sexta-feira, 5 de junho de 2026

A Abolição da Escravidão e a Participação da Maçonaria no Brasil: Uma Historiografia

 A Abolição da Escravidão e a Participação da Maçonaria no Brasil: Uma Historiografia

Por: LuCaS

Resumo - Este trabalho analisa a abolição da escravidão no Brasil a partir de uma perspectiva historiográfica crítica, destacando a resistência dos escravizados, o movimento abolicionista, a participação da maçonaria e os desdobramentos pós-1888. A pesquisa evidencia que a luta pela liberdade não foi resultado exclusivo de leis ou da benevolência da monarquia, mas sim da ação contínua dos cativos, que corroeram o sistema por meio de fugas, quilombos e revoltas. O movimento abolicionista, articulado por intelectuais e políticos, encontrou na maçonaria um espaço de difusão de ideais iluministas e de organização de sociedades libertadoras regionais. A linha do tempo da abolição revela um processo gradual e contraditório, culminando na Lei Áurea, que extinguiu juridicamente a escravidão, mas não trouxe reparações. A ausência de políticas de inclusão perpetuou desigualdades e moldou o racismo estrutural. Na República, a maçonaria concentrou esforços na defesa da educação pública e laica, contribuindo para a modernização institucional, mas sem enfrentar diretamente a questão racial. Por fim, a memória da abolição foi disputada: o 13 de maio foi exaltado como dádiva da monarquia, enquanto o 20 de novembro se consolidou como marco da resistência negra. Conclui-se que a abolição foi conquista histórica, mas incompleta, e que sua memória deve ser reinterpretada à luz da luta contínua por igualdade e justiça social.

Palavras-chave: Escravidão no Brasil, Resistência dos escravizados, Movimento abolicionista, Maçonaria, Lei Áurea, Racismo estrutural, Educação republicana, Memória da abolição, Consciência negra.

The Abolition of Slavery and the Participation of Freemasonry in Brazil: A Historiography

By: LuCaS

Abstract - This study analyzes the abolition of slavery in Brazil from a critical historiographical perspective, highlighting the resistance of the enslaved, the abolitionist movement, the role of Freemasonry, and the post-1888 developments. The research demonstrates that the struggle for freedom was not solely the result of laws or monarchical benevolence, but rather of the continuous actions of the enslaved, who undermined the system through escapes, quilombos, and revolts. The abolitionist movement, led by intellectuals and politicians, found in Freemasonry a space for the dissemination of Enlightenment ideals and the organization of regional liberation societies. The abolition timeline reveals a gradual and contradictory process, culminating in the Golden Law, which legally ended slavery but failed to provide reparations. The absence of inclusion policies perpetuated inequalities and shaped structural racism. In the Republic, Freemasonry focused on defending public and secular education, contributing to institutional modernization but without directly addressing racial issues. Finally, the memory of abolition was contested: May 13 was exalted as a monarchical gift, while November 20 became established as a symbol of Black resistance. The conclusion is that abolition was a historic achievement, yet incomplete, and its memory must be reinterpreted in light of the ongoing struggle for equality and social justice.

Keywords: Slavery in Brazil, Enslaved resistance, Abolitionist movement, Freemasonry, Golden Law, Structural racismo, Republican education, Memory of abolition, Black consciousness.

 

 

A Abolição da Escravidão e a Participação da Maçonaria no Brasil: Uma Historiografia

Autor: LuCaS

Introdução

 A abolição da escravidão no Brasil, oficializada em 13 de maio de 1888 com a assinatura da Lei Áurea, constitui um dos marcos mais significativos da história nacional. Contudo, a historiografia contemporânea demonstra que esse processo não pode ser compreendido apenas como um ato jurídico isolado, mas sim como o resultado de uma longa trajetória de resistência, mobilização social e disputas políticas. A luta pela liberdade foi protagonizada, em primeiro lugar, pelos próprios escravizados, que ao longo de séculos desafiaram o sistema por meio de fugas, quilombos e revoltas. Essa resistência subterrânea corroeu a legitimidade da escravidão e inspirou movimentos abolicionistas que, no século XIX, ganharam força com intelectuais, jornalistas e políticos engajados.

Nesse contexto, a maçonaria desempenhou papel relevante como espaço de articulação intelectual e política, difundindo ideais iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade. Suas lojas funcionaram como centros de debate e mobilização, apoiando leis emancipatórias e sociedades libertadoras regionais, como no Ceará, que aboliu a escravidão antes da lei nacional. Ao mesmo tempo, figuras como Luiz Gama, Castro Alves e José do Patrocínio, muitos deles ligados à maçonaria, transformaram o direito, a literatura e a imprensa em instrumentos de luta.

A linha do tempo da abolição revela um processo gradual e contraditório, marcado por leis parciais, como a Lei Eusébio de Queirós (1850), a Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei dos Sexagenários (1885), até culminar na Lei Áurea. Cada etapa foi fruto de pressões internas e externas, mas também de limitações que evidenciam a resistência das elites agrárias em manter o sistema. A abolição, embora celebrada, foi incompleta: não houve reparações, distribuição de terras ou políticas de inclusão, perpetuando desigualdades que moldaram o racismo estrutural.

Na República, a maçonaria concentrou esforços na defesa da educação pública, laica e obrigatória, contribuindo para a modernização do país. Contudo, sua atuação não enfrentou diretamente a questão racial, refletindo a contradição de um Brasil que proclamava liberdade, mas mantinha milhões de pessoas à margem da cidadania. A memória da abolição também foi disputada: o 13 de maio foi exaltado como dádiva da monarquia, mas movimentos negros e historiadores passaram a valorizar o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, como símbolo da resistência e da luta contínua contra o racismo.

Este trabalho busca compreender a abolição da escravidão e a participação da maçonaria a partir de uma perspectiva historiográfica crítica, que reconhece tanto as conquistas quanto as limitações desse processo. Ao abrir cada capítulo, evidencia-se que a liberdade foi resultado da ação dos escravizados e de seus aliados, mas também que a ausência de reparações deixou marcas profundas que ainda ecoam na sociedade brasileira.

Capítulo 1 – Resistência dos Escravizados

A luta contra a escravidão no Brasil não se iniciou com leis ou decretos, mas com a ação cotidiana dos próprios escravizados. Desde o início da colonização, homens e mulheres submetidos ao cativeiro buscaram formas de afirmar sua humanidade e conquistar a liberdade. As fugas foram uma das estratégias mais recorrentes: escravizados escapavam das fazendas e engenhos, formando comunidades autônomas conhecidas como quilombos. O mais célebre deles, o Quilombo dos Palmares, localizado na região da Serra da Barriga, em Alagoas, resistiu por quase um século e tornou-se símbolo da luta contra a opressão. Lideranças como Zumbi dos Palmares foram imortalizadas como ícones da resistência negra.

Além dos quilombos, houve revoltas organizadas em diferentes regiões do país. A Revolta dos Malês, ocorrida em Salvador em 1835, liderada por africanos muçulmanos, é um exemplo de insurreição que articulava identidade cultural e desejo de liberdade. Outras rebeliões, como a Balaiada no Maranhão e a Cabanagem no Pará, também tiveram forte participação de escravizados e libertos. Essas ações demonstram que a escravidão nunca foi aceita passivamente, mas constantemente contestada.

Historiadores como Clóvis Moura ressaltam que a resistência negra foi “a força subterrânea que corroeu o sistema escravista”, mostrando que a abolição não foi uma dádiva da monarquia, mas resultado da pressão acumulada de séculos de luta. Sidney Chalhoub complementa ao destacar que muitos escravizados recorreram aos tribunais, utilizando brechas legais para reivindicar sua liberdade, o que revela protagonismo jurídico e não submissão. Já Flávio dos Santos Gomes enfatiza que os quilombos eram espaços de recriação cultural e política, onde se mantinham tradições africanas e se construíam novas formas de sociabilidade.

Fontes primárias também evidenciam essa resistência. Registros policiais e judiciais do século XIX relatam fugas constantes, apreensões de escravizados em quilombos e processos movidos por cativos em busca de liberdade. Esses documentos revelam que a escravidão era um sistema permanentemente tensionado pela ação dos próprios escravizados.

Portanto, a resistência negra foi fundamental para enfraquecer o sistema escravista e inspirar movimentos sociais e políticos. Sem ela, o movimento abolicionista não teria encontrado a mesma força moral e simbólica. A abolição, em 1888, deve ser entendida como resultado de uma longa trajetória de luta, na qual os escravizados foram protagonistas, e não meros beneficiários de uma lei.

Capítulo 2 – O Movimento Abolicionista

O movimento abolicionista brasileiro, que ganhou força sobretudo na segunda metade do século XIX, foi resultado da articulação entre diferentes setores da sociedade: intelectuais, jornalistas, políticos, estudantes e até comerciantes urbanos. Ele não surgiu isolado, mas como continuidade da resistência dos próprios escravizados, que já vinham corroendo o sistema por meio de fugas, quilombos e revoltas. A historiografia contemporânea enfatiza que o abolicionismo foi tanto uma mobilização popular quanto uma estratégia política, e que sua força se deveu à convergência de múltiplas vozes.

O historiador Sidney Chalhoub destaca que os tribunais se tornaram arenas importantes para a luta pela liberdade. Escravizados e seus defensores recorriam às brechas legais para reivindicar emancipação, mostrando que o movimento abolicionista não se limitava às elites intelectuais, mas também se manifestava no cotidiano jurídico. Chalhoub afirma que “os escravos não foram meros objetos da lei, mas sujeitos que a acionaram em busca de liberdade”, evidenciando o protagonismo negro dentro do processo.

Clóvis Moura interpreta o abolicionismo como resultado da pressão social acumulada, afirmando que “a escravidão foi sendo minada por dentro, pela ação dos cativos e libertos, até que se tornou insustentável”. Para Moura, o movimento não pode ser visto apenas como benevolência da monarquia ou das elites, mas como consequência direta da luta popular.

Entre os nomes centrais do abolicionismo, Luiz Gama se destaca como advogado e jornalista que libertou centenas de pessoas por meio de ações judiciais. Sua atuação é considerada por muitos historiadores como um dos pilares da prática abolicionista. José do Patrocínio, por sua vez, usou a imprensa para difundir ideias libertárias e mobilizar a opinião pública, sendo chamado de “o tigre da abolição”. Castro Alves, com sua poesia, deu voz à causa, transformando a literatura em instrumento político. E Joaquim Nabuco, parlamentar e diplomata, articulou o movimento em nível institucional, defendendo a abolição como condição para a modernização do país.

Fontes primárias da época, como artigos de jornais abolicionistas, discursos parlamentares e poemas, revelam o clima de efervescência política e cultural. O jornal Gazeta da Tarde, dirigido por José do Patrocínio, publicava constantemente denúncias contra a escravidão e relatos de fugas, enquanto os versos de Castro Alves, como em O Navio Negreiro, sensibilizavam a sociedade ao expor a brutalidade do tráfico e do cativeiro.

Assim, o movimento abolicionista foi uma força plural: combinou a resistência jurídica, a mobilização popular, a atuação intelectual e a pressão política. A historiografia atual insiste que a abolição não foi um presente concedido pela princesa Isabel, mas o resultado inevitável de uma luta que se intensificou ao longo do século XIX e que contou com protagonistas negros e aliados engajados em diferentes frentes.

 Capítulo 3 – A Maçonaria e o Abolicionismo

A participação da maçonaria no movimento abolicionista brasileiro foi significativa, ainda que marcada por tensões internas. Inspirada pelos ideais iluministas de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, a instituição tornou-se um espaço de articulação política e intelectual, reunindo profissionais liberais, militares e parlamentares que defendiam a emancipação gradual e, posteriormente, a abolição total da escravidão.

Historiadores como José Castellani e Adelmo Freire destacam que a maçonaria, por meio do Grande Oriente do Brasil, foi um dos principais centros de difusão das ideias abolicionistas no Rio de Janeiro, onde se reuniam deputados e jornalistas que pressionavam pela aprovação de leis como a Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei dos Sexagenários (1885). Essas medidas, embora limitadas, representaram avanços importantes e foram apoiadas por maçons influentes.

No Ceará, a Sociedade Cearense Libertadora, fortemente ligada à maçonaria, desempenhou papel decisivo para que o estado se tornasse o primeiro a abolir a escravidão em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea. O historiador João Brígido dos Santos relata que reuniões maçônicas em Fortaleza serviam como espaços de mobilização popular, onde se organizavam campanhas de alforria e manifestações públicas.

Em São Paulo, figuras como Luiz Gama, advogado e maçom, utilizaram os tribunais para libertar centenas de pessoas escravizadas, demonstrando que a luta jurídica era também uma frente abolicionista. Já Castro Alves, poeta e maçom, transformou a literatura em arma política, sensibilizando a sociedade com obras como O Navio Negreiro, que denunciava a brutalidade do tráfico.

Fontes primárias, como atas de lojas maçônicas e periódicos da época, revelam debates intensos sobre a escravidão. Em alguns casos, havia contradições: parte da elite escravocrata também integrava a maçonaria, o que gerava conflitos internos. Ainda assim, o núcleo progressista da instituição conseguiu se destacar e influenciar o rumo das reformas.

Assim, a maçonaria funcionou como um espaço de articulação política e cultural, apoiando leis emancipatórias, organizando sociedades libertadoras regionais e difundindo valores universais que confrontavam diretamente a lógica escravista. Sua contribuição foi tanto prática — por meio de campanhas e ações jurídicas — quanto simbólica, ao legitimar o discurso abolicionista dentro das elites políticas e intelectuais do Império.

 Capítulo 4 – Linha do Tempo da Abolição

A trajetória da abolição da escravidão no Brasil pode ser compreendida como um processo gradual, marcado por leis parciais e pressões sociais que culminaram na assinatura da Lei Áurea em 1888. A historiografia mostra que cada etapa foi resultado de tensões internas e externas, da resistência dos escravizados e da mobilização de setores abolicionistas.

Em 1850, a Lei Eusébio de Queirós proibiu o tráfico transatlântico de africanos. Historiadores como Emília Viotti da Costa destacam que essa medida não foi motivada por benevolência, mas por pressões internacionais, sobretudo da Inglaterra, que já havia abolido o tráfico e exigia que o Brasil seguisse o mesmo caminho. Ainda assim, o tráfico interno continuou intenso, deslocando milhares de escravizados para regiões de expansão agrícola, como o café em São Paulo.

Em 1871, a Lei do Ventre Livre determinou que os filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir daquela data seriam considerados livres. O historiador Sidney Chalhoub observa que, na prática, muitas crianças continuaram sob tutela dos senhores até a maioridade, o que limitava os efeitos da lei. Ainda assim, ela representou um avanço simbólico e fortaleceu o discurso abolicionista.

Em 1884, o Ceará se tornou o primeiro estado brasileiro a abolir a escravidão, impulsionado pela ação da Sociedade Cearense Libertadora, ligada à maçonaria e a setores republicanos. O historiador João Brígido dos Santos relata que essa abolição precoce foi resultado da mobilização popular e da pressão de clubes abolicionistas, mostrando que a iniciativa não partiu do governo central, mas das forças locais.

Em 1885, a Lei dos Sexagenários concedeu liberdade aos escravizados com mais de 60 anos. O historiador Clóvis Moura critica essa medida como “uma lei de fachada”, já que poucos chegavam a essa idade devido às condições de vida e trabalho. Ainda assim, ela reforçou a ideia de que o sistema estava em colapso e que a abolição total era inevitável.

Finalmente, em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, composta por apenas dois artigos, extinguindo oficialmente a escravidão no Brasil. A historiadora Lilia Schwarcz lembra que o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, e que essa demora revela a força da elite agrária e a dependência econômica do trabalho cativo. A lei foi celebrada como vitória, mas também criticada por não prever reparações, deixando os libertos à margem da sociedade.

Assim, a linha do tempo da abolição revela um processo gradual, cheio de contradições e pressões internas e externas. Cada etapa foi resultado da resistência dos escravizados, da mobilização popular e da atuação de intelectuais e instituições como a maçonaria. A Lei Áurea, embora simbólica, coroou uma luta longa e difícil, mas deixou lacunas profundas que ainda ecoam na sociedade brasileira.

 Capítulo 5 – A Abolição sem Reparações

A assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888 representou o fim jurídico da escravidão no Brasil, mas não significou a inclusão social dos libertos. A historiografia contemporânea insiste que a abolição foi incompleta, pois não houve políticas de reparação, distribuição de terras ou garantias de cidadania plena. Os ex-escravizados foram lançados à própria sorte, sem acesso a meios de subsistência, educação ou trabalho digno, perpetuando desigualdades que se transformaram em racismo estrutural.

O historiador Clóvis Moura descreve o pós-abolição como uma “continuidade da exclusão estrutural”, afirmando que a liberdade concedida foi apenas formal, sem alterar a base econômica e social que sustentava a marginalização da população negra. Para Moura, a abolição não rompeu com o sistema, mas apenas o adaptou, mantendo os libertos em condições de exploração por meio de formas precárias de trabalho, como a meação e o foreiro.

Abdias do Nascimento, intelectual e ativista, criticou o mito da democracia racial, que se consolidou no século XX como uma narrativa de harmonia entre brancos e negros. Para ele, esse mito mascarava o racismo real e servia para ocultar a ausência de políticas de reparação. Abdias denunciava que a população negra continuava excluída dos espaços de poder e das oportunidades econômicas, vivendo sob um racismo institucionalizado.

A historiadora Lilia Schwarcz reforça que o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, e que essa demora revela a força da elite agrária e a dependência econômica do trabalho cativo. Ela observa que a Lei Áurea, composta por apenas dois artigos, foi simbólica, mas insuficiente: “a liberdade foi concedida sem qualquer projeto de integração social, deixando milhões de pessoas à margem da cidadania”.

Fontes primárias da época, como relatórios parlamentares e artigos de jornais, mostram que havia debates sobre possíveis medidas de transição, mas nenhuma foi implementada. O texto da própria Lei Áurea evidencia essa ausência:

  • Art. 1º: É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil.
  • Art. 2º: Revogam-se as disposições em contrário.

Essa simplicidade revela que não houve preocupação com o destino dos libertos. A historiografia atual interpreta esse vazio como uma das maiores falhas da abolição, responsável por perpetuar desigualdades que ainda marcam a sociedade brasileira.

Portanto, a abolição sem reparações deve ser entendida como um marco contraditório: ao mesmo tempo em que encerrou juridicamente a escravidão, deixou intactas as estruturas de exclusão. A liberdade foi conquistada, mas a cidadania plena foi negada, e essa negação moldou o racismo estrutural que persiste até hoje.

 Capítulo 6 – A Maçonaria na República e na Educação

Com a proclamação da República em 1889, a maçonaria brasileira deslocou parte de sua atuação para a defesa da educação como instrumento de modernização e cidadania. Inspirada pelos ideais iluministas e positivistas, ela passou a defender o ensino público, laico e obrigatório, acreditando que a instrução seria o caminho para consolidar o novo regime e formar cidadãos republicanos.

Historiadores como José Castellani e Adelmo Freire destacam que a maçonaria foi uma das principais forças intelectuais a apoiar a separação entre Igreja e Estado, o que se refletiu diretamente na educação. A defesa do ensino laico era vista como essencial para romper com a influência jesuítica e clerical que dominava a instrução durante o Império. Nesse sentido, a maçonaria se alinhava ao projeto republicano de modernização institucional.

Em várias regiões do país, lojas maçônicas fundaram ou apoiaram escolas e ginásios. O Gymnasio Pelotense, no Rio Grande do Sul, é um exemplo emblemático de instituição criada com forte participação maçônica, que se tornou referência educacional regional. Além disso, periódicos ligados à maçonaria publicavam artigos defendendo a universalização da instrução, reforçando a ideia de que a educação era um direito e um dever do Estado.

A historiadora Lilia Schwarcz observa que, no início da República, havia um discurso de “civilizar pela escola”, e a maçonaria foi uma das instituições que mais se engajaram nessa narrativa. Contudo, ela também ressalta que esse projeto tinha limites: não havia políticas voltadas especificamente para a inclusão da população negra recém-liberta. A educação defendida pelos maçons era universal em teoria, mas na prática atendia sobretudo às camadas médias urbanas e às elites regionais.

O intelectual Clóvis Moura critica esse aspecto, lembrando que a ausência de medidas reparatórias após a abolição se refletiu também na educação. Os libertos foram deixados à margem, sem acesso efetivo às escolas públicas, que ainda eram escassas e concentradas em áreas urbanas. Assim, a maçonaria contribuiu para a modernização do sistema educacional, mas não enfrentou diretamente a questão racial, perpetuando a exclusão dos ex-escravizados.

Fontes primárias, como atas de lojas maçônicas e relatórios de instituições escolares, mostram que havia um esforço real de fundar escolas e apoiar o ensino, mas também revelam que a preocupação central era formar cidadãos republicanos e não reparar as desigualdades herdadas da escravidão.

Portanto, a maçonaria na República desempenhou papel relevante na defesa da educação pública e laica, alinhando-se ao projeto republicano de modernização. Sua contribuição foi decisiva para consolidar valores de cidadania e instrução, mas limitada no enfrentamento das desigualdades raciais, refletindo a contradição do Brasil pós-abolição: liberdade formal sem inclusão plena.

 Capítulo 7 – Memória e Crítica

A abolição da escravidão em 13 de maio de 1888 foi celebrada como um marco histórico, mas sua memória foi reinterpretada ao longo do tempo. Inicialmente, o 13 de maio foi exaltado como símbolo da benevolência da monarquia e da princesa Isabel, que ficou conhecida como “a Redentora”. Essa narrativa, reforçada por discursos oficiais e pela imprensa da época, buscava legitimar a monarquia como responsável pela liberdade, apagando o protagonismo dos escravizados e dos movimentos populares.

A historiadora Emília Viotti da Costa observa que essa versão oficial da abolição serviu para construir uma memória que exaltava a elite política e minimizava a luta dos cativos. Já Clóvis Moura critica essa visão, afirmando que o 13 de maio foi uma “abolição inconclusa”, pois não trouxe reparações e manteve a exclusão estrutural da população negra. Para ele, celebrar apenas a assinatura da lei é perpetuar uma visão elitista da história.

Com o passar das décadas, especialmente a partir da segunda metade do século XX, movimentos sociais e intelectuais negros passaram a questionar essa memória oficial. O ativista Abdias do Nascimento denunciou o mito da democracia racial e defendeu que a verdadeira data de celebração da resistência negra deveria ser o 20 de novembro, em homenagem a Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo da história brasileira. Essa mudança de perspectiva buscava valorizar o protagonismo dos escravizados e suas formas de resistência, em vez de apenas reconhecer a ação da monarquia.

A historiadora Lilia Schwarcz reforça que o 20 de novembro se consolidou como um marco da consciência histórica, pois desloca o foco da “liberdade concedida” para a “liberdade conquistada”. Essa reinterpretação crítica da memória da abolição mostra como a historiografia evoluiu: de uma narrativa oficial centrada na elite para uma visão que reconhece a luta dos negros como força decisiva.

Fontes primárias, como jornais do final do século XIX, revelam o entusiasmo inicial em torno do 13 de maio, com festas e homenagens à princesa Isabel. Já documentos e manifestos de movimentos negros do século XX mostram a crítica a essa celebração, defendendo o 20 de novembro como símbolo da resistência e da luta contínua contra o racismo.

Assim, a memória da abolição é marcada por disputas: de um lado, a narrativa oficial que exaltava a monarquia; de outro, a crítica historiográfica e política que valoriza a resistência negra. O 13 de maio permanece como marco jurídico, mas o 20 de novembro se consolidou como marco simbólico da luta e da consciência histórica, mostrando que a abolição foi conquista dos escravizados e de seus descendentes, e não dádiva da elite.

Conclusão

A historiografia da abolição da escravidão no Brasil revela um processo longo, complexo e contraditório. Desde o início da colonização, os escravizados resistiram de forma ativa e cotidiana, por meio de fugas, quilombos e revoltas, demonstrando que a escravidão nunca foi aceita passivamente. Essa resistência subterrânea corroeu o sistema e inspirou movimentos sociais e políticos que, no século XIX, se organizaram em clubes, associações e campanhas abolicionistas.

O movimento abolicionista, liderado por figuras como Luiz Gama, José do Patrocínio, Castro Alves e Joaquim Nabuco, articulou diferentes frentes: jurídica, cultural, política e popular. A maçonaria, por sua vez, desempenhou papel relevante como espaço de articulação intelectual e política, apoiando leis emancipatórias, organizando sociedades libertadoras regionais e difundindo ideais iluministas de liberdade e igualdade. No Ceará, sua influência foi decisiva para a abolição precoce em 1884, enquanto em São Paulo e no Rio de Janeiro ela ajudou a legitimar o discurso abolicionista entre as elites.

A linha do tempo da abolição mostra um processo gradual: da Lei Eusébio de Queirós (1850), que proibiu o tráfico, à Lei do Ventre Livre (1871), à Lei dos Sexagenários (1885), até culminar na Lei Áurea (1888). Cada etapa foi resultado de pressões internas e externas, mas também de contradições, já que as medidas eram limitadas e insuficientes para garantir liberdade plena.

O grande paradoxo da abolição foi sua incompletude. A Lei Áurea, composta por apenas dois artigos, extinguiu juridicamente a escravidão, mas não trouxe reparações. Não houve distribuição de terras, políticas de inclusão ou garantias de cidadania. Como apontam Clóvis Moura e Abdias do Nascimento, a liberdade foi formal, mas a exclusão estrutural persistiu, moldando o racismo institucional e o mito da democracia racial.

Na República, a maçonaria concentrou esforços na defesa da educação pública, laica e obrigatória, contribuindo para a modernização do sistema educacional. Contudo, sua atuação não enfrentou diretamente a questão racial, refletindo a contradição do Brasil pós-abolição: liberdade sem inclusão.

A memória da abolição também foi disputada. O 13 de maio foi inicialmente exaltado como dádiva da princesa Isabel, mas movimentos negros e historiadores passaram a criticar essa narrativa, defendendo o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, como marco da resistência e da luta contínua contra o racismo. Essa mudança de perspectiva desloca o foco da “liberdade concedida” para a “liberdade conquistada”.

Em síntese, a abolição no Brasil deve ser entendida como resultado da resistência dos escravizados, da mobilização popular e da atuação de intelectuais e instituições como a maçonaria. Foi uma conquista histórica, mas também uma liberdade incompleta, que perpetuou desigualdades e moldou o racismo estrutural. A historiografia contemporânea nos convida a celebrar essa vitória, mas sobretudo a refletir criticamente sobre suas limitações e sobre a necessidade de continuar a luta por igualdade e justiça social.

Bibliografia

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CASTELLANI, José. História da Maçonaria no Brasil. São Paulo: Madras, 2001.

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FREIRE, Adelmo. Maçonaria e abolicionismo no Brasil. Fortaleza: Edições UFC, 1988.

GOMES, Flávio dos Santos. Histórias de quilombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro, século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.

MOURA, Clóvis. Rebeliões da senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas. 4. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.

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SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Mistérios Antigos & Ritos Contemporâneos: O Faraó e o Mestre Maçom

 Mistérios Antigos & Ritos Contemporâneos: O Faraó e o Mestre Maçom

LuCaS

Resumo Este artigo analisa a cerimônia de criação de um faraó no Egito Antigo, destacando suas etapas fundamentais: morte simbólica, ressurreição ritual, unção e investidura com insígnias reais, além do juramento de proteger a Maat, princípio da ordem cósmica e da justiça. Através da dramatização inspirada nos mitos de Osíris e Hórus, o faraó era transfigurado em deus vivo, legitimando sua autoridade espiritual e política perante sacerdotes, nobres e povo. Em paralelo, o estudo evidencia como esses elementos simbólicos encontram eco nos ritos maçônicos, especialmente na elevação ao grau de Mestre, onde também se vivenciam a morte e a ressurreição ritual, a investidura com sinais distintivos e o juramento de fidelidade à verdade e à justiça. Assim, o artigo demonstra que, apesar da distância temporal e cultural, tanto o faraó quanto o Mestre Maçom compartilham uma mesma lógica iniciática: a transformação interior e a legitimação espiritual como fundamentos do poder e da autoridade.

Palavras-chave: Egito Antigo, Faraó, Cerimônia de coroação, Morte simbólica, Ressurreição ritual, Maat, Investidura real, Osíris e Hórus, Maçonaria, Mestre Maçom, Ritos iniciáticos, Simbolismo esotérico.

Ancient Mysteries & Contemporary Rites: The Pharaoh and the Master Mason

LuCaS

Abstract This article examines the coronation ceremony of the pharaoh in Ancient Egypt, highlighting its essential stages: symbolic death, ritual resurrection, anointing and investiture with royal insignia, and the oath to uphold Maat, the principle of cosmic order and justice. Inspired by the myths of Osiris and Horus, the pharaoh was transformed into a living god, legitimizing his spiritual and political authority before priests, nobles, and the people. In parallel, the study explores how these symbolic elements resonate within Masonic rites, particularly in the elevation to the degree of Master Mason, where the candidate also undergoes symbolic death and resurrection, receives distinctive signs, and pledges fidelity to truth and justice. The comparison reveals that, despite temporal and cultural distance, both the pharaoh and the Master Mason share the same initiatory logic: inner transformation and spiritual legitimation as foundations of power and authority.

Keywords: Ancient Egypt, Pharaoh, Coronation ceremony, Symbolic death, Ritual resurrection, Maat, Royal investiture, Osiris and Horus, Freemasonry, Master Mason, Initiatory rites, Esoteric symbolism.

Mistérios Antigos & Ritos Contemporâneos: O Faraó e o Mestre Maçom

LuCaS

Introdução

A coroação de um faraó no Egito Antigo não era apenas um ato político, mas um ritual profundamente espiritual que marcava a transformação de um homem em deus vivo. Inspirada nos mitos de Osíris e Hórus, essa cerimônia envolvia etapas de morte simbólica, ressurreição ritual, unção com óleos sagrados e investidura com insígnias reais, culminando no juramento de proteger a Maat, a ordem cósmica e a justiça universal. Cada gesto, cada palavra e cada objeto utilizado tinha um significado esotérico, reforçando a ideia de que o poder real não era apenas humano, mas emanava diretamente do divino.

Séculos mais tarde, muitos desses elementos simbólicos reapareceriam nos ritos iniciáticos da Maçonaria, especialmente na cerimônia de elevação ao grau de Mestre, onde o iniciado também vivencia a morte e a ressurreição ritual, recebendo sinais e palavras que o distinguem e o consagram dentro da ordem. Assim, ao comparar a feitura de um faraó com a criação de um Mestre Maçom, percebemos que ambos os rituais compartilham uma mesma lógica iniciática: a transformação interior, a legitimação espiritual e o compromisso com a verdade e a justiça.

Este artigo, intitulado “Mistérios Antigos & Ritos Contemporâneos: O Faraó e o Mestre Maçom”, busca explorar essas conexões, mostrando como tradições milenares do Egito sobreviveram e se reinventaram em práticas modernas, revelando a continuidade de um mesmo fio simbólico que atravessa culturas, épocas e sociedades.

1. Estrutura da Cerimônia de Criação de um Faraó

1.1. Morte Simbólica

O ritual de criação de um faraó era um dos momentos mais solenes da vida política e religiosa do Egito Antigo. Ele não se limitava a uma coroação formal, mas constituía uma verdadeira iniciação espiritual, na qual o candidato ao trono precisava passar por uma experiência de morte simbólica e renascimento ritual. Esse processo acontecia em templos sagrados, especialmente em locais associados ao culto de Osíris e Hórus, como Abidos e Heliópolis, em câmaras internas reservadas apenas aos sacerdotes e iniciados. O espaço era preparado para representar o Duat, o mundo dos mortos, reforçando a ideia de travessia e transformação.

Primeiro, o candidato era submetido a ritos de purificação: banhos nas águas do Nilo ou em tanques sagrados, unções com óleos aromáticos e perfumes, além da vestimenta cerimonial que o separava da vida comum. Em seguida, vinha a encenação da morte. O futuro faraó podia ser colocado em posição deitado, como um corpo funerário, enquanto sacerdotes recitavam fórmulas mágicas e cânticos evocando o mito de Osíris. Esse silêncio e imobilidade representavam sua passagem ao mundo dos mortos, o abandono da identidade humana e a preparação para assumir um papel divino.

Depois, ocorria a ressurreição simbólica. O faraó era “revivido” por meio de invocações sagradas, levantado pelos sacerdotes e proclamado como Hórus vivo, sucessor legítimo de Osíris. Essa etapa simbolizava a vitória sobre o caos e a legitimação espiritual do novo governante. A partir daí, ele recebia as insígnias reais: a coroa dupla, unindo o Alto e o Baixo Egito, o cetro e o flagelo como símbolos de poder e justiça, e seu nome inscrito em um cartucho real, eternizando sua identidade divina. Por fim, o faraó fazia o juramento de proteger a Maat, a ordem cósmica e a justiça universal, sendo reconhecido pelos sacerdotes, nobres e pelo povo como mediador entre deuses e homens.

Esse ritual de morte e renascimento não era apenas uma cerimônia política, mas uma dramatização religiosa que transformava o faraó em um ser divino. Ele deixava de ser apenas um homem e passava a ser o eixo cósmico que garantia a prosperidade e a continuidade do Egito. É por isso que a coroação era entendida como uma renovação da ordem universal, e não apenas como a ascensão de um novo governante.

1.2. Ritual de Ressurreição

O ritual de ressurreição do faraó era o ponto culminante da cerimônia de coroação e tinha como inspiração direta o mito de Osíris. Depois de passar pela morte simbólica, o candidato era conduzido pelos sacerdotes a uma encenação solene que representava sua volta à vida. Em câmaras internas do templo, os sacerdotes recitavam fórmulas mágicas e hinos sagrados, invocando os deuses para que o novo rei fosse restaurado à existência, não como homem comum, mas como ser divino. Gestos ritualísticos acompanhavam essas palavras, como o erguer do corpo do faraó, a imposição das mãos e o uso de objetos sagrados que simbolizavam a vitória sobre a morte e o caos.

Esse momento era entendido como uma verdadeira transfiguração: o faraó deixava de ser apenas o herdeiro humano da dinastia e tornava-se Hórus vivo, sucessor legítimo de Osíris. A ressurreição ritual legitimava sua autoridade espiritual e política, pois demonstrava que ele havia sido escolhido e aceito pelos deuses para governar. A partir daí, o novo faraó assumia o papel de mediador entre o mundo divino e o mundo humano, responsável por manter a ordem cósmica (Maat) e garantir a prosperidade do Egito. Essa cerimônia não era apenas um rito religioso, mas também uma afirmação pública de que o poder real tinha origem sagrada e que o governante era, de fato, um deus vivo sobre a terra.

1.3. Unção e Investidura

Após a ressurreição simbólica, o faraó era conduzido à etapa da unção e investidura, que representava sua consagração definitiva como soberano divino. Nesse momento, sacerdotes realizavam a unção do novo rei com óleos e perfumes sagrados, preparados a partir de resinas e essências raras, reforçando sua ligação com os deuses e purificando-o espiritualmente. A fragrância desses elementos não era apenas ritualística, mas também carregava um significado de renovação e eternidade, marcando o início de uma nova vida como governante sagrado.

Em seguida, o faraó recebia os símbolos de poder que o legitimavam como senhor das Duas Terras. A coroa dupla, formada pela coroa branca do Alto Egito e pela coroa vermelha do Baixo Egito, era colocada sobre sua cabeça, simbolizando a união e o equilíbrio entre as duas regiões. O cetro e o flagelo eram entregues em suas mãos, representando respectivamente o domínio sobre o povo e a justiça que deveria reger seu governo. Por fim, seu nome era inscrito em um cartucho real, gravado em pedra e proclamado diante dos presentes, eternizando sua identidade divina e garantindo que sua memória fosse preservada para além da vida terrena.

Essa cerimônia de unção e investidura não era apenas um ato formal, mas um rito que transformava o faraó em mediador entre o mundo humano e o divino. A partir desse instante, ele não era mais apenas um homem coroado, mas um deus vivo sobre a terra, responsável por manter a ordem cósmica (Maat) e assegurar a prosperidade do Egito.

1.4. Juramento e Reconhecimento

Na etapa final da cerimônia de coroação, o novo faraó realizava o juramento e recebia o reconhecimento público de sua autoridade. Esse momento era profundamente simbólico, pois marcava a transição definitiva do governante para sua função como mediador entre os deuses e os homens. Diante dos sacerdotes e da nobreza, o faraó fazia votos solenes de proteger a Maat, princípio que representava a ordem cósmica, a verdade e a justiça. Esse compromisso não era apenas religioso, mas também político, já que assegurava ao povo que o novo soberano governaria em harmonia com as leis divinas e manteria o equilíbrio universal.

Após o juramento, os sacerdotes e os altos dignitários reconheciam publicamente sua autoridade, proclamando-o como legítimo sucessor e reafirmando sua condição de deus vivo sobre a terra. Esse reconhecimento era essencial para consolidar a legitimidade do poder real, pois mostrava que tanto a elite quanto o clero estavam unidos em torno da nova liderança. Em seguida, o povo participava de grandes celebrações, que incluíam procissões, oferendas e festivais, reforçando a união entre governante e governados. Dessa forma, o juramento e o reconhecimento não apenas consagravam o faraó espiritualmente, mas também estabeleciam um pacto coletivo de fidelidade e prosperidade, garantindo que sua ascensão fosse vista como uma renovação da ordem cósmica e da estabilidade do Egito.

2. Relação com a Maçonaria

A relação entre os rituais de feitura de um faraó no Egito Antigo e a cerimônia maçônica de criação de um Mestre Maçom é marcada por paralelos simbólicos muito fortes, especialmente nos temas de morte, ressurreição e consagração. No Egito, o faraó passava por uma morte ritual, era ressuscitado simbolicamente e recebia insígnias que o tornavam um deus vivo. Na Maçonaria, o candidato ao grau de Mestre também vivencia uma dramatização de morte e renascimento, inspirada na lenda de Hiram Abiff, que é morto e depois “revivido” em cerimônia solene.

Assim como o faraó era deitado como se fosse um corpo funerário e depois erguido pelos sacerdotes, o iniciado maçom é simbolicamente “abatido” e colocado em posição de morto, para em seguida ser levantado pelos irmãos através da “palavra” e dos gestos ritualísticos que representam a vida restaurada. Essa ressurreição, tanto no Egito quanto na Maçonaria, não é física, mas espiritual: marca a transição do homem comum para alguém que carrega uma missão sagrada, seja como mediador entre deuses e homens, no caso do faraó, ou como guardião dos mistérios e da tradição, no caso do Mestre Maçom.

Outro ponto de semelhança está na investidura. O faraó recebia a coroa dupla, o cetro e o flagelo, símbolos de poder e justiça, além de ter seu nome inscrito em um cartucho real, eternizando sua identidade divina. O Mestre Maçom, por sua vez, recebe palavras, sinais e toques que o distingue dos demais graus, insígnias simbólicas que não são objetos materiais, mas chaves de acesso ao conhecimento e à autoridade dentro da ordem. Ambos os rituais, portanto, conferem ao iniciado uma nova identidade e um novo “status”, reconhecido pela comunidade.

Por fim, o juramento e reconhecimento também se refletem nos dois sistemas. O faraó fazia votos de proteger a Maat, a ordem cósmica, e era reconhecido pelos sacerdotes, nobres e pelo povo. O Mestre Maçom, ao ser “elevado”, compromete-se a respeitar os princípios da fraternidade, da verdade e da justiça, sendo reconhecido pelos irmãos como alguém que alcançou o grau mais alto da Loja simbólica. Em ambos os casos, o ritual não apenas legitima o novo “”status, mas reafirma valores universais de ordem, justiça e equilíbrio.

Tanto na coroação faraônica quanto na exaltação maçônica, encontramos os mesmos elementos fundamentais: morte simbólica, ressurreição ritual, investidura com insígnias ou sinais de poder e juramento de manter a ordem e a justiça. Esses paralelos mostram como tradições antigas foram preservadas e reinterpretadas ao longo dos séculos, mantendo viva a ideia de que o verdadeiro poder nasce da transformação interior e da ligação com princípios superiores.

Conclusão

Concluindo, a cerimônia de criação de um faraó no Egito Antigo revela-se como um dos mais complexos e significativos rituais de legitimação de poder já concebidos. Ao passar pela morte simbólica, pela ressurreição ritual, pela unção e investidura com insígnias sagradas e pelo juramento de proteger a Maat, o novo soberano não apenas assumia o trono, mas era transfigurado em um deus vivo, mediador entre o mundo humano e o divino. Essa estrutura ritual, profundamente enraizada nos mitos de Osíris e Hórus, garantia que o poder real fosse visto como emanado diretamente dos deuses, sustentando a ordem cósmica e a prosperidade do Egito.

Séculos e Séculos, depois, encontramos ecos desses mesmos elementos nos ritos maçônicos, especialmente na exaltação ao grau de Mestre, onde a morte e a ressurreição simbólicas, a investidura com sinais, toques e palavras secretas e o juramento de fidelidade à verdade e à justiça refletem a mesma lógica iniciática. A comparação entre o faraó e o Mestre Maçom mostra que, apesar da distância temporal e cultural, permanece viva a ideia de que o verdadeiro poder nasce da transformação interior e da ligação com princípios superiores.

Assim, ao estudar os mistérios antigos e os ritos contemporâneos, percebemos que ambos compartilham uma mesma essência: a busca pela transcendência, pela ordem e pela perpetuação de valores universais. O faraó e o Mestre Maçom, cada um em seu tempo e contexto, são símbolos de uma tradição que atravessa milênios, reafirmando que a autoridade legítima só se sustenta quando enraizada no sagrado e na justiça.

Paz Profunda!!!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

LOJA MÃE

 

LOJA MÃE

(PALESTRA)

 

Venerável Mestre, presidente desta sessão, Veneráveis Mestres das demais Lojas e Potências aqui presentes, Oficiais, Dignidades, Meus amados Irmãos...

         Nesta noite, estamos escrevendo um importante capítulo, o qual deve ser inserido na História da Maçonaria Paraibana, Brasileira e, em consequência, do Mundo.

O ato bravo e histórico que estamos a presenciar, isto é, a reunião de diversas Lojas de mais de uma Potência Maçônica, realizada, não por convocação dos Conselhos Superiores, mas por iniciativa de uma Loja que encontrou ressonância ao seu ideal de pôr em prática o reconhecimento e o respeito mútuos, estreitando ainda mais os nossos laços de amizade.

            Meus Irmãos! Modernamente, existe muita semelhança entre um Estado Maçônico ou Potência ou, ainda, Obediência Maçônica e um Estado social e politicamente organizado. 

“Um Estado político compreende Povo, Território e Governo”.

         Uma Potência Maçônica compreende o Povo Maçônico, o Governo da Fraternidade e o Território de Jurisdição”.

         Os territórios físicos de mais de uma Potência Maçônica, podem ser comuns, ou seja, uma mesma região geográfica, como a nossa, abrigar mais de uma Potência Maçônica, sem que qualquer uma delas perca ou aliene sua soberania nem diminua sua regularidade. E por falar em regularidade de Potências, cita-se o pensamento de nosso Irmão Morivalde Calvet Fagundes, Presidente da Academia Maçônica de Letras.

  “Afinal de contas, cremos que é chegado o momento de se perguntar: A regularidade é mesmo um conceito, uma opinião, um juízo, ou não passa de um preconceito, uma opinião errônea, um convencionalismo?  Pelos efeitos maléficos e contraditórios, não temos dúvida em afirmar que se trata, na realidade, de um prejuízo, um preconceito, uma convenção errônea”.

E prossegue Morivalde:

          “Para provar isto, basta apenas dar um exemplo, entre dezenas, que poderiam ser dados: As 49 Grandes Lojas norte-americanas reconhecem no Brasil, em sua quase totalidade, as Grandes Lojas brasileiras, e não o Grande Oriente do Brasil; e são reconhecidas na Inglaterra pela Grande Loja Mãe do Mundo; esta, porém, no Brasil, só reconhece o Grande Oriente do Brasil e não as Grandes Lojas Brasileiras. Onde há coerência, onde há regularidade? Quem está com a razão?”

 Amados Irmãos! Pessoalmente, achamos que movimentos como este que ora  presenciamos sob o patrocínio dos Veneráveis Mestres, apoiados pelos valores obreiros de suas Lojas, devem ser enaltecidos e intensificados e prometemos dedicar a nossa existência, por mais breve que ela possa ser, a esse desiderato, embora sabendo que estaremos enfrentando os poderosos caudilhos donos e depositários dos Dogmas da Regularidade Maçônica.

Ora, Irmãos! Sabemos que maçonaria é construir o Homem; é incentivar as ideias e as propostas que objetivem ampliar a compreensão e o entendimento entre os povos e viabilizar a paz mundial; é restaurar os princípios éticos da humanidade; é propor que a ação decorre do pensamento ... é, em resumo, a criação do Homem Integral, que formará uma humanidade melhor e mais esclarecida.

É a formação desse Homem Integral privilégio da Potência A, B ou C?  Não! Bem antes de surgirem as Potências Maçônicas, já existiam as Lojas com essas propostas. É, pois, a Loja a grande responsável pela transmutação alquímica do Homem.

A Loja Mãe, isto é, aquela na qual o maçom foi iniciado, fazendo o verdadeiro papel de mão dedicada cujo único e principal objetivo é encaminhar o filho para que ele alcance o sucesso e a glória, ensina ao maçom, entre outras coisas, que o Homem Integral participa de maneira integrada e decidida, nos diversos planos da atividade humana.  Assim sendo, no plano de sua relação consigo mesmo, o maçom será um homem que conhece as suas potencialidades, usa racionalmente o seu tempo dedica-se, de maneira equilibrada, ao trabalho, ao estudo e ao necessário lazer;

No plano familiar, deve ser filho atento, irmão dedicado, marido correto, pai consciente de seu papel de provedor, não só material, e formador ou modelador do caráter daqueles que o sucederão;

No plano profissional, o maçom deverá estar sempre disposto a se aplicar em obter o maior aproveitamento de sua capacidade, na tentativa de se tornar cada vez mais um participante eficaz de todo o processo de desenvolvimento da humanidade. Aprendendo, deverá divulgar o que aprendeu. Sendo subordinado atento e superior interessado, o Homem Integral promoverá sua realização profissional sem se esquecer de sua condição humana.

No plano social, a Loja nos ensina que devemos atuar de maneira pacífica, prudente, mas efetiva, na solução dos problemas da sociedade, devemos ser eleitores conscientes, bons cidadãos, justos, para que possa existir o Estado justo;

No plano político, embora não sejam permitidas as discussões partidárias, a loja nos ensina que o Homem Integral será sempre participante de decisões que afetem a Comunidade, o Estado e o Mundo na medida de suas possibilidades. Não se acomodará sob a justificativa de que não tem poder de decisão; pelo contrário deverá sugerir ativamente aos seus representantes, os políticos profissionais, medidas que julgue adequadas à sociedade.

A formação do Homem Integral, retro-caracterizado e proporcionado pela Loja, nossa Loja Mãe, é, em meu entendimento o maior e mais nobre dos objetivos da Maçonaria, uma vez que, se o homem atender a todos os requisitos listados, nos diversos planos de sua atividade, estará certamente assegurada a existência real de uma humanidade melhor e mais esclarecida.

A Loja ou a Ordem ao adotar, como símbolo, a Pedra Bruta, a Pedra Cúbica, a Pedra Polida, o Edifício Social e as ferramentas da construção, explica que o homem comum com potencial, deve ser trabalhado para ter suas arestas desbastadas e tornadas regulares, para que, com ele, possa ser construída uma sociedade mais equânime, equitativa, solidária e coesa.

Mas, para que a Loja tenha condições de atingir esses elevados propósitos, é necessário que nós, como seus filhos maçons, nos dediquemos ao trabalho do autoconhecimento, da autocrítica, da permanente autorrenovarão e, também, - isto é  importante - , da catequese, na procura de outros desejosos de aperfeiçoamento.

A esse trabalho devemos aderir com entusiasmo, posto que o verdadeiro maçom deve encarar esse trabalho como uma das missões de sua vida, visto que, assim fazendo estará, teoricamente, perpetuando a Ordem, através  do fortalecimento da sua Loja Mãe, para que ela possa continuar a realização dos objetivos da Ordem, razão de ser da Loja.

PAZ PROFUNDA!

Satisfeito!!!

LUIZ CARLOS SILVA, M. I.

Palestra proferida em 19 de agosto de 1993, no Templo da Augusta, Benemérita e Respeitável Loja Simbólica Regeneração Campinense nº 2, por ocasião do seu 70º aniversário.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

A retidão do prumo e o silêncio do justo: a falácia Ad Hominem

 A retidão do prumo e o silêncio do justo: a falácia Ad Hominem

Por: Hugo Rafael Belarmino da Silva*,

No constante trabalho de desbastar a Pedra Bruta que somos nós, deparamo-nos frequentemente com as vicissitudes do mundo profano. Entre elas, uma ferramenta vil, alheia aos nossos canteiros de obras, tem sido empunhada com frequência: o Argumentum Ad Hominem.

Como obreiros da Arte Real, sabemos que a construção do Templo da Humanidade exige o uso correto das ferramentas. Contudo, observamos que, quando um indivíduo se vê desprovido de materiais sólidos, ou seja, sem fatos ou razão para edificar um contra-argumento, ele abandona o Esquadro da retidão e empunha o malho da ofensa.

Sob a ótica da nossa filosofia, esse comportamento denuncia que o interlocutor abandonou a busca pela verdade e sucumbiu aos seus próprios metais e vícios. A lição que extraímos, meus Irmãos, é profunda: quando a ofensa pessoal substitui o debate de ideias, a Luz se apagou para aquele que ataca. 

O golpe desferido contra o mestre é, na realidade, o reconhecimento tácito de que o argumento é uma coluna sólida, aprumada e nivelada, impossível de ser derrubada pela lógica.

Portanto, quando nós, construtores sociais, nos virmos diante de tal tentativa de desestabilização, devemos recordarmos do uso do Compasso. É ele que nos ensina a manter nossas paixões dentro de justos limites. Não revideis com a mesma aspereza.

Respirai fundo e lembrai-vos: o ataque furioso não reflete a vossa obra, mas sim a desordem na oficina interior do outro. É o ruído da pedra bruta alheia chocando-se contra a vossa tolerância.

Mantenham a postura ereta que o Prumo nos exige. Muitas vezes, o melhor uso que podemos fazer da Trolha não é apenas para espalhar o cimento da união, mas para cobrir com o silêncio as imperfeições daqueles que ainda não aprenderam a trabalhar no seu templo interior. 

O silêncio do justo diante da ofensa injusta não é covardia; é a mais eloquente das respostas, provando que, naquele momento, apenas um dos dois permaneceu fiel à construção do Templo.


*Hugo Rafael Belarmino da Silva é membro da 

Loja simbólica Regeneração Campinense 02 e, 17º do REAA, da ILPB-1

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

A Maçonaria Na Paraíba e No Nordeste: Origens, Princípios e Contribuições Históricas

 A Maçonaria Na Paraíba e No Nordeste: Origens, Princípios e Contribuições Históricas

LuCaS

RESUMO: Este artigo propõe uma abordagem histórico-institucional da Maçonaria no Nordeste brasileiro, com foco na atuação da Maçonaria paraibana desde o período colonial até sua consolidação como potência filosófica e simbólica. A partir de fontes documentais e registros de autores como Zenaide e Elisiário, examina-se a gênese das sociedades secretas no Areópago de Itambé, a fundação das primeiras lojas regulares na Paraíba, o processo de ruptura entre o Supremo Conselho do Grau 33º e o Grande Oriente do Brasil, e a consequente criação da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba. O estudo evidencia o protagonismo da Maçonaria regional nos movimentos de emancipação política, na formação de lideranças republicanas e na difusão dos valores do Rito Escocês Antigo e Aceito, reafirmando seu papel na construção de uma sociedade democrática e fraterna.

Palavras-chave: Maçonaria; Paraíba; Areópago de Itambé; Rito Escocês; Grandes Lojas; História institucional.

1 INTRODUÇÃO

A Maçonaria é uma instituição iniciática, filosófica e filantrópica que tem como propósito o aperfeiçoamento moral, intelectual e espiritual do ser humano. Fundamentada em princípios universais como liberdade, igualdade e fraternidade, atua como uma escola de virtudes, cultivando a fraternidade universal sob a égide do Grande Arquiteto do Universo. Embora não se configure como organização política ou religiosa, sua influência histórica é notável nos processos de transformação cultural, política e institucional das sociedades em que se insere.

Esses princípios (liberdade, igualdade e fraternidade) refletem os ideais iluministas que influenciaram revoluções como a Francesa (1789) e a Americana (1776). A Maçonaria contribuiu historicamente para a consolidação da democracia, da cidadania e dos direitos fundamentais, promovendo o desenvolvimento ético e o compromisso com a justiça social.

No Brasil, sua presença remonta ao período colonial, ainda que de forma velada, em razão das restrições impostas pela Coroa portuguesa. Com a chegada das ideias iluministas e o avanço dos movimentos de emancipação política, a Maçonaria passou a desempenhar papel ativo na articulação de lideranças, na difusão dos ideais republicanos e na defesa da soberania nacional. Segundo Zenaide (2000), a Maçonaria brasileira consolidou-se como força atuante em diversos campos da vida social, contribuindo para a formação de instituições democráticas e para a promoção dos direitos humanos.

Este artigo propõe uma análise histórico-institucional da Maçonaria no Nordeste brasileiro, com ênfase na atuação da Maçonaria paraibana. A partir de fontes documentais e registros de autores como Zenaide e Elisiário, examina-se a gênese das sociedades secretas no Areópago de Itambé, a fundação das primeiras lojas regulares na Paraíba, o processo de ruptura entre o Supremo Conselho do Grau 33º e o Grande Oriente do Brasil, e a consequente criação da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba. Ao resgatar essa trajetória, busca-se evidenciar a relevância histórica, filosófica e institucional da Maçonaria regional como protagonista na construção de uma sociedade mais justa, democrática e fraterna.

2 ORIGENS NO NORDESTE

As primeiras manifestações maçônicas no Nordeste brasileiro remontam ao final do século XVIII, em um contexto de efervescência intelectual e política marcado pela disseminação das ideias iluministas e pela insatisfação com o domínio colonial português. O marco inaugural dessa presença é o Areópago de Itambé, fundado por Manoel Arruda Câmara, natural da então Vila de Pombal, atual cidade de Pombal, na Paraíba.

O Areópago de Itambé, sediado no distrito homônimo pertencente à cidade de Goiana, em Pernambuco, funcionava como uma sociedade secreta de caráter filosófico e político, reunindo intelectuais, religiosos, militares e comerciantes. Segundo Zenaide (2000), esse espaço era dedicado à discussão dos ideais de independência, república e liberdade civil, inspirados nas Declarações de Direitos da Revolução Francesa (1789) e da Independência Americana (1776). Oliveira Lima, citado por Zenaide, considera o Areópago como a primeira loja maçônica do Nordeste, embora não tenha sido formalmente reconhecida como tal pelas potências maçônicas da época.

Manoel Arruda Câmara, formado em medicina e filosofia pela Universidade de Montpellier, na França, foi o principal articulador do Areópago. Sua formação europeia e seu contato direto com os círculos iluministas conferiram ao movimento um caráter avançado e profundamente influenciado pelos princípios da razão, da ciência e da liberdade. Sua atuação no Areópago foi marcada pela defesa da liberdade de consciência, da soberania popular e da reforma agrária, temas considerados subversivos à época. Como destaca Ferreira Pinto (1977; 1978), o Areópago funcionava como um centro de irradiação das ideias revolucionárias, tendo contribuído diretamente para a eclosão da Revolução Pernambucana de 1817.

A participação de maçons e intelectuais paraibanos no Areópago de Itambé é um dos aspectos mais relevantes da gênese da Maçonaria no Nordeste brasileiro. Segundo Irineu Ferreira Pinto (1978), diversos paraibanos integraram esse círculo, contribuindo diretamente para a difusão das ideias de emancipação e reforma institucional. Entre os nomes mais destacados está o padre Antônio Pereira de Albuquerque, natural da cidade de Pilar, que teve atuação decisiva nas articulações do Areópago. Sua militância política e filosófica resultou em sua condenação à morte pelas autoridades coloniais, evidenciando o grau de comprometimento e risco assumido pelos participantes do movimento. Outro nome relevante é o padre Antônio Félix Velho Cardoso, também ligado à cidade de Pilar, cuja atuação intelectual reforça a presença paraibana nas discussões que antecederam a Revolução Pernambucana de 1817.

A presença de paraibanos no Areópago não se deu apenas em termos individuais, mas também institucionais. Cidades como Itabaiana, Pilar e Pombal tornaram-se polos de resistência intelectual e política, abrigando núcleos de discussão e articulação que influenciaram diretamente os movimentos de independência e de formação republicana. Como observa Zenaide (2000), a atuação desses maçons e pensadores paraibanos antecipou a fundação das primeiras lojas regulares no estado, consolidando uma tradição maçônica comprometida com a transformação social e com os valores do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Embora o Areópago tenha sido dissolvido em 1801, após denúncias de conspiração contra o governo colonial, sua influência perdurou nas décadas seguintes, servindo de base para a fundação das primeiras lojas maçônicas regulares no Nordeste. Sua estrutura, ainda que informal, antecipava os princípios organizacionais da Maçonaria moderna, como a valorização do debate filosófico, a prática da iniciação simbólica e o compromisso com a transformação social.

A memória do Areópago de Itambé permanece como símbolo da gênese da Maçonaria nordestina, representando o elo entre o pensamento iluminista europeu e a luta pela emancipação política brasileira. Sua existência confirma que a Maçonaria no Brasil não foi apenas receptora de influências externas, mas também produtora de pensamento crítico e agente ativo nos processos históricos que culminaram na independência e na formação da república.

3 AS PRIMEIRAS LOJAS NA PARAÍBA

A história da Maçonaria na Paraíba começa com a fundação da Loja Maçônica Pelicano, em 1822, na cidade de João Pessoa. Embora seja reconhecida como a primeira loja maçônica do estado, não há registros precisos sobre sua estrutura organizacional, membros fundadores ou atividades desenvolvidas. Sua criação coincide com o ano da Independência do Brasil, o que sugere que ela pode ter desempenhado papel simbólico ou articulador nos debates sobre soberania nacional e reforma política.

A segunda loja a surgir foi a Regeneração Brasílica, fundada em 1865, também em João Pessoa. Segundo Zenaide, esta loja é considerada a primeira efetivamente instalada e documentada na Paraíba. Sua atuação se deu em um contexto de efervescência política, marcado pela ascensão das ideias republicanas e pela intensificação da campanha abolicionista. A Regeneração Brasílica tornou-se referência na articulação de lideranças locais e na promoção de valores iluministas e humanistas.

No mesmo ano, foi fundada a Loja União e Beneficência, na cidade de Mamanguape. Esta loja ampliou a presença maçônica para o interior do estado, contribuindo para a disseminação dos ideais maçônicos entre comerciantes, profissionais liberais e líderes comunitários. Sua atuação reforça o caráter descentralizado da Maçonaria paraibana, que não se restringia à capital.

Em 1873, surgiu em Campina Grande a Loja Segredo e Lealdade, considerada um marco na expansão maçônica para o agreste paraibano. Esta loja teve papel relevante nos movimentos pela abolição da escravatura e pela Proclamação da República, além de protagonizar os primeiros conflitos entre a Maçonaria e a Igreja Católica na região. Segundo registros históricos, foi nesta loja que se iniciaram as tensões que culminariam na chamada Questão Religiosa, envolvendo o bispo D. Vital de Oliveira e o padre Calixto Nóbrega.

Outras lojas foram fundadas nas décadas seguintes, como Vigilância e Segredo (1875), Renascença (1875), Constância e Lealdade (1877) e Lealdade e Perseverança (1882), todas em João Pessoa ou Campina Grande. Essas lojas estiveram engajadas em causas sociais e políticas, como a assistência aos retirantes da seca, a fundação de escolas e bibliotecas, e a defesa da laicidade do Estado.

Segundo Botelho (2025), a tradição maçônica na Paraíba está ligada à atuação de figuras como Manoel Arruda Câmara, que já no século XVIII articulava redes de pensamento libertário entre Pernambuco e a então Vila de Pedras de Fogo, próxima ao Distrito de Itambé. Essa conexão histórica reforça a ideia de que a Maçonaria paraibana não apenas recebeu influências externas, mas também produziu pensamento político original e atuante.

4 A GRANDE LOJA MAÇÔNICA DA PARAÍBA

A fundação da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba, em 24 de agosto de 1927, representa um marco institucional na história da Maçonaria brasileira. O evento foi resultado de um movimento de cisão de três lojas paraibanas, Branca Dias, Regeneração Campinense e Padre Azevedo, que decidiram desvincular-se do Grande Oriente do Brasil (GOB), criando uma nova potência maçônica: a Grande Loja Simbólica Escocesa Soberana para o Estado da Paraíba, posteriormente renomeada como Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba em 1934 (ZENAIDE, 2000.).

Segundo Zenaide, a criação da Grande Loja da Paraíba ocorreu em consonância com o movimento nacional liderado pelo Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Grau 33º, Irmão Mário Behring, que propunha a descentralização da Maçonaria brasileira e a autonomia das lojas simbólicas em cada estado. A Paraíba integrou o grupo das seis primeiras Grandes Lojas Estaduais criadas no Brasil, ao lado das do Amazonas, Pará, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo.

A solenidade de fundação foi realizada no templo da Loja Branca Dias, sob a presidência do Irmão Augusto Simões. Na ocasião, foram eleitos por aclamação o Irmão Manoel Velloso Borges como Grão-Mestre e o Irmão João Arlindo Correia como Grão-Mestre Adjunto. A primeira diretoria foi composta por maçons de reconhecida atuação, oriundos das três lojas fundadoras, e teve como missão consolidar a nova estrutura institucional e garantir a regularidade dos trabalhos maçônicos no estado.

A decisão de romper com o GOB foi motivada por divergências doutrinárias e administrativas, especialmente no que diz respeito à observância dos princípios do Rito Escocês Antigo e Aceito. Conforme registrado no Boletim Informativo do Jubileu de Brilhante da Grande Loja Maçônica da Paraíba (2002), a Loja Regeneração Campinense, liderada por João Arlindo Correia, declarou reconhecer como única potência legítima o Supremo Conselho do Grau 33º, retirando sua solidariedade ao GOB, o que culminou na suspensão da loja pelo Decreto nº 867, de 4 de agosto de 1927.

A estrutura da Grande Loja foi organizada com base nos três poderes maçônicos, (Executivo, Legislativo e Judiciário), e passou a administrar os três graus simbólicos do Rito Escocês com plena soberania. A nova potência também estabeleceu vínculos diretos com o Supremo Conselho, que passou a fornecer as Cartas Constitutivas e os rituais oficiais, garantindo o reconhecimento internacional da Maçonaria paraibana.

A Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba consolidou-se como referência nacional, promovendo a formação de lideranças, a difusão dos valores republicanos e a atuação social em áreas como educação, assistência e cultura. Seu surgimento representa não apenas uma resposta à crise institucional da Maçonaria brasileira, mas também uma afirmação da autonomia ritualística e filosófica das lojas paraibanas.

5 INSPETORIA LITÚRGICA DA PARAÍBA

A Inspetoria Litúrgica do Estado da Paraíba constitui um dos pilares da estrutura filosófica do Rito Escocês Antigo e Aceito, sendo responsável pela coordenação dos Corpos Subordinados ao Supremo Conselho em nível estadual. Sua função é garantir a regularidade ritualística, a formação doutrinária e a supervisão administrativa dos graus superiores da Maçonaria, do 4º ao 33º.

A primeira Inspetoria Litúrgica foi instalada na cidade de Campina Grande, tendo como sede o templo da Loja Maçônica Regeneração Campinense. À época, sua jurisdição abrangia todo o território paraibano, refletindo a centralidade de Campina Grande no cenário maçônico regional. Segundo Elisiário, essa instalação ocorreu em um contexto de reorganização nacional do Rito Escocês, após o rompimento entre o Supremo Conselho e o Grande Oriente do Brasil.

Em 1926, o Supremo Conselho, sob a liderança do Soberano Grande Comendador Mário Behring, nomeou o Irmão José Eugênio Lins de Albuquerque como o primeiro Inspetor Litúrgico da Paraíba. Essa nomeação marcou o início da atuação litúrgica regular no estado, alinhada à nova estrutura filosófica independente do Grande Oriente. José Eugênio passou a coordenar os trabalhos dos Corpos Filosóficos, promovendo a expansão do Rito Escocês e a formação de novos iniciados nos graus superiores.

Com o crescimento da Maçonaria filosófica na Paraíba e a fundação de novos Corpos Subordinados, tornou-se necessário reorganizar a jurisdição da Inspetoria. Sob a liderança do Irmão Ailton Elisiário de Sousa, a Inspetoria passou a abranger a 1ª Região, delimitando sua atuação geográfica e fortalecendo sua capacidade de supervisão. Ailton Elisiário, como Soberano Grande Inspetor Litúrgico, promoveu a criação de novas Inspetorias regionais, descentralizando a administração e ampliando o alcance do Supremo Conselho no estado.

Segundo registros do Boletim Informativo do Jubileu de Brilhante da Grande Loja Maçônica da Paraíba (2002), a Inspetoria Litúrgica teve papel decisivo na articulação entre os Corpos Filosóficos e a Grande Loja, especialmente no período de transição institucional após 1927. A Loja Regeneração Campinense, por exemplo, editou decreto reconhecendo exclusivamente o Supremo Conselho como potência legítima do Rito Escocês, o que reforçou a autoridade da Inspetoria Litúrgica sobre os trabalhos filosóficos no estado.

Diversos maçons paraibanos exerceram a função de Inspetor Litúrgico ao longo das décadas, entre eles Augusto Simões, João Arlindo Correia, João Tavares de Melo Cavalcanti, Pedro d’Aragão e o próprio Ailton Elisiário. Com a delimitação da 1ª Região, outros nomes assumiram a função, como Adeguimar Bezerra Barros, Nilson Nogueira de Melo, Rosseni Leopoldino de Oliveira, Edésio Guedes da Rocha e João de Azevedo Freire. Atualmente, o cargo é exercido pelo Poderoso Irmão José Soares de Oliveira (ELISIÁRIO, s.d.).

A Inspetoria Litúrgica da Paraíba representa, portanto, um elo fundamental entre a tradição iniciática do Rito Escocês e a prática maçônica cotidiana. Sua atuação assegura a fidelidade aos princípios filosóficos, a formação ética dos iniciados e a preservação da identidade ritualística da Maçonaria escocesa no estado.

5.1 CORPOS SUBORDINADOS

5.1.1 LOJA DE PERFEIÇÃO “PAZ E AMOR”

A Loja de Perfeição “Paz e Amor” representa um marco na continuidade e fortalecimento dos trabalhos filosóficos do Rito Escocês Antigo e Aceito na Paraíba. Fundada em 11 de abril de 1972, ela sucedeu a Loja de Perfeição “Gasparino Barreto”, que até então funcionava agregada ao Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste”. A substituição ocorreu no contexto de uma reestruturação dos Corpos Filosóficos vinculados ao Supremo Conselho, com o objetivo de garantir maior regularidade, autonomia e dinamismo às atividades litúrgicas.

A fundação da Loja “Paz e Amor” foi liderada por um grupo de 14 irmãos comprometidos com a preservação da tradição escocesa e com a revitalização dos graus filosóficos na região. Entre os fundadores destacam-se Rubem Pires, que assumiu a presidência inaugural, e Luiz Gonzaga de Vasconcelos, que o sucedeu na gestão seguinte. Ambos foram fundamentais para a consolidação da nova loja, imprimindo-lhe um caráter disciplinado, fraterno e fiel aos princípios do Rito Escocês.

A primeira diretoria da Loja foi composta por irmãos experientes e atuantes na Maçonaria paraibana, como Antônio Rafael de Medeiros (1º Vigilante), Hermano Regis Navarro (2º Vigilante), João Alfredo Filho (Orador), Romildo Dias de Toledo (Guarda do Selo) e Demétrio Demerval Trigueiro do Vale (Mestre de Cerimônias), entre outros. A composição da diretoria revela o compromisso com a excelência ritualística e a continuidade da formação filosófica dos maçons da região.

Ao longo das décadas, a Loja “Paz e Amor” foi presidida por diversos irmãos que deram continuidade à sua missão iniciática. Entre eles, destacam-se nomes como Honório Rozendo Bezerra, Ailton Elisiário de Sousa, Leônidas Amaro de Lima, Guilherme Cavalcante Cruz, Raimundo Lucena de Sá, João Clementino Filho, Valmir Xavier Silva, José Laurindo de Sousa, Renato Barros Silva, Pedro Vicente de Paiva, José Soares de Oliveira, Francisco Assis de Almeida, Benedito Pereira de Vasconcelos, José da Guia Dantas, Mário de Freitas, Hermes Alves de Almeida e Eduardo Alves Pereira.

A longevidade e a regularidade da Loja “Paz e Amor” evidenciam sua importância como espaço de aprofundamento filosófico, de elevação espiritual e de formação de lideranças comprometidas com os ideais maçônicos. Sua atuação contribuiu para a consolidação da estrutura dos Corpos Filosóficos na Paraíba, fortalecendo o elo entre os graus simbólicos e os altos graus do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Como observa Elisiário, a fundação da Loja “Paz e Amor” não apenas preservou a continuidade dos trabalhos iniciados pela Loja “Gasparino Barreto”, mas também inaugurou uma nova fase de expansão e institucionalização da Maçonaria filosófica no estado. Sua história é, portanto, inseparável da trajetória do Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste” e do Conselho de Kadosh “Arautos da Luz”, com os quais compartilha valores, membros e objetivos iniciáticos.

5.1.2 CAPÍTULO ROSA CRUZ “CAVALEIROS DO NORDESTE”

O Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste” representa um marco na consolidação dos Corpos Filosóficos do Rito Escocês Antigo e Aceito na Paraíba. Fundado em 18 de maio de 1927, na cidade de Campina Grande, foi o primeiro Capítulo Rosa Cruz instituído no estado, tornando-se referência na administração dos graus filosóficos intermediários, especialmente do 15º ao 18º grau. Sua criação está diretamente vinculada ao movimento de reorganização da Maçonaria brasileira após o rompimento entre o Supremo Conselho e o Grande Oriente do Brasil.

Segundo Elisiário, o Capítulo foi instalado oficialmente em 28 de julho de 1927, por meio de Carta Constitutiva expedida pelo Supremo Conselho, sob a liderança do Soberano Grande Comendador Mário Behring. A iniciativa partiu da Loja Simbólica Regeneração Campinense, que solicitou a instalação de um Corpo Capitular em sua jurisdição, como forma de assegurar a continuidade dos trabalhos filosóficos e fortalecer a estrutura escocesa no estado.

A primeira administração do Capítulo foi composta por maçons de destacada atuação, entre eles o Dr. João Arlindo Correia (Artesata), José Faustino Cavalcanti de Albuquerque (1º Vigilante), Dr. Severino Henrique Cruz (2º Vigilante), Wilson Viriato de Medeiros (Orador), Sebastião Alves de Oliveira (Chanceler) e Luiz Dália (Secretário). Esses obreiros assinaram o primeiro Regimento Particular em 1º de setembro de 1927, estabelecendo as bases organizacionais e rituais do Capítulo.

Após um período de inatividade documental entre 1931 e 1958, o Capítulo foi reorganizado por Pedro d’Aragão, que assumiu a presidência e promoveu a reestruturação administrativa e ritualística. Em 1º de novembro de 1960, foi eleita a nova diretoria oficial, tendo como presidente Afrânio de Aragão. Os estatutos do Capítulo foram aprovados pelo Supremo Conselho em 1962, publicados no Diário Oficial do Estado da Paraíba em 11 de janeiro de 1963 e registrados no Cartório do 2º Ofício de João Pessoa em 5 de abril do mesmo ano, sob nº 13.554, Livro 7 do Registro Civil das Pessoas Jurídicas.

A atuação do Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste” ao longo das décadas foi marcada por iniciativas de valorização simbólica e institucional. Em 1978, por ocasião do cinquentenário de sua fundação, o então Artesata Ailton Elisiário de Sousa promoveu a criação de uma medalha comemorativa e a concessão de diplomas de menção honrosa a 50 irmãos que contribuíram significativamente para a história do Capítulo e da Maçonaria paraibana.

Entre os presidentes que conduziram o Capítulo destacam-se nomes como Pedro d’Aragão, Afrânio de Aragão, Juvino Pereira Nepomuceno, Fernando Philogônio do Ó, Pedro Andrade, Ailton Elisiário de Sousa, Romildo Dias de Toledo, José Laurindo de Sousa, Renato Barros Silva, Walber Santiago Colaço, Francisco Assis de Almeida, José da Guia Dantas, Mário de Freitas, Hermes Alves de Almeida e Luiz Carlos Silva.

A longevidade e a regularidade do Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste” evidenciam sua relevância como espaço de aprofundamento filosófico, de formação ética e de preservação dos valores do Rito Escocês Antigo e Aceito. Sua história está entrelaçada com a trajetória da Loja Regeneração Campinense, do Conselho de Kadosh “Arautos da Luz” e do Consistório “Cristo Rei”, formando um núcleo sólido de atuação maçônica filosófica na Paraíba.

5.1.3 CONSELHO DE CAVALEIROS KADOSH “ARAUTOS DA LUZ”

O Conselho de Cavaleiros Kadosh “Arautos da Luz” é um dos corpos filosóficos mais relevantes do Rito Escocês Antigo e Aceito na Paraíba, responsável pela administração dos graus 19º ao 30º. Fundado em 25 de maio de 1960, na cidade de Campina Grande, sua criação foi liderada pelo Irmão Pedro d’Aragão, figura central na reorganização dos Corpos Filosóficos no estado após a reestruturação do Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste”.

A fundação do Conselho ocorreu em um momento de expansão da Maçonaria filosófica na Paraíba, com o objetivo de consolidar a hierarquia escocesa e garantir a continuidade dos trabalhos iniciáticos. A primeira diretoria foi composta por irmãos de destacada atuação, entre eles Pedro d’Aragão (Presidente), Niutildes Otacílio Vieira (Prior), Paulo Martins Costa (Preceptor), Juvino Pereira Nepomuceno (Chanceler), Afrânio de Aragão (Secretário), Fernando Philogônio do Ó (Grande Orador), José Cyreneu Gomes (Tesoureiro), Francisco de Assis Pereira (Mestre de Cerimônias), Elias Fernandes (Hospitaleiro), Manuel Leite Cavalcanti (Porta Estandarte), Waldemar de Almeida Pequeno (Capitão das Guardas) e Pedro Andrade (Cobridor).

A atuação do Conselho “Arautos da Luz” ao longo das décadas foi marcada pela regularidade ritualística, pela formação ética dos iniciados e pela preservação dos valores filosóficos do Rito Escocês. Seus sucessivos presidentes como: Afrânio de Aragão, Pedro Andrade, José Almeida Torreão, Antônio Moreira, Romildo Dias de Toledo, Raimundo Lucena de Sá, Benedito Dutra de Oliveira, Francisco Eudson Pereira, José Soares de Oliveira, Luiz Carlos Silva, entre outros, contribuíram para o fortalecimento institucional e para a expansão dos graus superiores na região.

O Conselho também desempenhou papel relevante na articulação com os demais Corpos Filosóficos, como o Capítulo Rosa Cruz e o Consistório “Cristo Rei”, formando um núcleo sólido de atuação filosófica em Campina Grande. Sua história está entrelaçada com a trajetória da Loja Regeneração Campinense, que serviu como base para a instalação e funcionamento dos Corpos Superiores.

DIRETORIA ATUAL DO CONSELHO “ARAUTOS DA LUZ”

A atual diretoria do Conselho de Cavaleiros Kadosh “Arautos da Luz” é presidida pelo Eminentíssimo Irmão Carlos Roberto Cunha, que ocupa o cargo de Três Vezes Poderoso Grão-Mestre. Todos os membros da diretoria são detentores do Grau 33º, o mais elevado do Rito Escocês Antigo e Aceito, o que evidencia o nível de excelência e comprometimento dos dirigentes.

Além da diretoria executiva, o Conselho conta com comissões especializadas que garantem a governança e a regularidade dos trabalhos:

  • Comissão de Jurisprudência e Legislação
  • Comissão de Graus
  • Comissão de Solidariedade e Finanças

A estrutura organizacional do Conselho “Arautos da Luz” reflete o compromisso com a excelência ritualística, a formação filosófica e a atuação ética dos seus membros. Sua diretoria atual dá continuidade a uma tradição de mais de seis décadas de serviço à Maçonaria escocesa na Paraíba.

5.1.4 CONSISTÓRIO “CRISTO REI”

O Consistório de Príncipes do Real Segredo “Cristo Rei” representa o ápice da estrutura filosófica do Rito Escocês Antigo e Aceito na Paraíba, sendo responsável pela administração dos graus 31º e 32º. Fundado em 8 de agosto de 1971 e instalado oficialmente em 30 de março de 1972, o Consistório foi instituído com o objetivo de completar a hierarquia escocesa no estado, permitindo que os maçons paraibanos ascendessem aos graus mais elevados antes do Grau 33º, conferido exclusivamente pelo Supremo Conselho.

A fundação do Consistório foi liderada pelo Irmão Pedro d’Aragão, que já havia desempenhado papel central na reorganização do Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste” e na criação do Conselho de Kadosh “Arautos da Luz”. Sua atuação visionária e comprometida com a regularidade ritualística foi fundamental para a consolidação dos Corpos Filosóficos na Paraíba.

A instalação do Consistório contou com a presença de autoridades maçônicas de destaque, como o Irmão Alberto Mansur, Grande Secretário do Sacro Império, representando o Soberano Grande Comendador; o Irmão Adauto Barreto da Silva Nen, Inspetor Litúrgico de Pernambuco; e o Irmão Francisco Edward Aguiar, Sereníssimo Grão-Mestre da Grande Loja da Paraíba. Essa solenidade reforçou o reconhecimento institucional e a legitimidade do novo Corpo Filosófico.

A primeira diretoria foi composta por maçons experientes e atuantes, entre eles:

  • Pedro d’Aragão – Presidente
  • Elias Fernandes – 1º Vigilante
  • Antônio Carlos Cavalcanti Filho – 2º Vigilante
  • José Lopes da Silva – Orador
  • Francisco Mariano – Secretário
  • José de Almeida Torreão – Mestre de Cerimônias
  • Pedro Andrade – Hospitaleiro
  • Fernando Philogônio do Ó – Tesoureiro
  • Francisco Edward Aguiar – Capitão das Guardas
  • Valdemar de Almeida Pequeno – Porta Estandarte
  • Paulo Martins Costa – Cobridor
  • Alexandre Teles de Andrade – membro fundador

A atuação do Consistório “Cristo Rei” ao longo das décadas foi marcada pela regularidade dos trabalhos, pela formação filosófica dos iniciados e pela preservação dos princípios do Rito Escocês. Seus presidentes como: Fernando Philogônio do Ó, Antonio Rafael de Medeiros, Raimundo Lucena de Sá, Francisco Eudson Pereira, Nilson Nogueira de Melo, Benedito Pereira de Vasconcelos, João de Azevedo Freire, Edmir Xavier da Silva, João Clementino Filho, Walter Vasconcellos e Luiz Carlos Silva, contribuíram para a continuidade e o fortalecimento institucional do Consistório.

A criação do Consistório “Cristo Rei” completou a estrutura dos Corpos Filosóficos na Paraíba, permitindo que os maçons do estado percorressem toda a jornada iniciática do Rito Escocês até o Grau 32º, em consonância com os princípios universais da Ordem. Sua história está entrelaçada com a trajetória da Loja Regeneração Campinense, do Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste” e do Conselho de Kadosh “Arautos da Luz”, formando um sistema coeso e exemplar de atuação filosófica no Brasil.

6 LOJA “REGENERAÇÃO CAMPINENSE” Nº 2

A Augusta e Respeitável Loja Maçônica “Regeneração Campinense” nº 2 ocupa posição de destaque na história da Maçonaria paraibana e brasileira. Fundada em 19 de agosto de 1923, na cidade de Campina Grande, inicialmente sob jurisdição do Grande Oriente do Brasil, a loja rapidamente se consolidou como centro irradiador dos ideais maçônicos republicanos, humanistas e filosóficos no interior do estado.

Segundo Elisiário, a loja foi regularizada em 8 de dezembro de 1924 e, em 20 de fevereiro de 1924, instalou seu templo em prédio situado à Rua Maciel Pinheiro. Posteriormente, transferiu-se para sede própria na Rua Vidal de Negreiros, sagrada em 24 de junho de 1926. Essa infraestrutura passou por diversas reformas ao longo das décadas, com destaque para as gestões de Aroldo Cruz, Raimundo Gadelha Fontes e Ailton Elisiário de Sousa, que modernizaram e ampliaram o espaço físico da loja.

A Regeneração Campinense foi protagonista na fundação da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba, em 24 de agosto de 1927, ao lado das lojas Branca Dias e Padre Azevedo. A decisão de romper com o Grande Oriente do Brasil e vincular-se diretamente ao Supremo Conselho do Grau 33º do Rito Escocês Antigo e Aceito foi motivada por divergências doutrinárias e pela busca de autonomia ritualística. O movimento foi liderado por João Arlindo Correia, então Venerável Mestre da loja, que se tornaria o primeiro Grão-Mestre da nova potência estadual (ZENAIDE, 2000).

A loja recebeu o título de Benemérita em 24 de agosto de 1933 e o de Benfeitora em 20 de novembro de 1938, conferidos pela própria Grande Loja da Paraíba em reconhecimento à sua atuação exemplar. Em 1994, foi declarada de utilidade pública pela Lei Estadual nº 5.859, sancionada pelo então governador Cícero de Lucena Filho, adotando o título distintivo de Augusta e Respeitável Loja Simbólica, Benemérita e Benfeitora Regeneração Campinense Nº 2, consolidando seu papel como instituição comprometida com o desenvolvimento social, educacional e cultural da cidade de Campina Grande.

Seus irmãos fundadores, entre os quais se destacam: Alfredo Carneiro da Cunha, Gasparino Barreto, Luiz Dália, Luiz Lyra, Manoel Feliciano do Nascimento, Juvino de Souza do Ó e Venâncio dos Santos — representam uma geração de maçons que contribuíram decisivamente para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna. A atuação da loja ao longo de um século inclui a promoção de ações filantrópicas, a formação de lideranças políticas e intelectuais, e a defesa dos valores republicanos e democráticos.

Como enfatizou o Irmão Argemiro de Figueiredo, em discurso no Senado Federal por ocasião do centenário de emancipação política de Campina Grande:

“Campinense, para nós, e, às vezes mais campinenses, são os que lutam pelo progresso da terra; os que servem ao seu desenvolvimento; os que se ajustam aos seus sentimentos e aspirações; os que se devotam à tarefa do seu engrandecimento. O povo é bom, ordeiro, laborioso, criador de riquezas.”

A Loja Regeneração Campinense permanece, até hoje, como símbolo de tradição, renovação e excelência maçônica, sendo reconhecida nacionalmente como modelo de atuação ritualística, filosófica e social.

7 A CISÃO ENTRE O SUPREMO CONSELHO E O GRANDE ORIENTE DO BRASIL: DO ACORDO À RUPTURA

A separação entre o Supremo Conselho do Grau 33º do Rito Escocês Antigo e Aceito e o Grande Oriente do Brasil (GOB), oficializada em 20 de junho de 1927, foi o desfecho de um processo histórico complexo, marcado por tensões institucionais, disputas de jurisdição e pressões internacionais. Longe de ser um rompimento abrupto, a cisão foi precedida por décadas de convivência conflituosa entre os dois corpos, que compartilhavam a administração dos graus simbólicos e filosóficos da Maçonaria brasileira.

7.1 A ESTRUTURA CONFEDERADA E O ACORDO DE 1926

Desde 1864, o GOB e o Supremo Conselho mantinham uma relação de confederação, na qual o Grão-Mestre Geral do GOB acumulava, por tradição, o cargo de Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho. Essa sobreposição de funções contrariava os princípios das Grandes Constituições de 1762 e 1786, que regem o Rito Escocês Antigo e Aceito, comprometendo a autonomia dos Corpos Filosóficos e gerando tensões internas.

A crise institucional se agravou em 1922, durante a Convenção Internacional dos Supremos Conselhos do REAA, realizada em Lausanne, Suíça. Na ocasião, o Supremo Conselho do Brasil foi pressionado por seus pares a promover a separação entre os graus simbólicos (1º ao 3º) e os graus filosóficos (4º ao 33º), conforme o modelo adotado em países como França, Estados Unidos e Escócia. A estrutura confederada brasileira foi considerada uma anomalia institucional, incompatível com os princípios da soberania ritualística e administrativa dos Supremos Conselhos.

Em resposta às pressões internacionais e às divergências internas, foi firmado em 1926 um protocolo entre o Supremo Conselho e o GOB, com o objetivo de pacificar a estrutura maçônica brasileira. O acordo estabelecia:

  • O reconhecimento mútuo das jurisdições: o GOB como única potência regular para os graus simbólicos, e o Supremo Conselho como autoridade exclusiva sobre os altos graus filosóficos.
  • A renúncia do Supremo Conselho ao direito de fundar lojas simbólicas ou iniciar nos três primeiros graus.
  • O compromisso do GOB de atuar exclusivamente nos graus simbólicos do REAA.
  • A prerrogativa do Supremo Conselho de organizar e modificar os rituais simbólicos, fornecendo cópias autênticas ao GOB, que se obrigava a mantê-los inalterados.
  • A desvinculação das lojas escocesas da obediência ao Supremo Conselho, passando a responder diretamente ao GOB, mediante substituição das Cartas Constitutivas.

Esse acordo visava harmonizar a atuação das potências e garantir a regularidade do Rito Escocês Antigo e Aceito no Brasil, conforme os padrões internacionais.

7.2 A RENÚNCIA DE MÁRIO BEHRING E A RUPTURA DEFINITIVA

Mário Behring, figura central nesse processo, exercia simultaneamente os cargos de Grão-Mestre Geral do GOB e Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho. Em 13 de julho de 1925, renunciou ao Grão-Mestrado do GOB após denúncias de irregularidades no processo eleitoral que o reconduziu ao cargo. Sua renúncia não representou um gesto de reconciliação, mas sim o início de uma reestruturação institucional alinhada às exigências internacionais.

Apesar da formalização do acordo em 1926, o GOB posteriormente declarou que observaria apenas as normas constantes de sua própria Constituição, tornando sem efeito os compromissos assumidos no protocolo. Essa atitude foi interpretada pelo Supremo Conselho como uma violação dos princípios universais do Rito Escocês Antigo e Aceito e como uma tentativa de nacionalização da Maçonaria brasileira, em detrimento da tradição escocesa.

Diante disso, o Supremo Conselho, sob a liderança de Behring, denunciou formalmente o tratado de confederação em 20 de junho de 1927. A decisão foi comunicada oficialmente às lojas regulares do Brasil e do exterior, em português e inglês, marcando o fim da relação institucional entre as duas potências.

7.3 A CRIAÇÃO DAS GRANDES LOJAS ESTADUAIS

Com o rompimento, o Supremo Conselho avocou à sua jurisdição todos os corpos escoceses que haviam recebido suas Cartas Constitutivas. No entanto, em respeito às Leis Universais do Rito, decidiu não manter sob sua jurisdição direta os graus simbólicos. Em vez disso, passou a incentivar a criação de Grandes Lojas Estaduais soberanas, cada uma responsável pela administração dos três primeiros graus em seu território.

Essas Grandes Lojas receberam Carta-Patente gratuita do Supremo Conselho, garantindo-lhes reconhecimento internacional. A Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba foi uma das pioneiras, fundada em 24 de agosto de 1927, ao lado das Grandes Lojas do Amazonas, Pará, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo.

7.4 UMA NOVA ESTRUTURA MAÇÔNICA

A nova estrutura proposta pelo Supremo Conselho previa:

  • Uma Grande Loja soberana em cada Estado, com poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, responsável pelos graus simbólicos.
  • Um Consistório do Grau 32 em cada Estado, com jurisdição sobre os corpos filosóficos locais (Lojas de Perfeição, Capítulos Rosa-Cruz e Conselhos de Kadosh).
  • Um convênio de cooperação financeira e administrativa entre os corpos simbólicos e filosóficos, promovendo a descentralização e o fortalecimento da Maçonaria regional.

A cisão de 1927 teve consequências profundas para a Maçonaria brasileira. Por um lado, permitiu a conformidade com os padrões internacionais de regularidade e fortaleceu a autonomia dos Corpos Filosóficos. Por outro, fragmentou o campo maçônico nacional, criando duas grandes vertentes: uma vinculada ao GOB e outra às Grandes Lojas Estaduais.

O legado de Mário Behring, embora controverso, é reconhecido por sua contribuição à modernização da estrutura maçônica brasileira. Sua liderança no Supremo Conselho consolidou o Rito Escocês Antigo e Aceito como uma das principais expressões da Maçonaria no país, preservando sua integridade ritualística e filosófica.

8 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A trajetória da Maçonaria no Nordeste brasileiro, com especial destaque para o estado da Paraíba, revela uma instituição que se consolidou como força histórica, filosófica e social ao longo dos séculos. Desde as primeiras reuniões secretas no Areópago de Itambé, ainda no período colonial, até a fundação da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba em 1927, observa-se um contínuo engajamento da Maçonaria com os ideais de liberdade, justiça e fraternidade.

A atuação maçônica na Paraíba não se restringiu ao campo ritualístico ou simbólico. Ao contrário, os registros históricos demonstram que as lojas maçônicas foram espaços de articulação política, de resistência intelectual e de promoção de reformas sociais. A presença de figuras como Manoel Arruda Câmara, João Arlindo Correia e Pedro d’Aragão evidencia o protagonismo de maçons paraibanos na luta pela independência, pela república e pela abolição da escravatura.

A fundação de Corpos Filosóficos como a Loja de Perfeição Paz e amor, o Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste”, o Conselho de Kadosh “Arautos da Luz” e o Consistório “Cristo Rei” consolidou a estrutura do Rito Escocês Antigo e Aceito no estado, permitindo que os maçons paraibanos percorressem toda a jornada iniciática até o Grau 33º. Esses corpos não apenas preservaram a tradição esotérica da Ordem, mas também contribuíram para a formação ética e filosófica de seus membros, promovendo valores universais em consonância com os princípios da Maçonaria regular.

A cisão entre o Supremo Conselho e o Grande Oriente do Brasil, ocorrida em 1927, foi um divisor de águas na organização da Maçonaria brasileira. A criação das Grandes Lojas Estaduais, entre elas a da Paraíba, representou um avanço institucional e uma reafirmação da soberania das lojas simbólicas. Esse modelo descentralizado permitiu maior autonomia administrativa e ritualística, fortalecendo a identidade maçônica regional e ampliando sua capacidade de atuação social.

Ao resgatar essa memória, reconhece-se a Maçonaria como protagonista na construção de uma sociedade mais justa, democrática e fraterna. Sua contribuição ultrapassa os limites dos templos e se inscreve na história política, cultural e humanitária do Brasil. A Maçonaria paraibana, em particular, permanece como referência nacional, não apenas pela antiguidade de suas instituições, mas pela profundidade de sua atuação e pela fidelidade aos princípios que a fundaram.

REFERÊNCIAS

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CONFEDERAÇÃO DA MAÇONARIA SIMBÓLICA DO BRASIL. História do Rito Escocês Antigo e Aceito no Brasil. [s.d.].

Dogma Livre. História da separação do Supremo Conselho do grau 33 para o R.E.A.A. no Brasil. Disponível em: https://www.dogmalivre.com.br/artigos/Historia-da-separacao-do-Supremo-Conselho-do-grau-33-para-o-REAA-no-Bra. Acesso em: 13 nov. 2025.

ELISIÁRIO, Ailton. Registros históricos da Maçonaria na Paraíba. [s.d.].

GRANDE LOJA MAÇÔNICA DO ESTADO DA PARAÍBA. Boletim Informativo do Jubileu de Brilhante. João Pessoa, ago. 2002.

LIMA, Oliveira. Apud ZENAIDE, Hélio. História da Maçonaria na Paraíba. João Pessoa: A União, 2000, p. 311-332.

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Supremo Conselho do Brasil. Breve Histórico. Disponível em: https://supremoconselho.com.br/breve-historico/. Acesso em: 13 nov. 2025.

WIKIPÉDIA. Revolução Pernambucana. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Pernambucana. Acesso em: 12 nov. 2025.

ZENAIDE FILHO, Hélio Nóbrega. (expositor). A maçonaria na Paraíba. A PARAÍBA NOS 500 ANOS DE BRASIL, 1999, João Pessoa. Anais do Ciclo de Debates do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba. João Pessoa: A União, 2000, p. 311-332.

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