quarta-feira, 22 de maio de 2024

O TEÍSMO, O DEÍSMO E O AGNOSTICISMO NA MAÇONARIA

 O TEÍSMO, O DEÍSMO E O AGNOSTICISMO NA MAÇONARIA

 INTRODUÇÃO

Na época da Maçonaria Operativa, não havia discussões na Europa. Era-se cristão ou judeu e ponto final. A religião entrava na vida de cada indivíduo, não através de uma busca racional, mas como uma caraterística essencial. E a religião era o que os responsáveis da Igreja diziam que era. Analisar questões teológicas era encargo de muito poucos dentre os pouquíssimos que sabiam ler e escrever. A grande massa dos Povos tinha a religião do Estado onde se encontrava ou do senhor a quem servia. Não era, sequer, uma questão de escolha. Era de sobrevivência, literalmente falando. Não se punha, pois, a questão de se ser deísta, teísta ou gnóstico. O conceito de deísmo nem sequer existia. Todos eram teístas, porque todos eram crentes. E quem não fosse, calava e fingia sê-lo, se queria continuar integrado na sociedade, vivo e de boa saúde.

Na Europa de então, opções religiosas haviam duas: o cristianismo (primeiro apenas sob a batuta do papa de Roma; depois, com a Reforma, com dois grandes campos de escolha: o catolicismo ou, com diversas variantes, o que se convencionou chamar de protestantismo) e o judaísmo, sendo o catolicismo amplamente maioritário.

Todos os maçons eram, por definição, crentes. E cristãos. A Maçonaria Operativa, como instituição eminentemente profissional, não destoava do resto das instituições existentes. E todos eram teístas. Nem se concebia que pudesse ser diferente!

O tempo e a evolução social, porém, vieram a alterar esta situação.

A partir de finais do século XVI, inícios do século XVII, gradualmente as Lojas maçônicas operativas começaram a admitir elementos não integrantes da profissão de construtores em pedra. Foram senhores que mandavam construir igrejas e contratavam e pagavam, para esse efeito, os oficiais construtores, exercendo sobre estes manifesta influência econômica, que demonstravam interesse em compartilhar dos segredos da Arte Real da construção, foram influentes cavalheiros ou nobres que assumiam o papel de protetores das corporações de maçons, enfim, pouco a pouco foram sendo Aceitos indivíduos não construtores nas Lojas. E as Lojas passaram a ser locais de congregação de maçons livres e aceitos. Maçons livres, os oficiais construtores que não dependiam de senhores, que eram livres de trabalhar e exercer o seu ofício onde quisessem e pudessem. Maçons aceitos, aqueles que, não sendo oficiais construtores, tinham sido aceitos no seio das Lojas.

Os maçons aceitos eram mais letrados do que os maçons livres. Uma vez inteirados dos segredos da arte de construir - particularmente as técnicas ancestrais aplicando princípios geométricos -, tinham a vantagem competitiva da sua maior instrução, do seu mais profundo e alargado conhecimento, da sua maior influência social. Pouco a pouco, os maçons aceitos foram se sobrepondo aos maçons livres, quer em número, quer na condução dos destinos das Lojas, quer na escolha dos trabalhos de Loja, dos ensinamentos a transmitir em Loja. E, ao longo de pouco mais de um século, a Maçonaria transformou-se de Operativa em Especulativa, de simples agremiação de construtores em instituição de discussão livre, de especulação filosófica, de aperfeiçoamento moral e não apenas de mera aprendizagem profissional.

Paralelamente, vivem-se os tempos do Iluminismo, da emergência do racionalismo, da popularização das ideias de Kant, de Locke, e muitos outros. A "Royal Society", sociedade dedicada ao avanço e divulgação das ciências é constituída e muitos dos seus fundadores e elementos impulsionadores são maçons aceitos.

Por outro lado, viveram-se e ainda estão bem inseridos na memória coletiva britânica tempos de profundos e dolorosos conflitos políticos e religiosos. "Stuarts" contra "Oranges" e depois "Hanovers", católicos contra anglicanos, jacobinos contra realistas. Viveram-se na Grã-Bretanha tempos revolucionários, lutas ferozes e sangrentas, prisões e decapitações, que em nada ficaram a dever à mais famosa das Revoluções, a Revolução Francesa. De tudo isto, acabou por resultar o fim do Estado Confessional, a aceitação, primeiro tímida, depois crescentemente consensual, da Liberdade de Religião. O Homem podia já pensar sobre os fundamentos da sua crença. E o fez.

A postura de cada um em face do Divino já não dependia exclusivamente da aceitação da Revelação das Escrituras e dos ensinamentos dos profetas e ministros religiosos. Kant indicou o caminho, os acontecimentos romperam o dique e muitos foram progressivamente percorrendo a vereda da descoberta do divino através da Razão. Já não havia apenas o caminho exclusivo da Fé para a Crença. Outro também se abriu, o caminho da Razão. Já não havia só teísmo, também apareceu e autonomizou-se o deísmo.

Através do seu desassossego intelectual, os maçons aceitos não se limitaram a "colonizar" a Maçonaria Operativa e a transformá-la em Maçonaria Especulativa. Também, na Maçonaria introduziram os princípios e o conceito do deísmo. Sobre uma pré-existente Maçonaria teísta construíram uma Maçonaria deísta.

A ORIGEM

Embora esse tema não seja de fato muito recente (primeiro quartil do século XVIII), pois ele teve início com a primeira edição do Livro das Constituições do reverendo James Anderson, aprovadas e publicada em 1723, quando ele afirma que:

"Sobre Deus e Religião.

Um maçom é obrigado por seu mandato a obedecer à lei moral; e se ele compreender corretamente a Arte, ele nunca será um Ateu estúpido, nem um Libertino irreligioso. Mas, embora nos tempos antigos os maçons fossem obrigados ​​em todos os países de serem da religião daquele país ou nação, qualquer que fosse, ainda assim, considerou-se mais conveniente apenas obrigá-los a essa religião com a qual todos os homens concordam, deixando suas opiniões particulares para eles mesmos; isto é, serem homens bons e verdadeiros, ou homens de honra e honestidade, por quaisquer denominações ou persuasões que possam ser distinguidos; por meio do qual a Maçonaria se torna o Centro da União, e os meios de conciliar a verdadeira Amizade entre Pessoas que de outra forma deveriam ter permanecido a uma Distância perpétua". (Livre tradução do Original).

E isto quer dizer que ele deve ser um homem bom e verdadeiro; ou um homem de honestidade; mas qualquer que seja a denominação (da religião) ou crença pela qual ele possa se distinguir, onde quer que esteja; e que a Maçonaria possa ser o centro de união, e o meio pelo qual se possa conseguir a verdadeira amizade entre todas as pessoas isto é, que as opiniões individuais, religiosas e políticas, nunca devem ser ventiladas.

Desta forma, vê-se nessa obrigação da primeira Constituição que já se delineava a absoluta liberdade de consciência, de pensamento e de religião. E isso é Deísmo, ou seja, os primeiros germes do deísmo, na Maçonaria. Dando uma pequena abertura para que os maçons de todas as crenças (judeus, maometanos, budistas, brâmanes etc.), tivessem a possibilidade de se unirem pelos laços da verdadeira amizade, que são os princípios da Maçonaria excluindo, é claro, os ateus estúpidos e os libertinos irreligiosos.

Todavia, foi somente na segunda metade do século XX, que alguns membros efetivos, da mais antiga e mais completa Loja de Pesquisas Maçônicas a "Quatuor Coronati", de Londres, começaram a pesquisar e estudar esse tema. Não sem encontrar algumas resistências entre seus pares, especialmente, aqueles mais ortodoxos com relação às suas teses.

Isso se verifica quando o irmão J. R. Clarke, em março de 1965, apresentou na Loja, um trabalho intitulado "The Change From Christianity to Deism in Freemasonry" (A Mudança do Cristianismo para o Deísmo na Maçonaria).

Esse trabalho, longo e muito bem elaborado, também muito documentado, foi a pedra de toque, para a abertura dos debates e de novos estudos.

O irmão E. Ward companheiro de pesquisas de Clarke apresentou o seguinte trabalho, intitulado "Andersons Freemasonry Not Deistic"; (A Maçonaria não Deística de Anderson), para contestar algumas opiniões de Clarke, mas o assunto não morreu ali. Em 1974, sete anos após, quando a poeira já tinha abaixado, o irmão R. A. Wells, também da Quatuor Coronati, apresenta um trabalho, aparentemente desvinculado do assunto, intitulado: "George Claret Ritual Printer" (George Claret Impressor de Ritual), onde no desenrolar do trabalho, ele aborda o tema do teísmo e deísmo, na Maçonaria inglesa.

Quando se pensava que o tema estava esquecido, eis que em 1984, após se passarem dez anos, o irmão N. B. Cryer, volta à carga, com um trabalho contundente "The Dechristianization of the Craft"; (A Descristianização da Ordem). Esse trabalho reacende o debate e os estudos sobre o porquê, a causa dessa descristianização. Três anos depois, 1987, o irmão Michel L. Bradsky, também Membro da "Quatuor Coronati", escreve um bem alicerçado artigo, intitulado:

"Why was the Craft Dechristianized?" (Por que a Ordem foi Descristianizada?)

E dentro dessa interrogação vem toda uma gama de esclarecimentos.

Apontando dois dos mais respeitáveis irmãos o reverendo James Anderson e o reverendo John Teófilo Desaguliers, como autores dessa tese, com a finalidade de universalizar a Maçonaria, recém organizada os defensores dessa tese vão buscar evidências e provas para robustecer seus argumentos.

O JUDAÍSMO E A MAÇONARIA

No ano de 1290, na Inglaterra, após muitos atritos com os judeus, o rei Eduardo I, através de um Édito, baniu os judeus, de todo o território inglês, ou seja, das Ilhas Britânicas. E com os judeus foram banidos, também, seus Livros Sagrados, seus costumes aquele conjunto de leis, costumes e tradições conhecidas como o Velho Testamento e, especialmente a Torá.

Aquilo que os judeus não levaram com eles, os monges beneditinos recolheram para a parte interior de seus conventos. Portanto, quando a Maçonaria Documental nasceu, e ela nasceu na Grã-Bretanha, predominava então somente os evangelhos de Cristo isto é, o cristianismo. Daí pode-se afirmar que a Maçonaria nasceu cristã, se estruturou, progrediu e atravessou os séculos XIV, XV, XVI, XVII, e XVIII, dentro e à sombra do cristianismo, ou das igrejas cristãs. Até a metade do século XVI, sob a proteção da igreja católica e daí por diante, das igrejas católica e anglicana, esta, fundada pelo rei Inglês, Henrique VIII. E somente a partir de 1760 é que o Édito de Eduardo I foi revogado.

É bem verdade que não foi somente após essa data que os judeus retornaram à Grã-Bretanha. Alguns anos antes, isso já acontecia. Os judeus sefarditas (judeus que viviam na Espanha), tinham entrado na Grã-Bretanha, mas disfarçados de cristãos novos, pois desde o massacre iniciado em 1391, um grande número de judeus escapou da morte, abraçando uma nova religião – isto é, aceitando o batismo cristão, embora continuassem praticando, em segredo, sua velha e querida religião judaica. Mas para efeito de proteger a própria vida e a da família, passaram a frequentar as missas e os cultos cristãos.

Quando em 1492, com a queda de Granada, os judeus foram expulsos de toda a Península Ibérica, eles foram disseminados por toda a Europa especialmente na Inglaterra, França, Países Baixos e América.

Os judeus começaram a ingressar na Maçonaria Simbólica, pouco tempo depois da criação da Grande Loja de Londres, em 1717. As Reformas introduzidas pelos dirigentes deístas da Maçonaria daqueles tempos estão refletidas na Constituição de Anderson, onde a fé no cristianismo deixa de ser uma das condições para ser admitido na Ordem (se bem que, a intenção não era, precisamente, estender a tolerância religiosa a outras religiões, senão, permitir, somente a católicos e protestantes, conviverem em paz), abrir as portas da Maçonaria pelo menos em teoria a judeus e muçulmanos, entre outros.

Não deve surpreender-se que a primeira menção que existe de um judeu maçom, data de 1716, e refere-se a um sefardita inglês:

"Francis Francia", também conhecido como um judeu jacobita" (os jacobitas eram seguidores de Jaime II, da Inglaterra, que se havia convertido ao catolicismo), que fora exonerado de seu cargo sob a acusação de traição.

Francis Francia era um judeu sefardita, isto é, um judeu que adotara o cristianismo, pelo menos de fachada, para evitar perseguições, como acontecia com tantos outros.

Em 1732, outro judeu, Edward Rose, foi iniciado em uma Loja presidida por Daniel Delvalle, de origem claramente judia.

O que fica claro, todavia, é que antes de 1716, nenhum judeu pertenceu à Maçonaria. E que o primeiro judeu, sem sombra de dúvida, só foi iniciado na Maçonaria, em 1732. Outros houveram nesse ínterim, mas que estavam disfarçados de cristãos.

E por essa época a colônia judaica que vivia na Grã-Bretanha era tão pequena, que era facilmente reconhecida e conhecida.

À primeira menção da presença de alguns judeus nas províncias de Birmingham, data de 1718, embora nenhuma comunidade judaica fosse fundada até 1730. Em Cambridge, só foi registrada, a partir de 1732; outra comunidade foi criada em Exeter, em 1735; em Bath, em 1736; em Plimouth, em 1740 e em Swansea, em 1741.

Todavia, a soma dos judeus em todas essas comunidades era muito pequena, com exceção de Birmingham, que possuía em 1847, 679 Membros, as demais comunidades não iam além de 200 Membros. Isso em 1847, mais de um século após a fundação da primeira comunidade, a de Birmingham (1718).

Quando algum irmão quer dar à Maçonaria uma origem judaica ou ele está enganado ou está querendo enganar você.

Partimos da premissa de que os judeus só começaram a entrar para a Maçonaria, após a criação do Grau 3, que ocorreu por volta do ano de 1725, a partir do Livro da Constituição do Reverendo James Anderson; muito especialmente a partir da I Obrigação, àquela que se referia a Deus e à Religião.

CONCERNENTE A DEUS E À RELIGIÃO

Um maçom fica obrigado por ocasião de sua Iniciação, a obedecer as Leis Morais, e, se ele entender corretamente a Arte, ele nunca será um ateu estúpido, e nem tampouco um libertino irreligioso. Porque desde os tempos imemoriais os maçons eram obrigados, em todos os países, a seguirem a religião da maioria, de seu país de origem, qualquer que ela fosse; mas, atualmente, o maçom só é obrigado a ter aquela religião em que todos, ou que a maioria concorda, guardando para si, as suas opiniões próprias; isto quer dizer que o maçom deve ser um homem bom e verdadeiro; ou um homem de honra e de honestidade. Mas, qualquer que seja a denominação das crenças, pelas quais ele possa se distinguir onde quer que seja, a Maçonaria dever ser o Centro de União, e os meios pelos quais se possa conseguir a verdadeira amizade entre as pessoas. (Livre tradução do original).

Isso quer dizer que as opiniões individuais religiosas e políticas, nunca devem ser ventiladas, emitidas.

Muitos e profundos estudos foram feitos sobre esse texto que está supra epigrafado, pela 2ª vez, do Livro da Constituição de Anderson.

O irmão E. Ward dá sua interpretação sobre o que seja o deísmo:

TEÍSMO E DEÍSMO

Embora, etimologicamente, teísmo e deísmo tenham uma derivação paralela, deísmo é o nome em contraste a teísmo, dado ao movimento teológico e religioso que se desenvolveu no final do século XVII e a primeira metade do século XVIII, tendo sido suas principais influências, o grande aumento de conhecimento científico do universo.

Para o irmão J. R. Clarke a exemplo do irmão E. Ward, também pertencente aos Quadros da "Quatuor Coronati":

A transição do cristianismo, para o deísmo, como exigência base da Ordem, foi um processo gradual.

O curioso é que o renomado Benjamim Franklin, mesmo antes de ser iniciado na Maçonaria, e sendo um fervoroso membro da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, "concebeu um grande e extenso projeto", para Fundação em Filadélfia, de uma Sociedade Secreta Deística". Isso, todavia, não aconteceu, pois em fevereiro de 1731 ele foi iniciado na Loja "São João", de Filadélfia. Talvez o ambiente e o movimento deísta, que ele encontrou na Ordem, tenha feito com que ele esquecesse seu projeto da "Fundação da Sociedade Secreta Deísta".

Ainda é o irmão Clarke quem diz:

Que possamos nos termos de uma definição de deísmo no contexto deste Trabalho, isto é – "A religião com a qual todos os homens concordam", com particular consideração para a palavra "Todos".

E foi no bojo dos debates entre o deísmo e o teísmo, que foi forjada a Maçonaria que praticamos. Até a união das duas Grandes Lojas Rivais, em 1813, a Maçonaria Inglesa praticava o mesmo Rito, mas com procedimentos distintos. Enquanto a Grande Loja de Londres se afastava cada vez mais do cristianismo paradoxalmente, a Grande Loja dos "Antigos", que tinha como mentor intelectual, Lawrence Dermott, um estudioso do judaísmo e defensor do mesmo, colocando até como título da Constituição, compilada por ele uma expressão hebraica "Ahiman Rezon" segundo alguns autores, significando "Conselho dado aos irmãos", para outros "Irmãos selecionados", ou "Irmãos escolhidos", ou, ainda, um "Auxílio para os irmãos".

O que é significativo é que Lawrence Dermott, em seu Livro Ahiman Rezon, colocou como obrigação para as cerimônias das Lojas de sua jurisdição duas orações uma cristã e outra hebraica, que deveriam ser recitadas na cerimônia de iniciação de um novo maçom. A oração cristã está plena da Santíssima Trindade. Ela começava assim:

Dote-os (os novos Maçons), com a competência da sua Divina Sabedoria para que eles possam, com os Segredos da Maçonaria, ser capazes de entender os Mistérios da Santidade do Cristianismo”.

Já a oração hebraica era bem explícita e podia ser usada pelos maçons judeus:

Oh! Senhor, excelente artista, Tu, na tua verdade, nada há tão grande para comparar-se a Ti...”.

Alguns autores afirmam que foi Dermott quem introduziu o Salmo 133, na Maçonaria, especialmente na abertura da Loja de Aprendiz. Não temos evidências documentadas para duvidar de tais afirmações, tão pouco para corroborar. Sabe-se, Entretanto,  que de toda documentação que se tem sobre o assunto, de 1751 a 1813, ano da União das Duas Grandes Lojas Rivais, em nenhuma das pesquisas da "Quatuor Coronati", de 1965 até o momento, o Salmo 133 é citado, só o Evangelho de São João é mencionado..

Os motivos apresentados para a fundação da Segunda Grande Loja (a dos Antigos) em oposição à primeira (dos Modernos) de Londres, foram:

I - Preparar os candidatos incorretamente;

II - Abreviar as cerimônias:

III - Omitir as leituras;

IV - Omitir as leituras das mudanças, iniciadas pelos antigos;

V - Omitir as súplicas;

VI - Alterar a ordem dos Sinais e Palavras de Reconhecimento dos 2º e 3º Graus;

VII - Usar uma palavra incorreta no Grau de Mestre;

VIII - Incluir a garra, as palavras de ingresso, na cerimônia atual (1751), ao invés de usá-los preliminarmente;

IX - Descristianizar o ritual;

X - Ignorar os dias santos, especialmente o Dia de São João, o Batista (24 de junho) e São João, o Evangelista (27 de dezembro);

XI - A classificação incorreta de suas Lojas;

XII - Não ter Diáconos como Oficiais de suas Lojas; e

XIII - Negligenciar a cerimônia de exaltação a Mestre.

Então eles fundaram uma Grande Loja (a dos Antigos), para corrigir essa "falha", e praticar a forma "verdadeira" da Maçonaria. 

O CRISTIANISMO NA MAÇONARIA

A "Maçonaria" foi 100% cristã até o final do século XVIII. Desde o seu surgimento documental, 2 de fevereiro de 1356 até início do século XVIII, toda a documentação que se possui, especialmente relacionada com os catecismos predecessores dos rituais são puramente cristãos.

O "Poema Régio", datado de 1390, fala sobre um juramento prestado sobre um livro, pelo ingressante. Esse livro se acreditava que fosse a bíblia. Só que por essa época, a bíblia não era nem lida e nem tocada por indivíduos que não pertencessem a alguma Ordem Monástica. E era manuscrita em latim. De difícil leitura para um pobre trabalhador da pedra, em sua maioria analfabeto isento de cultura.

O juramento não era prestado somente pelos pedreiros – maçons – operativos. Todas as demais profissões e suas guildas, a dos alfaiates, dos tecelões, dos sapateiros, dos carpinteiros, dos açougueiros, dos tingidores de tecidos, dos assentadores de tijolos etc. E os juramentos, como se verifica em todas as tradições, eram prestados sobre um livro.

Exemplos não faltam nos antigos catecismos, dos antigos Manuscritos.

Nos Manuscritos dos arquivos da Grande Loja, datados de 1583, o "Devonshire" de 1685, e o do rei George de 1726, abriam suas orações, com estas palavras:

"O Poder do Pai do Céu abençoado, sabedoria do filho glorioso, com a bondade do Espírito Santo, três pessoas em um único Deus...".

Essa mentalidade Cristã documentada atinge uma marca de quase 150 anos. O que não deixa de ser um ponto de apoio para afirmar-se que a Maçonaria era puramente cristã, e, portanto, Teísta.

Vejamos pois:

Em um Manuscrito denominado de Sloane, encontra-se isto:

Pergunta: Como era chamada, no início, sua Loja?

Resposta: Uma capela consagrada a São João.

Alex Horne cita o Manuscrito de Dunfries nº 4, que tinha em seu catecismo estas perguntas:

Pergunta: Em qual Loja você ingressou?

Resposta: Numa verdadeira Loja de São João, Justa e Perfeita.

O reverendo N. Barker Cryer nos diz o seguinte, em seu trabalho:

“Eu já tinha chamado a atenção para o fato de que ele (São João) era um dos Evangelhos do maçom medieval, onde era, frequentemente, tomado suas "Obrigações" ou juramentos”.

E o irmão Alex Horne enfatiza isso como quando a bíblia era usada:

"O uso de abrir a bíblia no Evangelho de São João, é um costume maçônico, que vem lá de trás, do início da Maçonaria Especulativa, no mínimo...".

Numerosas citações em História de Lojas Antigas, nas quais se abria a Bíblia automaticamente, no Capítulo 1º, do Evangelho de São João...

Vejamos mais alguns fatos interessantes:

1. O número 3. Na Maçonaria Primitiva esse número não era cabalista. A Cabala só veio para a Maçonaria depois de 1730. Esse número representava simplesmente Pai, Filho e Espírito Santo. Aí estavam as três faces do Triângulo.

2. O número 5. Simbolizava apenas as cinco fases da vida de Cristo isto é:  Nascimento, Vida, Morte, Ressurreição e Ascensão. Nada cabalístico, também, como desejam alguns Irmãos.

3. Estrela de Cinco Pontas simbolizava a Estrela Brilhante (Flamejante), que guiara os três reis Magos. Só depois é que os Pitagóricos a desbancaram e, mais tarde, a Blazing Star Judaica desbancou, ou tentou desbancar a Pitagórica.

4. O Número 13. Simbolizava o Cristo e seus 12 Apóstolos;

5. O peito esquerdo desnudo homenagem a São João Batista, que usava uma pele de animal, presa ao ombro direito, com o ombro e peito esquerdo desnudo;

6. Joelhos nus ainda em homenagem a São João Batista, cuja roupa de pele não lhe cobria os joelhos.

7. A retirada de todos os metais era para evitar que alguns Judas com suas "moedas sujas" de sangue ingressassem na Ordem.

8. O círculo, com duas paralelas, um ponto no centro e um livro entre as duas paralelas, e sobre o círculo. João Batista o precursor da Luz, da verdade. João Evangelista o continuador e propagador das Obras e Ensinamentos de Cristo. Depois de 1750, alguém alterou o nome das paralelas, dando-Ihes os nomes de Moisés e Salomão. Moisés o mentor e Codificador da Religião Hebraica. Salomão o unificador do povo Judeu.

Pelo que se pode observar, o cristianismo não foi de todo banido de nossos rituais. A descristianização não atingiu todos os seus objetivos.

O JUDAÍSMO NA MAÇONARIA

Até 12 de maio de 1725, quando foi criado o Grau de Mestre, e com ele a Criação da Lenda de Hiran, não havia judaísmo na Maçonaria, a não ser algumas poucas passagens lendárias como as lendas, noaquitas, enokianas, babilônicas, lamekianas etc.

A ideia chave dos Irmãos James Anderson e João Teófilo Desaguliers (dois Líderes Evangélicos de Londres), era trazer para os quadros da Maçonaria hebreus, maometanos, budistas etc. Mas o efeito não foi o desejado. Somente o hebraísmo trouxe para a Maçonaria uma gama de lendas, palavras e símbolos. O que não aconteceu nem com os budistas e nem com os maometanos.

O primeiro judeu iniciado na Maçonaria foi Edward Rose, numa Loja de Londres em 1732. Daí por diante, é que todo esse Acervo de símbolos, lendas, palavras, ingressaram na Maçonaria, especialmente nos altos graus, advindos após 1750. E com eles, devido à proximidade, o egipcianismo, pirâmides, colunas, decorações de templos etc.

A REGULARIDADE MAÇONICA E A CRENÇA EM DEUS

Na Proclamação de Estrasburgo, o Grande Oriente de França (GOdF) e o Grande Oriente da Bélgica, embora suavizando a sua posição relativa à crença em Deus e em sua revelação, mantêm vivos os princípios que levaram estas duas Potências à “SUMMA DIVISIO” ocorrida em 1877, que separou em definitivo a nossa Ordem em duas: uma "regular", e outra "irregular". Uma, que mantém o dogma da crença no Grande Arquiteto do Universo e outra que, em nome da Constituição de Anderson, aceita em suas Lojas até ateus e irreligiosos.

Mais uma vez, recapitulando, em seu artigo primeiro, agora, subdividido em dois parágrafos, a Constituição de Anderson diz:

“Um maçom é obrigado a obedecer à lei moral; e se ele bem entender da arte, jamais será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso...."

..."Posto que nos tempos antigos os maçons tivessem a obrigação de seguir a religião do próprio país ou nação, qualquer que ela fosse, presentemente julgou-se mais conveniente obrigá-los a praticar a religião em que todos os homens estão de acordo, deixando-lhes plena liberdade às convicções particulares. Essa religião consiste em serem bons, sinceros, honrados, de modo que possam ser diferenciados dos outros. Por este motivo, a Maçonaria é considerada como o CENTRO DE UNIÃO e faculta os meios de se estabelecer leal amizade entre pessoas que sem ela não se conheceriam".

É a este Artigo da Constituição de 1723 que franceses, belgas e simpatizantes se agarram para continuarem praticando a sua Maçonaria particular e "irregular".

O que acontece é que eles se apegam ao segundo parágrafo da Constituição de Anderson e esquecem totalmente do que diz no primeiro parágrafo, isto é: o maçom não pode ser nem ateu, nem irreligioso.

Baseiam-se no segundo parágrafo, que também não os ajuda. Senão vejamos:

"Nos tempos antigos, os maçons tinham a obrigação de seguir a religião de seu país ou nação". No ocidente, esta religião era cristã: católica, anglicana ou protestante. Todas estas versões do cristianismo têm como dogma a crença em Deus.

O que acontece é que desde o final do sec. XVIII e, sobretudo, no começo do sec. XIX, por influência dos filósofos iluministas houve uma natural tendência para o ateísmo: "Do cristianismo ao deísmo, do deísmo à neutralidade simpática, da neutralidade simpática à neutralidade hostil, da neutralidade hostil ao laicismo, do laicismo ao ateísmo declarado". Foi justamente esta escalada descendente o que aconteceu em algumas Potências maçônicas da Europa e da América Latina, no séc. XIX, sobretudo no Grande Oriente de França, líder incontestável deste movimento que desembocou na mudança da sua Constituição em 1877. Na realidade, este foi o resultado da ação de uma facção minoritária, mas ativa que, mesmo sendo minoria, conseguiu impor suas ideias à maioria acomodada.

Este processo começou pela infiltração nas Lojas do GOdF das ideias dos Iluminados da Baviera, seguidos dos Filadelfos e dos Carbonários, guiados pelos irreligiosos e ateus, como por exemplo Littré, Proudhon, que eram ateus, e que a partir de determinado momento, conseguiram impor as suas ideias. Proudhon, por exemplo, durante sua iniciação, respondeu assim à pergunta ritualística que lhe fizeram: “Quais são os seus deveres para com Deus”? A sua resposta não deixou margem para dúvidas: “A guerra”. Apesar disso, foi iniciado em 08 de junho de 1847. Estes e outros fatos semelhantes acabaram arrastando o GOdF para fora da Tradição da Ordem, quando eliminou de sua Constituição, em 1877 o seu artigo primeiro que exigia a fé em Deus e na imortalidade da alma.

As Grandes Lojas Unidas da Inglaterra, Escócia e Irlanda, e todas as demais Obediências a elas aderentes, romperam relações com o GOdF, e estas relações permanecem rompidas até hoje, não tendo sido nunca mais restabelecidas, apesar das várias tentativas do mesmo Grande Oriente de França em restabelecê-las, como por exemplo em 1961, como demonstrado na Declaração de Estrasburgo.

Assim ocorreu o grande CISMA, do qual se originaram duas grandes correntes maçônicas. Tanto numa corrente quanto na outra existem ou existiram maçons cultos, de destaque e de boa vontade: Na corrente do GOdF podemos citar Jacques Miterrand, Gaston Martin, Albert Lantoine, Paul Naudon, etc. À corrente das Grandes Lojas Unidas citam-se Marius Lepage, Alec Mellor, Ernest Van Heck, etc. Cada um deles sempre com fortes argumentos para defender os seus pontos de vista.

A verdade é que em 1877 ocorreu o CISMA, com a introdução da "VOIE SUBSTITUTÉE", isto é, a eliminação oficial de Deus – o “teicídio” – da Constituição do GOdF, em Assembleia Geral dessa Potência, começada em 10 de setembro de 1877, estando presentes 180 delegados das Lojas da Obediência. Na quinta sessão desta Assembleia foi posto na Ordem do Dia o pedido de alteração do art. 1º da Constituição, que suprimia a declaração nela contida de que “a Maçonaria francesa professa como princípio fundamental a crença em Deus e na imortalidade da alma”.

A nova redação do art. 1º da Constituição do GOdF ficou assim:

“A Maçonaria não exclui ninguém por suas crenças. A Maçonaria, instituição essencialmente filantrópica, filosófica e progressista, tem por finalidade a busca da verdade, o estudo da moral universal, das ciências e das artes e o exercício da beneficência. Tem por princípio a liberdade absoluta de consciência e a solidariedade humana. Tem por divisa: liberdade, igualdade, fraternidade”.

O "TEICÍDIO", isto é, a morte da exigência na crença em Deus foi aprovada por dois terços da Assembleia votante. Desse modo, foram eliminados dos rituais do GOdF todas as orações e alusões a Deus, o Grande Arquiteto do Universo. Como consequência imediata, ocorreu o rompimento com a Maçonaria "autêntica", ortodoxa e "universal" que tem a sustentá-la as três Grandes Lojas Unidas da Inglaterra, da Escócia e da Irlanda e todas as demais Potências que proclamam a crença em Deus.

Aqui no Brasil, o Grande Oriente do Brasil, em 1908, submeteu à apreciação das Lojas a seguinte tese:

“O atual momento histórico exige a simplificação dos rituais, de modo a que domine no interior de todos os templos o princípio da mais larga tolerância, abrigando no meio da Maçonaria os deístas e os ateus, os sectários de quaisquer religiões e os livres-pensadores”.

Esta “tese” não passou de uma tentativa dos adeptos do Rito Moderno ou Francês, o Rito Oficial – e único – do Grande Oriente de França, de seguir os mesmos passos daquela Potência e de suas aderentes de então, principalmente os Grandes Orientes da Bélgica, da Hungria e da Itália.

Todos sabemos o que pensa a grande maioria dos maçons brasileiros a respeito de Deus e da imortalidade da alma.

Este meus Irmãos é o desfecho de uma breve história dos fatos que iniciaram com uma maçonaria Teísta – cristã – passando por uma maçonaria Deísta – crença num Grande Arquiteto do Universo – chegando a uma maçonaria agnóstica, que aceita em seus quadros pessoas irreligiosas e ateus, que racharam a Maçonaria de Anderson, de Desaguilliers (principalmente deste) e de Frederico Desmons. Todos três pastores de igrejas cristãs.

Concluindo

Maçonaria deísta é, pois, a Maçonaria hoje correntemente aplicada, que aceita no seu seio crentes de todas as religiões. Isto não quer dizer que renegue a sua origem cristã, Teísta. Designadamente, mantém, em especial em alguns dos Altos Graus, graus especificamente cristãos. Mas, mesmo esses, um não cristão que a eles queira aceder e não se sinta desconfortável com o ideário cristão neles expresso, pode recebê-los.

Por fim, quando se diz que a Maçonaria é deísta, não se pretende dizer, nem se aceita, que se destina exclusivamente a deístas. Porque apenas se exige a crença num Criador, sendo indiferente qual é e como a ela se chegou, na Maçonaria convivem fácil e proveitosamente deístas, gnósticos e teístas. Seja qual for a sua religião.

Também, em Maçonaria "regular" a evolução se fez do teísmo para o deísmo, numa perspectiva de inclusão, nunca de exclusão. Por isso, a Maçonaria Moderna e "regular" é deísta, sem prejuízo de ter no seu seio – e muito confortavelmente – muitos teístas. Porque ser, individualmente, teísta, deísta, católico, luterano, anglicano, calvinista, evangélico, judeu, muçulmano, hindu etc.,  desde que crente, é absolutamente indiferente!

TFA

LuCaS

BIBLIOGRAFIAS:

– Assis Carvalho. O Mestre Maçom.

– Breno Trawtuim. Dogmas e Preconceitos Maçônicos.

– Frederico Guilherme Costa & José Castellani. O Rito Moderno - A verdade revelada.

– Gilson da Silveira Pinto. Pérolas Maçônicas.

– José Castellani. O Rito Escocês Antigo e Aceito.

– Luiz Carlos Silva. A Maçonaria Para Neófitos.

– Sociedade Bíblica do Brasil. Bíblia Sagrada.

– Valério Alberton. O Conceito de Deus na Maçonaria.

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Sempre Puros

              Sempre Puros

 

Em lojas antigas, sob o compasso,

Irmãos se encontram, em laço apertado,

Unidos pelo esquadro, pelo abraço,

Na busca por luz, um caminho traçado.

 

Com pedras brutas, a lapidar,

O maçom trabalha, sem cessar,

Erguendo templos, para o bem maior,

Na arte real, é um labor.

 

Entre colunas de força e beleza,

Guardam segredos, história e nobreza,

Com gestos e sinais, uma comunicação,

Na fraternidade, encontram sua fundação.

 

Da alvenaria ao simbolismo,

Um percurso de misticismo,

Valores firmes, como a rocha,

Na maçonaria, a ética se aloja.

 

Três grandes luzes, guiam o dia,

Sol, lua e mestre, em harmonia,

Na maçonaria, o aprendiz se faz,

Em cada ritual, um passo para a paz.

 

Assim caminham, com firmeza e razão,

Maçons do mundo, com o coração,

Construindo pontes, derrubando muros,

No ideal maçônico, são sempre puros.

TFA

LuCaS


terça-feira, 21 de novembro de 2023

O verdadeiro cofre, é o coração do homem

 SUBLIME CAPÍTULO ADONHIRAMITA MENSAGEIROS DA LUZ

VALE DE REMIGÍO PB.

OBREIRO: WALBER WESLEY FÉLIX DE ARAÚJO

NOME SIMBÓLICO: FÉLIX II

PEÇA DE ARQUITETURA

REFERÊNCIA AO 8°

APRENDIZ ESCOCÊS OU PEQUENO ARQUITETO

 

O verdadeiro cofre, é o coração do homem

 

Cofre: É um compartimento próprio para armazenar dinheiro, bens, ou documentos de valor.

Coração: É o músculo mais importante do corpo humano. A cada batida ele fornece alimento e oxigênio as células existentes em nossa matéria organizada pelo grande arquiteto.

Com essas 2 definições mencionadas acima podemos afirmar que provem do coração que deve ser o cofre de nossas bem ações, nossos puros pensamentos, nossas Boa e belas atitudes cristãs.

No livro de provérbios o entendido e sábio profeta SALOMÃO, filho do grande rei Davi, solicitou ao senhor dos exércitos, sabedoria e entendimento para guiar e julgar o povo de Israel com retidão e imparcialidade.

Tal solicitação foi concedida ao jovem SALOMÃO pelo grande Jeová.

Menciono 2 passagens onde podemos verificar a importância do coração como órgão de armazenamento de boas energias, bons pensamentos, o que lhe tornará um homem melhor, um homem lapidado, um homem que aprendeu a se desbastar interiormente, vencendo o homem carnal, sensual e diabólico ( homem natural/profano).

Provérbios 4:18-27

Mas a vereda dos justos, é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito

O caminho dos ímpios é como a escuridão, nem sabem em que tropeçam.

Filho meu, atenta para as minhas palavras, as minhas razões inclina teus ouvidos.

Não deixes apartar-se dos teus olhos, guarda-as no íntimo do teu coração. Porque são vida para os que as acham, e saúde para todo o seu corpo

Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.

Desvia de ti a falsidade da boca, e afasta de ti a perversidade dos lábios.

Os teus olhos olhem para a frente, as tuas pálpebras olhem direto diante de ti.

Pondera a verdade dos teus pés, e todos os teus caminhos sejam bem ordenados.

Não declines nem para direita e nem para a esquerda, retira o teu pé do mau.

Provérbios 23:7

Porque, como imagino em seu coração, assim é ele.

No meridiano dos tempos o Cristo vivo em quanto exercia seu ministério terreno também fez menção em sua pregação na ocasião em que reuniões multidões no sermão da montanha, onde ele e seus primeiros discípulos realizaram o s milagres da multiplicação dos pães e peixes.

Cito a passagem de escritura:

Mateus 6:19- 24.

Não ajustes tesouros na terra, onde a traça é a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam.

Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça e nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não roubam e nem minam.

Porque onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração.

A candeia do corpo são os olhos, de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz.

Se porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo será tenebroso. Se portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas.

Ninguém pode servir a dóis senhores, porque há de odiar um e amar o outro, ou seja se dedicará a um e desprezará outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.  

O coração representa a nossa essência mais profunda. É o calabouço da nossa alma. É onde arquivamos a vida, e de onde tiramos a compreensão para o nosso estado de ser quem somos de fato.

O coração, como consciência da alma, é o lugar onde Deus quer habitar, por isso a necessidade de ser um lugar minimamente possível de abrigar o Espírito daquele que é essencialmente santo e bom.

É verdade que é mais importante ter caráter do que ter dinheiro e que pessoas valem mais do que coisas. Mas não é sobre isto que Jesus está falando. Ele não está fazendo uma distinção entre os tesouros na terra e os tesouros no céu. Ele está falando sobre cofres diferentes e explicando que há um cofre na terra e outro cofre no céu.

Na terra, o cofre é frágil e há sérios riscos ao tesouro. Mas, no céu, o tesouro estará seguro.

Contudo, a importância de proteger o tesouro não é por conta propriamente do tesouro, mas sim por conta do coração. Jesus quer que nosso tesouro esteja guardado no céu porque ali vai estar o nosso coração e uma vez que o nosso coração está nos céus, em Deus, está segura a nossa alma.

A preocupação de Jesus não é com o tesouro, mas com o nosso coração, com a nossa essência, porque o nosso coração segue aquilo que nós tomamos como nosso tesouro, ou seja, aquilo que nós supervalorizamos e tornamos nossa riqueza, nossa preciosidade.

Diante de tudo que foi mencionado, deixo a seguinte reflexão para nossa introspecção:

onde está o Teu coração?

 

FRATERNALMENTE IRMÃO: WALBER WESLEY FÉLIX DE ARAÚJO

CIM 1336 SIMBÓLICO.

CIM724 FILOSÓFICO.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

A hospitalaria convoca seu centenário

A hospitalaria convoca seu centenário

Por: Jivago de Azevedo Chaves

“embora que não aprenda muito, aprenda sempre um bocadinho”. (SERRA, Raimundo Irineu, Hinário O Cruzeiro, hino nº 71)

A Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba possui um ritual do REAA que por cessão de uso é entregue à guarda da Loja de sua circunscrição. A Loja que recebe este ritual é a zeladora primária pelo uso fiel e integral de sua execução. A Loja destina o ritual ao uso pessoal de cada Ir e por isto, é da responsabilidade do Ven M da Loja instruir a cada Ir para perseguir, seguir no máximo que puder o que estabelece o ritual.

            O sumário do ritual de aprendiz inicia com a temática denominada símbolo e termina com a temática denominada quinta instrução. A Maçonaria Simbólica possui três (03) graus e para cada grau temos um ritual correspondente em nosso REAA .

Nosso ritual de aprendiz apresenta um tanto de condutas que os IIr devem obedecer na execução de seus trabalhos em Loja. Ao folhear suas primeiras páginas nos deparamos como o obreiro deve se comportar ao utilizar seus instrumentos de trabalho. No que diz respeito a Bol de Benef para o Tr de Solid aquele ritual afirma que:

“A Bolsa de Propostas e Informações, a Bol de Benef para o Tr de Solid, os livros, rituais e documentos que circulam em Loja são igualmente considerados como instrumentos de trabalho. Assim sendo, é vedada, aos seus portadores, a execução de sinais e saudações.” (Aprendiz, Ritual de. Rito Escocês Antigo e Aceito, pg.47).

            É vedado ao portador da Bol de Benef para o Tr de Solid que é o Ir  Hospitaleiro, a execução de sinais e saudações, isto é, saudar o Delta ao cruzar o eixo do templo assim como realizar quaisquer sinais dos respectivos graus do rito praticado em Loja.

            Vamos dar um passo à frente da interpretação e desde já deixar bem claro que o portador da Bol de Benef para o Tr de Solid já possui a consciência da condição de não executar sinais e saudações; ora, o Hospitaleiro em seus primeiros passos em Loja, segue em total atenção ao rito para terminar sua execução em obediência a ordem do Ven M. Destarte, a sua concentração deve ser oriunda de seu coração em plena harmonia com todos os IIr.

            Percebe-se que a vedação existe para que o movimento em Loja seja realizado com harmonia, haja vista que o portador do instrumento de trabalho precisa fazer a Bolsa circular em Loja para que se concretize a sua finalidade. O fato é que a circulação da Bolsa não pode ocorrer de qualquer modo e o irmão Hospitaleiro em obediência ao anúncio do Ven M deve fazer circular seu instrumento de trabalho com formalidades, a não ser em caso de dispensa por parte do Ven M; todavia não de qualquer modo. Há um momento na abertura dos trabalhos que o Ven M pergunta ao Ir 1º Diác para que ele ocupa o lugar e parte da resposta do Ir1ºDiác cinge-se à execução de um trabalho com ordem e perfeição.

            O maçom compreende que a sua instituição é sublime; portanto procura prestar bem atenção em seu Ven M porque é o venerável o responsável para conduzir os trabalhos em Loja com sabedoria. A atenção dada ao Ven M é necessária para que o rito praticado alcance ordem e perfeição posto que ele esclarece os trabalhos com as luzes de sua sabedoria. Ora, nós nos reunimos em Loja para combatermos um tanto de coisas e também nossos erros. O fato de um Ir evitar erros em seu oficialato, o aproxima da ordem e perfeição estabelecida pelo rito. Conforme ensina o filósofo F. W. Nietzsche, “as percepções mais valiosas são alcançadas por último; mas as percepções mais valiosas são os métodos”. (O Anticristo, § 13). Bem, meus IIr não nos falta um ritual; temos técnica ou meio de executar nosso trabalho em busca da ordem e da perfeição.

            A Ordem Maçônica é justa e perfeita e cabe ao maçom buscar conscientemente; ou seja, com conhecimento, com ciência esta ordem e perfeição. Pois bem, para que os trabalhos sejam executados com ordem e perfeição é preciso que todos os obreiros em Loja tenham conhecimento do que precisa ser executado para que a Luz e a Sabedoria do Rei Rabino Salomão brilhem em seu representante no sólio; a saber, nosso VenM.

            É bem evidente que conhecer difere do querer, todavia quem afirma saber também deve buscar praticar o que sabe e não apenas para seu próprio bem posto que o maçom também deve buscar praticar o bem ao próximo. Ora, em Loja devemos buscar praticar com ordem e perfeição o nosso rito para que fora da Loja também sejamos praticantes de boas práticas humanas e fraternas em obediência a Deus e às Leis.

Vejamos o que está escrito em nosso ritual:

“O verdadeiro Maçom pratica o Bem e leva a sua solicitude aos infelizes, quaisquer que eles sejam, na medida de suas forças. O Maçom deve, pois, repelir com sinceridade e desprezo, o egoísmo, a imoralidade” (Aprendiz, Ritual de. Rito Escocês Antigo e Aceito, pg.35) 

Isto é a convocação da Hospitalaria.

 Este texto trata da Hospitalaria praticada na Loja e fora dela e seguindo a fluidez do texto entende-se que para uma melhor execução do trabalho da Hospitalaria é preciso repousar melhor entendimento da lógica do nosso ritual. Pois bem, em relação ao Ritual da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba, e aproveitando a oportunidade de parafrasear o Filósofo Ludwig Wittgenstein, pode-se recolher seu sentido com as palavras que seguem: o que se pode em geral interpretar, pode-se interpretar claramente; e a respeito daquilo de que não se pode interpretar, deve-se silenciar.

            Ora, seguindo este raciocínio, o presente trabalho também busca esclarecer o modo como a Hospitalaria deve executar seu oficialato, com ordem e perfeição, sempre que os demais IIr estejam em obediência ao REAA posto que deve-se, portanto, poder executar o que se pode executar no limite traçado pelo ritual, e o que estiver além do limite é considerado um contrassenso. Por outro lado, a realidade é que o ritual deve ser lido, estudado, conhecido e posto em execução. Desta forma, entende-se que, no essencial, a execução adequada dos trabalhos, sobretudo em Loja, dá-se pela obediência ao rito e para que isto aconteça os IIr precisam vencer suas paixões, submeter sua vontade, fazer novos progressos na Maçonaria, levantar TT à virtude e cavar masmorras ao vício pois de outro modo entende-se também, aqui, encontrado a solução: pouco importa executar os trabalhos quando o próprio Ir não é reconhecido como maçom.

            O manual de aprendiz na página 66 afirma que:

“Durante os trabalhos somente poderão falar sentados o Ven M, os VVig, o Secr ao fazer a leitura do Balaustre e do Expediente e o Orad ao dar suas conclusões. Os demais IIr deverão falar de pé e à ordem”. (Aprendiz, Ritual de. Rito Escocês Antigo e Aceito, pg.66) 

          Nota-se que da transcrição acima apenas as Luzes e Dignidades estão autorizadas a falar sentados posto que isto decorre de uma necessidade em manter os trabalhos em ordem e perfeição. Neste norte, entende-se que na execução dos trabalhos a fala em Loja é dirigida pelo Ven M e para ele. A licença para falar é concedida pelo VenM não sendo uma prerrogativa do irmão utilizá-la a seu bel prazer. Todos os IIr têm o direito de falar, mas não de qualquer modo ou a qualquer instante. A atenção à fala de cada IIr na prática do rito traz luz e conhecimento, tornando o Ir cada vez mais fiel na execução dos seus trabalhos que o envolve numa egrégora de Luz, Paz e Amor que vem do alto.

            Foi mencionado que nossa instituição é sublime; senão vejamos:

 “Para o REAA, a Maçonaria é progresso contínuo, por ensinamento em uma série de graus, visando, por iniciações sucessivas, incutir no íntimo dos homens a Luz Celestial, Espiritual e Divina, que, afugentando os baixos sentimentos de materialidade, de sensualidade e de mundanismo e invocando sempre o G.A.D.U, os torne dignos de si mesmos, da família, da pátria e da humanidade”. (Aprendiz, Ritual de. Rito Escocês Antigo e Aceito, pg.32 e 33)

 

            Hospitaleiro é o nome dado ao Oficial da Loja encarregado não só de arrecadar o óbolo durante a circulação da Bolsa em Loja, por meio do seu giro ritualístico, como também é encarregado de atender aos necessitados. O trabalho do Hospitaleiro vai além do templo posto que ele é um mensageiro da fraternidade e solidariedade humana; sendo este mensageiro um Ir apto a compreender erros e que possui boa consciência na sua relação com os demais.

O Ven M é responsável para manter o Hosp informado das adversidades que podem viver alguns irmãos, para que o Ir Hosp ajude a todos, espiritualmente e materialmente. Do querer do Ir Hosp depende toda a filantropia realizada e ao Hospitaleiro cabe examinar bem o mérito das solicitações feitas juntamente com o VenM.

A circulação da Bolsa ocorre em todas as sessões, a Bolsa é o símbolo da Hospitalaria. Neste momento é vedado aos IIr a entrada ou a saída do Templo. É colocada uma música suave e luz baixa para um relaxamento e recolhimento espiritual, pois o ato de doar é uma forma de receber bons fluídos como agradecimento. O obreiro coloca o óbolo na mão que em seguida é fechada e movimentando a mão encostada ao peito do lado do seu coração, coloca dentro da Bolsa de coleta e lá dentro solta a doação energizando o conteúdo da Bolsa com as pontas de seus dedos retirando a mão completamente aberta. Não há o que se falar no momento da doação e tudo o que for colocado na Bolsa é debitado à Tesouraria e creditado à Hospitalaria. Note-se que tudo aqui significa todo o valor colocado na Bolsa. Neste momento tão valoroso e cheio de Graça e Beneficência há de reinar silêncio absoluto, até mesmo porque não há permissão da parte do Ven M para diálogo ou falas. O ritual do REAA não estabelece conversação naquele instante ao depositar o óbolo para a beneficência tampouco depois, haja vista o Ir Hosp precisar continuar a cumprir o giro até se encontrar entre CCol em cujo momento único, de seu giro, lhe é permitido fazer um anúncio para o Ven M que em seguida lhe dar uma ordem. Aquele anúncio do Ir Hosp é feito em sessão de Aprendiz e de Companheiro, e não em sessão de Mestre.

Entende-se neste trabalho que é preciso examinar as afirmações no que diz respeito ao ritual da Grande Loja do Estado da Paraíba posto que não estamos definindo afirmações já que buscamos pensar livremente a respeito dele. O ritual como referencial para a prática do R E A A estabelece orientações na busca da ordem e perfeição produzindo na mente, no mundo e na linguagem certos resultados. Os resultados podem produzir Luz(conhecimento), Paz e Amor que são dimensões que vêm do alto. Ora, investigar, examinar o referencial objetivando a ordem e perfeição é o que podemos dizer ser algo justo não apenas como busca objetiva assim como subjetiva, a exemplo de uma prática ritualística Bela ou Pura que indica um nível ritualístico diferente; uma vez que há a prática exotérica e a esotérica do R E A A .

O ritual de aprendiz é e deve ser utilizado até mesmo pelo IR mais experiente uma vez que, segundo a compreensão de Espinosa, “a experiência nunca nos ensina a essência das coisas- o máximo que pode fazer é determinar nossa mente a pensar apenas acerca de certas essências das coisas”(ESPINOSA, 1983ª,p.372)

O rito é uma coisa, ele é o rito. O ritual é outra coisa, ele é o ritual. Posto que temos um ritual como referencial percebe-se que este consiste numa determinada visão do rito. Ora, o ritual não é definitivo uma vez que suas palavras ou orientações a respeito do rito denominam “objetos” deste. Supomos que esta seja a visão predominante entre os IIr posto que para um tanto deles, o ritual possui significado se a ele corresponde ao seu objeto (Rito), embora, entre estes mesmos IIr, nem sempre haja concordância quanto à natureza do ritual. Aqui, procura-se examinar de forma teórica, como vemos o ritual ou se pelo menos estamos praticando as orientações dele em busca de alcançar ordem e perfeição do rito.

A prática exotérica do rito se dá com ordem e perfeição, algo alcançado por um tanto de IIr , mas a prática esotérica do rito é alcançada, a depender do grau do Ir sob a direção do Rei Rabino Salomão, pela ritualística, tendo o Ven M como representante daquele. 

Entende-se aqui por exotérico o que se fala abertamente a respeito de uma filosofia ou algum tipo de ensinamento entregue de forma pública, sem reserva. De forma que, esotérico é algo que se fala com reserva; é um conhecimento reservado aos iniciados (público seleto) que irão se defrontar com algo a ser revelado de forma primordial. O fato é que a pessoa esotérica compreende a relação entre sociedade e filosofia ou até mesmo entre sociedade e mística; e por ser assim, fala ou escreve com atenção, estabelecendo os pensamentos que lhe são afins “entre linhas”, a medida que fala ou escreve abertamente aquilo que pode ser compreendido por todos na sociedade.

Ora, o R E A A possui uma série de graus e a Hospitalaria é presente neste Rito com comportamento diversificado conforme já dito. Neste sentido, aqui também é preciso tratar a temática de forma exotérica e esotérica. Pois bem, tratar desta temática de forma aberta ou não também é algo a ser examinado.

A prática ritualística, a prática dos IIR seguindo o ritual, em busca de ordem e perfeição é vista aqui sob o aspecto EXOTÉRICO para que o mínimo possível de clareza com ordem e perfeição seja alcançado em Loja. Todavia, neste trabalho, não há definições no sentido de que ao aspecto exotérico sejam os IIR filiados ou, de outra forma a um aspecto esotérico, posto que os IIR são livres e de bons costumes conforme o próprio ritual de aprendiz afirma na página 31, senão vejamos:

“[...] a Ordem Maçônica foi sempre, e deve continuar a ser, a União consciente de homens inteligentes, virtuosos, desinteressados, generosos e devotados, irmão livres e iguais, ligados por deveres de fraternidade para se prestarem mútua assistência e concorrerem, pelo exemplo e pela prática das virtudes, para esclarecer os homens e para prepará-los para a emancipação progressiva e pacífica da Humanidade.”

 

Ocorre que um trabalho no grau de aprendiz precisa ter lucidez suficiente para não se adentrar em assuntos de graus posteriores, posto que as iniciações posteriores trazem instruções a posteriori.  Em outras palavras, a temática é para cada grau como a ela lhe parece. Aqui, é preciso apontar que para Waismann ou o lema dele segundo o qual “a essência da filosofia reside em sua liberdade” caberia bem a Wittgenstein: “nós não forçamos o interlocutor. Nós o deixamos livre para escolher, aceitar ou rejeitar qualquer uso das palavras”. E aí estaria “o verdadeiro modo de fazer filosofia não-dogmaticamente”. Escolher usar o ritual em busca da prática do rito é uma livre decisão do maçom- uma forma de ver de nossa parte, mas é nosso inferir.

A Enciclopédia de Diderot, citada por Arthur Melzer (2014, p. xi, tradução nossa) define os termos exotérico e esotérico como segue:

“EXOTÉRICO e ESOTÉRICO, adj. (História da Filosofia): A primeira dessas palavras significa exterior, a segunda, interior. Os antigos filósofos tinham uma dupla doutrina; uma externa, pública ou exotérica; a outra interna, secreta ou esotérica.” 

Praticar o que o nosso ritual nos orienta é inquestionavelmente certo naquilo que ele nos orienta e compreender o rito não é insinuar que ele esteja em um plano escondido sob estudados véus. Entende-se que em cada grau do rito com seu respectivo ritual é revelado aos iniciados, que passam por seus ritos iniciatórios, o seu próprio ensino, instruções que antes podemos denominar de exotérico e após a iniciação, esotérico. Isto é uma maneira de ver que adotamos neste trabalho.

O ritual não significa o rito, se assim fosse, ele perderia seu significado caso esse rito desaparecesse. O ritual, nesse sentido, deve ser estudado e posto em prática por causa de uma necessidade; isto é, a busca da ordem e da perfeição nos trabalhos. Alcançar a presença de Salomão é alcançar um ideal ritualístico, não somente a ordem e perfeição na prática do rito, é estar em sua presença, ritualisticamente perante ele. A perfeição na prática do rito é um ideal mais tácito do que o ideal do referencial (ritual), que garante a univocidade do rito. Seguir o ritual é buscar assegurar o rito, embora fundamentado em uma noção de verdade que não se torne sem valor.

O ritual pode ser comparado a uma muleta uma vez que parece que a ideia do ritual já está na ideia da análise, a priori, como uma necessidade lógica. A verdade, neste sentido, coloca a necessidade da exatidão lógica e da univocidade do sentido em relação ao nosso rito. Nosso ritual tem uma aparência de exatidão de significado relativo ao rito, uma vez que a exatidão absoluta é um ideal, e, portanto, inalcançável, pelo menos pelo ritual. O ritual não é um ideal de exatidão em relação ao rito, mas é o que temos. Ao buscar a verdade, ao buscar praticar o R E A A , vemos o quão longe estamos de nós mesmos, do que significa ser um maçom, um Ir , é como se não fôssemos. Há uma maneira de ver isto parafraseando Parmênides ao afirmar que é maçom, e não é possível que não seja; não é maçom, e é necessário que não seja.

Górgias, um sofista, afirma em seu Da natureza, ou seja do Não-Ser:

“Se houver coisas exteriores existentes fora de nós, serão objeto da visão, audição, olfato, tato, paladar. Nosso meio de comunicação é a palavra e nenhuma coisa externa nos é dada por meio de palavra. Assim como não vejo o som nem escuto as cores - cada sentido percebe o que lhe é próprio -, não posso, pela palavra, dizer coisas; pela palavra, digo palavras e não coisas. (CHAUI 2002, p. 173)

             O que dá significado ao nosso ritual é o seu uso – nada, portanto, que esteja além dele. No uso do ritual, incluindo nossa cultura e natureza, buscamos a realização do nosso rito e a realização como maçom que vivencia o R E A A . Entende-se, aqui, que a pedra pode até ser polida, mas é preciso que ela seja cúbica para ser utilizada nas construções. O rito apresenta ao praticante que o caminho do G. A. D. U. é um caminho de retidão com ordem e perfeição, e o ritual nos auxilia.

            Buscar o ensinamento exotérico do ritual é uma inteligência desenvolvida pelo IR que começa a subir na escada de Jacó. A subida começa pelo chão com a iniciação no grau de aprendiz. Conhecer o ritual é percebê-lo. A subida, supomos, começa a ficar difícil quando se percebe, dentro do próprio aspecto exotérico, que nem todos percebem o ritual. A partir daí, a subida é árdua, mas o R E A A é a meta a ser realizada a cada grau, onde cabe a cada IR perceber a si mesmo.

Afirma-se em nosso ritual que:

“O caminho pelo qual nós, Maçons, esperamos atingi-la é expresso simbolicamente pela escada existente no Painel, e que as Sagradas Escrituras denominam a Escada de Jacob, nome que, sempre guarda fiel da antiga tradição, a Maçonaria conserva. Por isso dizemos aos AApr MM , depois de sua iniciação, “que puseram o pé no primeiro degrau da Escada de Jacob”, significando-lhes que deram o primeiro passo no caminho do seu aperfeiçoamento moral.” (Aprendiz, Ritual de. Rito Escocês Antigo e Aceito, pg.183-184)

            Em cada grau sabe-se de forma exterior e interior que o começo da escalada é um “novo chão”, sabendo, inicialmente, de forma exterior aquele conhecimento e não sabendo de forma interior, mas satisfeito pelo que foi alcançado. Lá, onde se encontra o ápice da escada, de onde se pode perceber, todo o percurso do R E A A é o lugar de onde se pode afirmar, sem suposição, que nem todos percebem o ritual. Aqui, afirmamos que o ritual deve ser percebido e praticado por todos que foram iniciados na Arte Real e sobretudo na prática da Hospitalaria para que os trabalhos em Loja alcancem ordem e perfeição.

            O fato de o irmão maçom ser livre não lhe é imposto a obrigação de adotar o ritual da Grande Loja do Estado da Paraíba sendo apenas necessário que ele seja o que é, um irmão maçom. Vejamos o que afirma nosso ritual:

“A Maçonaria não impõe nenhum limite à livre investigação da verdade e é para garantir a todos essa liberdade, que ela exige de todos a maior tolerância.” (Aprendiz, Ritual de. Rito Escocês Antigo e Aceito, pg. 33)

             Entende-se que por intermédio do ritual de aprendiz como item cognoscível e primeiro é que os demais rituais vêm a ser conhecidos. Em cada degrau da escada de Jacó, cada grau, cada ritual há um discernimento exotérico e esotérico a ser exposto ao maçom. Na compreensão de Aristóteles, “afirmamos conhecer cada coisa precisamente quando julgamos discernir sua causa primeira.”(ARISTÓTELES, 2008, p.14).

            Ora, infere-se neste trabalho que há realizações que apenas sentimos e a respeito disto, como quem percebe esotericamente falando, afirma Arnaut:

“A eficácia do rito, seu significado profundo, está, assim, na força que lhe é atribuída, previamente conscientizada. Neste processo de comunicação, o receptor da mensagem sente-a, mais do que a ouve e vê. O rito é, afinal, uma forma sensível de tocar o insensível, de dar conteúdo ao mito e regressar ao tempo primordial. O rito maçônico é, do mesmo modo, um conjunto de signos apenas compreensíveis para os iniciados, conforme os graus. Tem um significado histórico-moral e constitui um instrumento de acesso à Sabedoria, pois é o fio condutor da verdade inicial e dos valores eternos.”(ARNAUT, António. Introdução à Maçonaria. Junho 2017, p. 31 e 32) 

            Ora, não utilizar, não estudar, não examinar o ritual de aprendiz não nos parece uma escolha. Aqui é como vemos.

Isto também é a convocação da Hospitalaria.

Pois bem, é preciso observar, examinar melhor a linguagem do ritual para melhor praticar o R E A A . Quanto mais desenvolvido o grau de memória do IR , mais aprendizado ele retira do ritual. O ritual existe para ser usado, estudado e posto em prática. Todavia, entende-se, aqui, que as afirmações contidas no ritual não são definitivas nem intocáveis, o ritual é passível de modificações posto que não é algo acabado, definitivo. Aqui, este ritual é apresentado como uma referência proveniente da Grande Loja do Estado da Paraíba enquanto que ali, para outra Potência, uma equiparação; como se fosse possível dizer em uma linguagem jurídica que temos um Paradigma e um Paragonado.  Em outras palavras, não há rituais definitivos apesar de serem necessários, quando assim considerados.

Então, como é possível falar a respeito do ritual sem estudá-lo, sem praticá-lo e ao mesmo tempo respeitá-lo, haja vista a Grande Loja tê-lo disposto às Lojas e aos IIR ?! Ora, por intermédio da linguagem podemos falar a respeito do ritual, da nossa maneira de usá-lo. A linguagem tem seus elementos que são as palavras, que são organizadas constituindo as proposições enquanto o ritual é um referencial existente no mundo para servir na busca da realização de um Rito. Pela linguagem nos ligamos entre a estrutura lógica do mundo (com seus objetos) e a estrutura lógica da própria linguagem.

Percebe-se que a obediência ao rito impede a prática daquilo que é contrário ao próprio rito e do que trata o ritual. Não seguir as orientações do ritual é no mínimo desrespeitar a todo e qualquer IR que esteja, pelo menos, procurando praticá-lo uma vez que a relação entre objetos e palavras surge em uma ordem de correspondência, enquanto a relação entre os fatos e as palavras, é de ordem lógica, já que é um compartilhamento da forma. Deve-se, em Loja, trabalhar em obediência ao Ven M posto que ele dirige os trabalhos; se em outra ordem estivéssemos também seríamos obedientes àquela. Vejamos o que ensina o Mestre Irineu em um de seus hinos:

Chamo o Tempo

Chamo o tempo eu chamo o tempo
para ele vir me ensinar.
Aprender com perfeição
para eu poder ensinar

Os que forem obedientes
tratar de aprender
para ser eternamente
para Deus lhe atender

Depois que o tempo chega
ninguém quis aprender
depois que refletir
é que vai se arrepender

Firmeza no pensamento
para seguir no caminho
embora que não aprenda muito
aprenda sempre um bocadinho

(SERRA, Raimundo Irineu, Hinário O Cruzeiro, hino nº 71)

            Entende-se aqui que a perfeição buscada é um ideal, haja vista que a perfeição é apenas o Grande Arquiteto do Universo, Deus, a Força Superior.

Ora, todo obreiro segue em obediência ao Ven M, representante de Salomão, para que seus trabalhos sejam realizados com ordem e perfeição. É e sempre será tempo de obedecer. O IR Hospitaleiro, ao realizar seu giro ritualístico, aqui visto no grau de aprendiz, não pode ser interrompido por palavras ou ações que não estejam permitidas no rito, nem tampouco por orientações ausentes no ritual. Em seu giro ritualístico, a depender de cada IR e a depender de cada situação interior que o mesmo esteja vivenciando, conectado em seu coração inicia seu giro lembrando-se da melodia sentida; aqui, me vem à lembrança de noturno em dó sustenido menor, de Chopin (Noturne in C sharp minor, Op. Posth). O M H sabe que a música ajuda a todos os IIR nos trabalhos em Loja, além de consolar a tranquilidade de consciência.

O fato é que não se deve interromper, interpelar ou invocar qualquer irmão que circula em Loja com instrumento de trabalho para realizar ações que não estejam em nosso rito.

A forma ritualística e lógica da Hospitalaria, da Tesouraria, da Chancelaria etc, determina o que se pode constituir em Loja, ou seja, o que é possível ocorrer e a forma lógica das palavras determina quais delas podem constituir proposições ou falas com sentido aceito pelo rito. A única fala, conforme PERMITE o ritual, aqui visto no grau de aprendiz, dirigida ao IR Hospitaleiro deve ser aquela vinda do Ven M e não de outros IIR . O rito precisa ser praticado, realizado ou estaremos em Loja como profanos. Compreende-se que o sentido de uma fala ou proposição está em ela expressar um fato possível e a sua verdade está em ela expressar um fato que realmente ocorre, todavia, em Loja, em sessão aberta, as falas, as frases, as proposições estão condicionadas àquelas permitidas pelo ritual. Expressar um fato possível é visto, aqui, como uma referência ao aspecto objetivo do R E A A em seu sentido de conteúdo objetivo. Destarte, segue o que pensou inicialmente o filósofo Wittgenstein em seu Tractatus Logico-Philosophicus  que termina com a seguinte afirmação: “sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”. (WITTGENSTEIN, 1994, p. 281)

Pode-se também falar subjetivamente a respeito do nosso ritual numa perspectiva entre os conceitos de mente, mundo e linguagem numa correspondência entre pensamento, fatos e falas. Todavia, é preciso lembrar que a prática exotérica do nosso rito é uma condição básica da busca de uma ordem e perfeição estabelecida pelo nosso ritual. Ora, quem já está no grau de praticar o rito de forma subjetiva com beleza e pureza ritualística é um IR que pratica seu rito sem interferir na prática ritualística do outro IR ; ou seja, é um IR que já superou a prática exotérica.  Terminando, porém não finalizando, esta convocação da Hospitalaria em seu centenário, percebe-se que apesar de termos que seguir em obediência as orientações do ritual, também percebe-se que a aparente exatidão do significado do ritual é relativo e indissociável do Rito, do contexto dele, sendo que aquela exatidão não é absoluta e se for uma exatidão absoluta é apenas um ideal e, sendo assim, algo que não se alcança. Wittgenstein, a respeito do ideal, afirma:

“Um ideal de exatidão não está previsto; não sabemos o que devemos nos representar por isso- a menos que você mesmo estabeleça o que deve ser assim chamado. Mas ser-lhe-á difícil encontrar tal determinação; uma que a satisfaça.” (WITTGENSTEIN. 1999, p. 424) 

Aponta-se, aqui, que a principal situação em que nos deparamos é aceitar e conceber clara e distintamente as noções primeiras do nosso ritual de forma a fazer a análise, um raciocínio contínuo a partir das orientações, das proposições nele contidas que supomos verdadeiras.

            Em seguida compreende-se que não há exatidão última em nosso ritual e isto desfaz a convicção da lógica como estruturadora do pensamento, do mundo e da linguagem. O fato é que praticar o rito é preciso e cabe a cada IR investigar sua prática por si mesmo.

            Isto é a convocação da Hospitalaria em seu centenário na Loja Regeneração Campinense nº 02

 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

 1-Aprendiz, Ritual de. Rito Escocês Antigo e Aceito. Grande Loja do Estado da Paraíba.

 2-ARNAUT, António. Introdução à Maçonaria. Junho 2017, EDIÇÃO REVISTA E AUMENTADA. IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA. COIMBRA UNIVERSITY PRESS.

 3-ARISTÓTELES. Metafísica: Livros I, II e III. Campinas: UNICAMP/ IFCH, 2008.

 4-ESPINOSA, B. Correspondência. Trad. CHAUÍ, M. São Paulo: Ed. Abril, 1983a, p. 372 (Col. Os Pensadores)

 5- CHAUI, M. Introdução à história da filosofia. – Vol. 1. Dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

 6- MELZER, Arthur M. (2014). Philosophy Between the Lines: The Lost History of

Esoteric Writing. Chicago: Chicago UP.

 7- Noturno nº 20 em Dó menor, Op. Post. Lento con gran espressione. (é uma peça para piano solo composta por Frédéric Chopin em 1830 e publicada em 1870.)

 8-O Anticristo, § 13. Friedrich Wilhelm Nietzsche

 9-SERRA, Raimundo Irineu. Hinário: O Cruzeiro, hino n° 71.

 10- WAISMANN, F. “How I see philosophy”. In: AYER, A.J.. (ed). Logical positivism. New York: The Free Press, 1963, p. 356.

 11-WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Tradução: Luiz Henrique Lopes dos Santos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1994.

 12- WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas. Tradução: José Carlos Bruni. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1999 (Coleção Os Pensadores: Wittgenstein)


LOJA MÃE

  LOJA MÃE (PALESTRA)   Venerável Mestre, presidente desta sessão, Veneráveis Mestres das demais Lojas e Potências aqui presentes, Ofici...