca dominá-la por meio do espírito. Já o
transumanismo é disruptivo, propondo romper com o próprio corpo.
Em síntese, a fuga do
Homo sapiens é inevitável — mas seu rumo define sua essência. Lapidar é fugir
com consciência. A utopia que se busca pode ser interna, construída não com
circuitos e algoritmos, mas com ética, simbolismo e vontade. O humano não se realiza
negando o animal — mas o integrando, dominando e transcendendo. E nessa
jornada, a Maçonaria oferece não um destino, mas um caminho.