sexta-feira, 11 de julho de 2025

O Homo sapiens como ser em fuga: a negação do animal e a construção da utopia

 LuCaS 

A condição humana é marcada por uma tensão essencial: a coexistência entre as pulsões instintivas herdadas da animalidade e o anseio por transcendência simbólica. O Homo sapiens, ao longo da história, revela-se como um ser em fuga — não no sentido de evasão frágil, mas como uma busca ontológica de superação da própria natureza biológica. Essa fuga manifesta-se em diversos sistemas simbólicos: linguagem, arte, religião, filosofia — todas tentativas de atribuir sentido à existência para além da matéria. Ao negar o animal em si, o humano não elimina sua presença, mas a ressignifica: a carne se transforma em ética, o instinto vira reflexão, e a agressividade, norma civilizatória. Essa negação constitui o núcleo da diferença humana — não como apagamento da natureza, mas como reconfiguração orientada pelo espírito.

Nesse percurso, a utopia surge como monumento da fuga. É a projeção idealizada de um ser desvinculado da dor, do conflito e da escassez — um humano pleno, ético e harmônico consigo mesmo. Não se trata apenas de negar o que é, mas de afirmar o que poderia ser. A utopia, então, não é um devaneio distante, mas ferramenta ontológica: revela o desejo de significar, de se tornar mais do que sobrevive.

A radicalização contemporânea dessa fuga encontra expressão no transumanismo, que propõe superar as limitações biológicas por meio da tecnologia. O corpo passa a ser visto como obsoleto, a morte como falha técnica, e a carne como erro de design. Nessa lógica, o Homo sapiens busca deixar de ser animal por completo, convertendo a utopia em engenharia. No entanto, essa fuga total traz um paradoxo: ao negar a corporeidade, corre-se o risco de esvaziar os vínculos simbólicos e afetivos que sustentam a própria humanidade. A tensão entre instinto e consciência, entre carne e espírito, talvez seja exatamente o que nos define como humanos — e tentar apagá-la pode levar à desumanização.

É nesse contexto que a Maçonaria oferece uma alternativa simbólica à fuga. Em vez de negar, ela propõe lapidar. Trabalha com ritos e alegorias que operam como chaves para a transformação da pedra bruta — o ser instintivo — em pedra polida — o ser ético e consciente. O templo interior que o maçom é chamado a construir é justamente uma utopia simbólica: não uma fuga da condição humana, mas um esforço contínuo de sua elevação. Cada instrumento maçônico participa desse processo: o compasso e o esquadro regulam os impulsos e orientam a razão; o volume da lei sagrada oferece linguagem e referência espiritual; e o rito representa a negação ritual da ignorância em direção à luz. Ao morrer simbolicamente e renascer como iniciado, o ser humano não escapa de si — ele se confronta e se supera.

Curiosamente, Maçonaria e transumanismo compartilham o mesmo impulso — o desejo de aperfeiçoamento do ser — mas trilham caminhos distintos. Enquanto o transumanismo aposta na técnica para reconstruir o humano, a Maçonaria aposta na ética, no autoconhecimento e na espiritualidade para elevar o ser. A utopia maçônica é integradora: reconhece a animalidade, mas busca dominá-la por meio do espírito. Já o transumanismo é disruptivo, propondo romper com o próprio corpo.

Em síntese, a fuga do Homo sapiens é inevitável — mas seu rumo define sua essência. Lapidar é fugir com consciência. A utopia que se busca pode ser interna, construída não com circuitos e algoritmos, mas com ética, simbolismo e vontade. O humano não se realiza negando o animal — mas o integrando, dominando e transcendendo. E nessa jornada, a Maçonaria oferece não um destino, mas um caminho.


LOJA MÃE

  LOJA MÃE (PALESTRA)   Venerável Mestre, presidente desta sessão, Veneráveis Mestres das demais Lojas e Potências aqui presentes, Ofici...