Tempo de Mudanças e Mudança de Tempo na Maçonaria do Século XXI: Perspectivas Filosóficas e Sociológicas
Por: LuCaS*
Resumo:
Este artigo
analisa a relação entre tempo de mudanças e mudança de tempo no contexto da
maçonaria contemporânea. A partir de uma abordagem filosófica e sociológica,
discute-se como a ordem maçônica se posiciona diante das transformações
aceleradas da modernidade líquida e da hipermodernidade, sem perder sua
essência simbólica. A pesquisa, de caráter qualitativo, fundamenta-se em
revisão bibliográfica e análise hermenêutica de símbolos e rituais maçônicos.
Os resultados demonstram que a maçonaria atua simultaneamente como guardiã da
memória e catalisadora da transformação, instaurando um “tempo simbólico”
distinto do ritmo acelerado da sociedade digital. Conclui-se que a convivência
entre permanência e mudança constitui a própria condição de vitalidade da
maçonaria no século XXI.
Palavras-chave: Maçonaria; Filosofia; Sociologia;
Tempo; Modernidade.
Time of Changes and Change of Time
in Freemasonry of the 21st Century: Philosophical and Sociological Perspectives
By:
LuCaS
Abstract:
This article
analyzes the relationship between time of changes and change of time within the
context of contemporary Freemasonry. Drawing on philosophical perspectives
(Heraclitus, Augustine, Nietzsche) and sociological approaches (Elias, Bauman,
Lipovetsky), the study explores how Freemasonry positions itself amid
accelerated transformations of liquid modernity and hypermodernity while
preserving its symbolic essence. The research adopts a qualitative methodology,
based on bibliographic review and hermeneutic analysis of Masonic symbols and
rituals. Findings reveal that Freemasonry operates simultaneously as guardian
of memory and catalyst of transformation, establishing a symbolic time distinct
from the accelerated pace of digital society. It is concluded that the
coexistence of permanence and change constitutes the essential condition for
Freemasonry’s vitality in the twenty-first century.
Keywords: Freemasonry; Philosophy;
Sociology; Time; Modernity.
Tempo de Mudanças e Mudança de
Tempo na Maçonaria do Século XXI: Perspectivas Filosóficas e Sociológicas
Por: LuCaS
Introdução
O
século XXI é caracterizado por transformações sociais, culturais e tecnológicas
que configuram um verdadeiro tempo de mudanças. Revoluções digitais,
novas “sensibilidades” éticas e a fragmentação dos vínculos sociais marcam uma
era em que estruturas tradicionais são constantemente desafiadas.
Paralelamente, vivencia-se uma mudança de tempo, perceptível na
aceleração histórica e na alteração da própria experiência subjetiva do ritmo
da vida. Nesse cenário, a maçonaria, instituição iniciática de longa tradição,
enfrenta o desafio de se reinventar sem perder sua essência simbólica.
Silva
(2022) problematiza essa distinção ao perguntar: “É realmente diferente um
tempo de mudanças de uma mudança de tempo, ou se trata apenas de um jogo de
palavras?”. Para o autor, em um tempo de mudanças, as características da época
histórica vigente não estão em crise estrutural; as transformações que surgem
podem ser interpretadas e manejadas com o apoio dos “artefatos intelectuais”
produzidos pela própria época, isto é, conceitos, teorias e instrumentos que
orientam os posicionamentos sociais, econômicos, políticos e institucionais. Já
em uma mudança de tempo, as características dominantes entram em colapso,
sofrendo críticas inexoráveis em razão dos impactos negativos do modelo de
desenvolvimento praticado. Os artefatos intelectuais da época em declínio
tornam-se obsoletos, deixando indivíduos e instituições perplexos e vulneráveis
diante de novos desafios.
Metaforicamente,
afirma Silva, em um tempo de mudanças basta “limpar as lentes” culturais que
moldam nossa visão de mundo, removendo manchas ocasionais que dificultam a
leitura da realidade. Para isso, recorre-se à “caixa de artefatos intelectuais”
da própria época, buscando conceitos ou metáforas que restabeleçam o foco.
Todavia, em uma mudança de época, não basta limpar as lentes: é preciso
trocá-las, pois os instrumentos conceituais disponíveis já não oferecem
respostas adequadas. Em outras palavras, em um tempo de mudanças, os modos de
interpretação vigentes são suficientes para compreender e manejar as
transformações em curso; em uma mudança de época, tais modos revelam-se
insuficientes ou obsoletos, exigindo a reconstrução dos paradigmas de interpretação
e intervenção.
A
problemática central deste estudo consiste, portanto, em compreender como a
maçonaria contemporânea se posiciona diante dessa tensão entre permanência e
transformação. De um lado, preserva símbolos e rituais ancestrais que
atravessam séculos; de outro, precisa dialogar com as exigências da modernidade
líquida (BAUMAN, 2001) e da hipermodernidade (LIPOVETSKY, 2005).
A
relevância da pesquisa reside na necessidade de analisar a maçonaria como
espaço de resistência e adaptação: enquanto guardiã da memória, mantém viva uma
tradição iniciática que confere sentido existencial; enquanto catalisadora da
transformação, é chamada a reinterpretar seus símbolos à luz das demandas
contemporâneas, como diversidade, inclusão e ética global.
A
metodologia adotada é qualitativa, fundamentada em revisão bibliográfica de
obras clássicas da filosofia (HERÁCLITO, AGOSTINHO, NIETZSCHE) e da sociologia
(ELIAS, BAUMAN, LIPOVETSKY, ELIADE), além de literatura especializada sobre a
maçonaria (CAMINO, 2006; ISMAIL, 2018; PIKE, 1871; MACKEY, 1869; RAGON, 2012).
Fundamentação
Filosófica
Silva
(2022) distingue entre tempo de mudanças e mudança de tempo,
mostrando que em um tempo de mudanças basta “limpar as lentes” culturais,
ajustando os modos de interpretação vigentes, enquanto em uma mudança de tempo
é necessário “trocar as lentes”, reconstruindo paradigmas de compreensão e
intervenção. Essa metáfora é decisiva para compreender a dimensão filosófica do
tempo na maçonaria: a ordem não apenas enfrenta mudanças pontuais, mas também
participa de mudanças de época, em que seus símbolos e rituais precisam ser
reinterpretados para manter vitalidade.
Albert
Pike (1871), em Morals and Dogma, responde implicitamente a essa
provocação ao afirmar que os ritos não são repetições vazias, mas instrumentos
vivos de reflexão, cujo valor está em reinterpretar continuamente os símbolos à
luz das necessidades atuais.
Rizzardo
da Camino (2006), em A Maçonaria e sua Filosofia, reforça essa leitura
ao destacar que a ordem não é um sistema fechado, mas uma tradição dinâmica que
se atualiza conforme o contexto histórico.
Kennyo
Ismail (2018), em Introdução à Maçonaria, acrescenta que a vitalidade da
ordem depende de sua capacidade de dialogar com as demandas contemporâneas,
como diversidade e inclusão, sem perder sua essência iniciática.
Albert
Mackey (1869), em The Symbolism of Freemasonry, complementa ao afirmar
que os símbolos maçônicos não são ornamentos, mas veículos de transmissão de
valores universais, que só mantêm relevância quando reinterpretados.
A
síntese filosófica revela que a maçonaria vive justamente na tensão entre
permanência e mudança. Heráclito mostra que a tradição é fluxo; Agostinho, que
o tempo é consciência; Nietzsche, que a repetição só tem sentido quando se
transforma em criação. Camino, Ismail, Pike e Mackey reforçam que a ordem só se
mantém viva quando transforma sua tradição em fonte inesgotável de significado.
Assim, a fundamentação filosófica evidencia que o tempo de mudanças e a mudança
de tempo não são apenas categorias abstratas, mas dimensões existenciais que
atravessam a prática maçônica, garantindo sua relevância no século XXI.
Fundamentação
Sociológica
A
sociologia permite compreender o tempo não apenas como experiência subjetiva,
mas como construção coletiva que organiza práticas, instituições e ritmos
sociais. Nesse sentido, a maçonaria, enquanto instituição iniciática, insere-se
em um campo de tensões entre permanência e aceleração, tradição e inovação,
oferecendo uma temporalidade própria que contrasta com a lógica da modernidade
líquida e da hipermodernidade.
Norbert
Elias (1998) demonstra que o tempo é uma convenção social, estruturada por
calendários, relógios e rotinas que permitem a coordenação da vida coletiva. O
tempo, portanto, não é natural, mas cultural. A maçonaria, ao organizar
encontros e rituais, cria um “tempo simbólico” distinto do “tempo acelerado da
modernidade”. Esse “tempo” ritualizado funciona como suspensão da urgência
cotidiana, permitindo que os iniciados vivenciem uma temporalidade qualitativa,
voltada para reflexão, interioridade e aprofundamento dos vínculos.
Zygmunt
Bauman (2001) descreve a modernidade líquida como cenário de vínculos frágeis e
transitórios, em que relações sociais se tornam instáveis e o “tempo histórico”
se comprime. Nesse contexto, a maçonaria pode ser vista como espaço de
resistência, oferecendo laços duradouros e significativos que contrastam com a
fluidez das relações modernas. Ao propor rituais e símbolos permanentes, a Ordem
cria um contraponto à volatilidade da vida contemporânea, reafirmando valores
de continuidade e profundidade.
Gilles
Lipovetsky (2005) amplia essa análise ao caracterizar a hipermodernidade como
tempo marcado pela hiperaceleração, pelo hiperconsumo e pela busca incessante
por novidades. A vida social torna-se fragmentada e dominada pela lógica da
instantaneidade. Nesse cenário, a maçonaria oferece uma alternativa simbólica:
ao propor um tempo ritualizado e lento, convida os iniciados a resistirem à
superficialidade da vida hipermoderna, cultivando reflexão crítica e vínculos
sólidos.
Mircea
Eliade (1992) acrescenta que os ritos instauram uma ruptura no “tempo profano”
e criam um “tempo sagrado”, capaz de conectar o indivíduo a uma dimensão
transcendente. A maçonaria, ao realizar seus rituais, não apenas organiza o
tempo social, mas também cria uma temporalidade simbólica que ultrapassa a
lógica cotidiana. Essa ruptura é fundamental porque permite que os iniciados
experimentem o tempo como algo qualitativo e espiritual, em contraste com o
tempo quantitativo e utilitário da sociedade moderna.
Autores
maçônicos reforçam essa leitura sociológica. Ragon (2012) lembra que a
ortodoxia maçônica não deve ser confundida com imobilismo, mas com fidelidade
dinâmica a princípios que se renovam em cada época. Kennyo Ismail (2018)
acrescenta que a Ordem precisa dialogar com demandas contemporâneas, como
diversidade e inclusão, sem perder sua essência iniciática. Ao estruturar
encontros e rituais, a maçonaria cria uma temporalidade própria que resiste à
lógica da pressa e da fragmentação, reafirmando valores de permanência e
continuidade, mas também se abrindo às exigências de uma sociedade plural e
interconectada.
A
fundamentação sociológica, portanto, evidencia que a maçonaria constrói um
tempo simbólico próprio, que resiste à aceleração da modernidade líquida e da
hipermodernidade. Elias mostra que o tempo é convenção social; Bauman e
Lipovetsky revelam sua fragilidade e hiperaceleração; Eliade destaca sua
dimensão sagrada; Ragon e Ismail reforçam que a Ordem só mantém vitalidade
quando dialoga com o presente sem perder sua essência iniciática.
Convivência
dos Dois Tempos
A
convivência entre tempo de mudanças e mudança de tempo é a própria condição da
maçonaria no século XXI. Essa tensão revela-se como espaço de criação e
reinvenção, em que tradição e inovação não se anulam, mas se complementam. A
filosofia mostra que o tempo é fluxo, consciência e desafio da repetição; a
sociologia evidencia que o tempo é construção social, acelerado e fragmentado
pela modernidade líquida e pela hipermodernidade; e a literatura maçônica
demonstra que símbolos e rituais só mantêm vitalidade quando reinterpretados.
Do
ponto de vista filosófico, Heráclito ensina que a permanência é sempre
atravessada pelo fluxo (HERÁCLITO, 2001). Agostinho revela que o tempo é
inseparável da consciência, vivido como memória, expectativa e vivência
(AGOSTINHO, 1999). Nietzsche, com o eterno retorno, desafia a maçonaria a
transformar a repetição em criação, evitando que os ritos se tornem
formalidades vazias (NIETZSCHE, 2006).
Do
ponto de vista sociológico, Elias (1998) mostra que o tempo é convenção
coletiva, e a maçonaria, ao estruturar encontros e rituais, cria uma
temporalidade própria. Bauman (2001) descreve a modernidade líquida como
cenário de vínculos frágeis, e a ordem oferece estabilidade em meio à fluidez.
Lipovetsky (2005) caracteriza a hipermodernidade pela hiperaceleração e pelo
hiperconsumo, e a maçonaria responde com uma temporalidade ritualizada e
reflexiva. Eliade (1992) acrescenta que os ritos instauram um tempo sagrado,
rompendo com a superficialidade do tempo profano.
Autores
maçônicos reforçam essa síntese. Camino (2006) destaca que a maçonaria é
tradição dinâmica, que só mantém vitalidade quando reinterpretada. Ismail
(2018) aponta que a ordem precisa dialogar com demandas contemporâneas, como
diversidade e inclusão, sem perder sua essência iniciática. Pike (1871)
enfatiza que os rituais não são repetições vazias, mas instrumentos vivos de
reflexão. Mackey (1869) lembra que os símbolos são veículos de transmissão de
valores universais, e Ragon (2012) reforça que a ortodoxia maçônica não é
imobilismo, mas fidelidade dinâmica a princípios que se renovam em cada época.
A
síntese dessas perspectivas revela que a maçonaria não pode se fechar em uma
tradição imutável, pois isso a condenaria à irrelevância; tampouco pode
dissolver-se na fluidez da modernidade, pois perderia sua identidade simbólica.
Seu papel é ser ponte: preservar símbolos que dão sentido à existência,
enquanto se abre para novas formas de pensar, sentir e viver. Nesse equilíbrio,
a ordem atua como guardiã da memória e catalisadora da transformação,
construindo uma temporalidade simbólica que resiste à superficialidade da vida
moderna e, ao mesmo tempo, dialoga com os desafios contemporâneos.
Conclusão
Conclui-se
que a maçonaria contemporânea é chamada a ser simultaneamente guardiã da
memória e catalisadora da transformação. A análise filosófica demonstrou que o
tempo, concebido como fluxo por Heráclito (2001), como consciência por
Agostinho (1999) e como desafio da repetição por Nietzsche (2006), encontra
ressonância direta na prática maçônica, que preserva símbolos ancestrais, mas
os reinventa em cada geração. A análise sociológica evidenciou que o tempo é
construção coletiva (ELIAS, 1998), acelerado e fragmentado pela modernidade
líquida (BAUMAN, 2001) e pela hipermodernidade (LIPOVETSKY, 2005), mas também
capaz de ser ritualizado como tempo sagrado (ELIADE, 1992).
A
literatura maçônica reforça essa síntese: Camino (2006) destaca que a tradição
só mantém vitalidade quando reinterpretada; Ismail (2018) aponta que a ordem
precisa dialogar com demandas contemporâneas sem perder sua essência
iniciática; Pike (1871) enfatiza que os rituais não são repetições vazias, mas
instrumentos vivos de reflexão; Mackey (1869) lembra que os símbolos são
veículos de transmissão de valores universais; e Ragon (2012) reforça que a
ortodoxia maçônica não é imobilismo, mas fidelidade dinâmica a princípios que
se renovam em cada época.
O
tempo de mudanças exige coragem para inovar; a mudança de tempo exige sabedoria
para preservar a continuidade. A convivência de ambos constitui o espaço onde
se constrói uma maçonaria viva, capaz de dialogar com o presente sem trair o
passado, transformando tradição em fonte inesgotável de significado. Nesse
equilíbrio, a ordem reafirma sua relevância como guardiã da memória e
catalisadora da transformação, oferecendo aos seus membros uma temporalidade
simbólica que resiste à superficialidade da vida moderna e, ao mesmo tempo,
dialoga com os desafios contemporâneos.
Referências
Bibliográficas
AGOSTINHO,
Santo. Confissões. São Paulo: Paulus, 1999.
BAUMAN,
Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
CAMINO,
Rizzardo da. A Maçonaria e sua Filosofia. São Paulo: Madras, 2006.
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ELIAS,
Norbert. Sobre o tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. HERÁCLITO. Fragmentos.
Tradução de Emmanuel Carneiro Leão. Rio de Janeiro: Vozes, 2001.
ISMAIL,
Kennyo. Introdução à Maçonaria. Brasília: [s.n.], 2018. LIPOVETSKY,
Gilles. A era do vazio. Barueri: Manole, 2005.
MACKEY,
Albert G. The Symbolism of Freemasonry. New York: Clark & Maynard,
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NIETZSCHE,
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2006.
PIKE,
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PINHEIRO,
Ivan Antônio. Maçonaria e memória: um vínculo esquecido, elos perdidos. REHMLAC,
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J. M. Ortodoxia maçônica. São Paulo: Pensamento, 2012.
RODRIGUES,
Iomar Araújo. A influência dos maçons na sociedade contemporânea: o maçom como
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SILVA, LUIZ CARLOS. A
Maçonaria do Século XXI: pensar, sentir e viver. Edição virtual. Campina
Grande, PB: [s.n.], 2022. Disponível em: https://www.academia.edu/115674973/Ma%C3%A7onaria_do_s%C3%A9culo_xxi_pensar_sentir_e_viver . Acesso em: 14 set. 2026.
*LuCaS (Luiz Carlos Silva) é Agrônomo com Mestrado em Agronomia – área de concentração Fitotecnia; é PhD em Recursos Naturais – área de concentração, Manejo de água e solos. É Maçom, 33º do R⸫E⸫A⸫A⸫, Delegado Litúrgico da Inspetoria Litúrgica da Paraíba – 1ª Região (ILPB-1).