segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Em Busca da Maçonaria Inclusiva

 

Em Busca da Maçonaria Inclusiva

LUIZ CARLOS SILVA[1]

Introdução

As “corporações” de alta eficiência e eficácia já perceberam que um dos grandes desafios das comunidades humanas na atualidade, é encontrar soluções para estabelecer uma sociedade mais inclusiva e solidária. Tanto no âmbito governamental quanto nas instituições de direito privado, promover uma política de inclusão e diversidade é de fundamental importância para proporcionar a inovação da entidade. Nesse sentido, pergunta-se, de que forma a Maçonaria pode contribuir no enfrentamento deste desafio?

Para tentar responder tal questionamento, faz-se necessária uma análise ou diagnóstico da Ordem Maçônica, começando por suas “leis” consideradas como universais, internacionais e regionais.

A maçonaria entidade civil de direito privado, sem fins lucrativos, embora mantendo suas formas de reconhecimento e cerimônias de iniciação e comunicação de graus em segredo, e ainda, fundada nos princípios e postulados fundamentais proclamados pela Maçonaria Regular, está sujeita às leis do país. Ora, nos princípios fundamentais da Constituição da Grande Loja do Estado da Paraíba (2000), entre outros, estabelece que seus princípios e postulados fundamentais, proclamados pela Maçonaria Simbólica Regular, obriga a obediência aos antigos usos e tradicionais costumes definidos nos Landmarks coligidos por Albert Galletin Mackey e constituições dos Maçons codificadas por James Anderson e aprovada em 1723, afirma, também que a iniciação à maçonaria é exclusiva para homens, os quais devem ser isentos de doenças ou defeitos físicos ou mentais, excluindo-se qualquer relação com corpos maçônicos que admitam mulheres em seus quadros. Também, essa Grande Loja, como as demais, para serem reconhecidas como “Regulares”, submete-se aos chamados oito pontos de regularidade definidos pela Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUE).

Pela análise desses enunciados podemos constatar que a GLEPB é uma entidade exclusivista e que fere frontalmente a legislação brasileira, visto que o Artigo 5º da Constituição Federal brasileira assegura que todos são iguais perante a lei e que são invioláveis a liberdade e a igualdade de todos. Afirma, ainda que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei, e que mulheres e homens são iguais em direito e deveres, sendo inviolável a liberdade de consciência e de crença, bem como a manifestação livre do pensamento, e, ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política (BRASIL, 1988).

Por outro lado, a Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUE) estabelece oito pontos ou Princípios Básicos para o Reconhecimento de uma Grande Loja, ou seja, para que a GLUE passe “atestado” de regularidade maçônica a uma Grande Loja, é necessário que tal Grande Loja ou Obediência siga na íntegra o que se segue:

1 – Regularidade de origem, ou seja, cada Grande Loja deve ter sido legalmente constituída por uma Grande Loja devidamente reconhecida ou por três ou mais lojas regularmente constituídas;

2 – Que a crença no Grande Arquiteto Do Universo e Sua Vontade revelada será uma condição essencial para a admissão de seus membros;

3 – Que todos os iniciados prestem seus juramentos, a vista do Livro da Lei Sagrada, simbolizando a revelação do Alto que atinge a consciência do indivíduo em particular que está sendo iniciado;

4 – Que os membros da Grande Loja e das Lojas individuais sejam exclusivamente homens, e que nenhuma Grande Loja deve manter relações maçônicas com lojas mistas ou com obediências que aceitem mulheres como seus membros;

5 – Que 3a Grande Loja mantenha jurisdição soberana sobre as Lojas que estão sob o seu controle, ou seja, deve ser uma organização responsável, independente e governada por ela mesma, exercendo sua autoridade única e indiscutível sobre os graus simbólicos do ofício (Aprendiz, Companheiro e Mestre) dentro de sua jurisdição, e que não pode depender nem compartilhar de maneira nenhuma sua autoridade com um Supremo Conselho ou outro Poder que reivindique controle ou supervisão sobre esses graus;

6 – Que as três Grandes Luzes da Maçonaria (ou seja, o Livro da Lei Sagrada, o Esquadro e Compasso) estarão sempre expostos quando a Grande Loja ou suas Lojas subordinados estejam em trabalho, sendo o primeiro entre eles, o Livro da Lei Sagrada;

7 – Que a discussão de assuntos políticos ou religiosos estejam estritamente proibidos dentro de loja;

8 – Que os princípios dos Antigos Landmarks e os usos e costumes da Fraternidade sejam rigorosamente observados (GRANDE LOJA UNIDA DA INGLATERRA, 2018. Grifo nosso).

Mas, a GLUI não define nenhum desses Landmarks.

Segundo Kennyo Smail, 2012, para maçons mal informados, a Grande Loja Unida da Inglaterra exerce função de “xerife” do mundo maçônico, proclamando-se legítima guardiã da regularidade maçônica, devendo ditar as regras a serem seguidas pelas demais Obediências. Para esses, se a Maçonaria fosse uma religião, a GLUI seria uma espécie de Vaticano Maçônico. É importante esclarecer que a GLUI não tem essa autoridade e que isso é totalmente contrário a todos os princípios maçônicos de autonomia, soberania e igualdade entre Obediências... aquele que visitar a Maçonaria Regular nos chamados países desenvolvidos descobrirá que essa idolatria à GLUI não é compartilhada por eles. Muito pelo contrário: verdade é que a GLUI não faz parte da vanguarda maçônica. Mas, que fique claro aos maçons: a Grande Loja Unida da Inglaterra não é um modelo a ser seguido, nem uma autoridade a ser obedecida.

– Assim como os judeus, enquanto povo, trazem no seu DNA a consciência e a crença no Deus único, cujo nome é impronunciável, o que os torna sempre unidos e presentes, não importando as distâncias geográficas ou temporais, o povo inglês carrega no seu DNA o espírito imperialista colonizador, não deixando de fora, essa gana, nem mesmo a Ordem Maçônica.

– Há pouco falou-se em Landmarks, e em diversas jurisdições Maçônicas ao redor do mundo, inclusive a Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba, a lista de 25 Landmarks de Albert Galletin Mackey é respeitada como algo intocável, afinal, a sua vigésima quinta regra assim determina, que os outros 24 Landmarks são imutáveis. O décimo oitavo traz na sua redação o impedimento de mulheres, escravos e aleijados serem iniciados.Isso está de acordo e respeitando a constituição de qual país?

Pelo que pudemos inferir, a Maçonaria se apresenta como uma instituição seletiva, exclusivista, elitista e impositiva. Por conseguinte, devemos buscar meios de tornar essa instituição realmente inclusiva, rejeitando tudo o que submete, tudo que oprime, tudo que nega o ser humano em seus direitos, pois só assim construiremos, de fato, um dos fundamentos de uma atitude maçônica de inclusão. Mas, sendo a Maçonaria uma instituição que indica caminhos de aperfeiçoamento baseado num comprometimento alicerçado no amor à Verdade, ela tem como objetivo a criação de uma aliança de Homens e Mulheres que se unem para trabalhar individual e coletivamente para o progresso social, moral, espiritual e intelectual. Identificados os problemas da busca de uma linguagem própria, e de temática universal de pensamento, bem como da tendência para cada humano e diversos grupos se isolarem nos seus dogmas e crenças, prejudicando as relações humanas existentes, a mesma tem por obrigação a proposição de contrariar tal fato. Pois mais acertado é, somente, adotar a religião com a qual todos concordam, guardando suas opiniões particulares para si próprio, isto é, serem pessoas boas e leais, de honra e honestidade, qualquer que seja a denominação ou convicção que os possam distinguir; assim, a Maçonaria se torna um centro da união e um meio de conciliar uma verdadeira amizade entre pessoas que de outra forma permaneceriam em perpétua distância. Ou seja, independentemente das diversas culturas e filosofias, bem como, e de todos os poderes instituídos, a finalidade desta Ordem será sempre a de aproximar humanos, reunindo o que está disperso, sem impor nem uniformizar.

Sobre a Legislação em que se fundamenta a maçonaria especulativa

As Constituições das Potências Maçônicas Simbólicas, de um modo geral, atribuem aos Landmarks, às Old Charges e à Constituição de Anderson precedência legal sobre si próprias e sobre a Legislação Obediencial delas originária. Por outro lado, muitos de nossos Irmãos em conversas ou pronunciamentos em Loja sempre proferem referências exaltadas ou citações respeitosas aos Landmarks, às Old Charges, à Constituição de Anderson. Mas será que tais alusões são feitas com plena consciência do que são e do que representam esses documentos que constituem os fundamentos jurídicos da Maçonaria Especulativa? Façamos, então, uma breve análise sobre os Fundamentos Jurídicos da Maçonaria Especulativa.

Os Landmarks

Segundo Silva Filho (1998), a primeira vez em que se fez menção à palavra Landmark em Maçonaria foi nos Regulamentos Gerais compilados em 1720 por George Payne, durante o seu segundo mandato como Grão Mestre da Grande Loja de Londres, e adotados em 1721, como lei orgânica e terceira parte integrante das Constituições dos Maçons Livres, a conhecida Constituição de Anderson.

Os Landmarks, que podem ser considerados “constituição maçônica não escrita”, longe de ser uma questão pacífica, se constituem numa das mais controvertidas demandas da Maçonaria, um problema de difícil solução para a Maçonaria Especulativa. Há grandes divergências entre os estudiosos e pesquisadores maçônicos acerca das definições e nomenclatura dos Landmarks. Existem várias e várias classificações de Landmarks, cada uma com um número variado deles, que vai de 3 até 54. Segundo Virgílio Lasca (1955) citado por Nicola Aslan em “Landmarques e Outros Problemas Maçônicos”, para a Grande Loja de Nova York os Landmarks são apenas seis, para a Grande Loja da Virgínia são sete, para a Grande Loja de Massachusetts são oito, para a Grande Loja de Nova Jersey são dez, para a Grande Loja de Tennessee são quinze, para a Grande Loja de Connecticut são dezenove, para a Grande Loja de Minnesota são 26 e para a Grande Loja de Kentucky são 54.

A maioria das Potências Maçônicas Brasileiras, embora tacitamente, adotam a classificação de 25 Landmarks compilada por Albert Galletin Mackey, sobre a qual recaem severas críticas restritivas.

Analisemos, portanto, alguns de seus pontos:

1.      Meios de reconhecimento – como landmark, significa que os mesmos não podem ser alterados, mas já foram alterados e poderão sofrer novas alterações no futuro, não se sabe;

2.      A lenda do 3º grau – essa lenda tem menos de 300 anos, dentro da ritualística maçônica e nenhum dos antigos manuscritos maçônicos menciona a Lenda de Hiram, nem os Regulamentos Gerais compilados por George Payne em 1720, nem a Constituição de Anderson de 1723.

3.      As prerrogativas do Grão Mestre, do 5º ao 8º ponto – não eram possíveis tais prerrogativas, antes da instituição desse cargo, o que somente aconteceu a partir de 1717.

Se, por conceituação, os landmarks da maçonaria existem desde tempos imemoriais, e que seria impossível data-los, pergunta-se: onde, então, as origens desconhecidas desses landmarks?

Portanto, afirmar de modo categórico que os Landmarks são vinte e cinco é, pois, demonstrar uma visão estreita da questão, é incorrer em erro, pois estes não se limitam apenas àqueles enunciados por Albert G. Mackey que, por sua vez, não são aceitos, incondicionalmente e unanimemente, pelas Potências Maçônicas espalhadas pela terra, em especial as Grandes Lojas Americanas, as quais, historicamente, sempre serviram de espelho às Grandes Lojas Brasileiras.

As Old Charges

As Old Charges ou Antigos Deveres ou, ainda, Antigas Obrigações são, na verdade pergaminhos ou documentos escritos para serem usados, a título de Constituição, pelos Maçons Operativos das Lojas de Talhadores de Pedra. Atualmente o número desses manuscritos, conhecidos e reconhecidos como autênticos, já se aproxima dos 140, dentre os quais, destacam-se: o Poema Regius, de 1390, também chamado de “Documento “Halliwell”; o Manuscrito de Cooke, de 1410; os Estatutos de Schaw, de 1598; o Manuscrito de Inigo Jones, de 1607; o Manuscrito de Kilwinning, de 1665; o Manuscrito de Aitchison Haven, de 1666; e o Manuscrito de Melrose, de 1674.

As Old Charges, por sua importância histórica, serviram para estabelecer a existência, na Inglaterra, de uma Maçonaria organizada antes da fundação da Grande Loja de Londres, embora com finalidades diferentes das que são hoje por nós conhecidas, tendo, por isto mesmo, influído de modo marcante para a organização da Maçonaria Especulativa.

Como vimos, as Old Charges não podem, como afirmam alguns, ser consideradas como “constituições maçônicas não escritas”.

A Constituição de Anderson

A primeira edição do “Livro das Constituições” — a mais célebre — além de uma dedicatória do Irmão Desaguliers, contém:

1. Uma curta história da arte de construir, retirada das tradições da corporação;

2. Os antigos deveres ou leis fundamentais (Old Charges);

3. As obrigações antigas reunidas pelo Irmão Payne ou Regulamentos Gerais de 1721; e,

4. A aprovação do livro, que terminou com quatro cantos maçônicos.

A Constituição de Anderson, considerada o principal documento e a base legal da Maçonaria Especulativa e na qual se arrimam as demais Constituições Maçônicas, sofreu, ao longo da história, várias revisões: em 1738, em 1756, em 1767, em 1776, em 1784, em 1815. Sobre a Constituição de 1815, diz nos Nicola Aslan:

Enquanto as Maçonarias latinas só reconhecem como únicas legítimas e genuínas as Constituições maçônicas de 1723, a Maçonaria inglesa, após emenda-las várias vezes, baseia-se, atualmente, nas Constituições de 1815, elaboradas depois da reunião das duas Grandes Lojas, que separavam o mundo maçônico inglês, e nas quais os religiosos “Antigos” fizeram incluir preceitos completamente diferentes dos de 1723 (NICOLA ASLAN, N.D., p.174).

Em razão do exposto, há de se questionar:

1. Por que as Constituições da maioria das Potências Maçônicas Brasileiras ignoram a existência de outros Landmarks já que, mesmo não fazendo nenhuma referência sobre a compilação por ela reconhecida, admite, tacitamente, existir apenas os Landmarks enunciados por Mackey?

2. Quando as Constituições dessas Potências Maçônicas falam em Old Charges a que documento ou documentos estão querendo se referir? Ao “Poema Regius”? Ao “Manuscrito de Cooke”? A que manuscrito especificamente? Ou querem se referir à Parte II da Constituição de Anderson que dispõe sobre as antigas leis fundamentais?

3. Será que é por isso que, muitos quando se referem à maçonaria, torcem o nariz e dizem que essa é uma instituição que cheira a naftalina?

Primeiros passos em direção à maçonaria inclusiva

Na época da Maçonaria Operativa, não havia discussões na Europa. Era-se cristão ou judeu e ponto final. A religião entrava na vida de cada indivíduo, não através de uma busca racional, mas como uma caraterística essencial. E a religião era o que os responsáveis da Igreja diziam que era. Analisar questões teológicas era encargo de muito poucos dentre os pouquíssimos que sabiam ler e escrever. A grande massa dos Povos tinha a religião do Estado onde se encontrava ou do senhor a quem servia. Não era, sequer, uma questão de escolha. Era de sobrevivência, literalmente falando. Não se punha, pois, a questão de se ser deísta, teísta ou gnóstico. O conceito de deísmo nem sequer existia. Todos eram teístas, porque todos eram crentes. E quem não fosse, calava e fingia sê-lo, se queria continuar integrado na sociedade, vivo e com boa saúde (BANDEIRA, 2009).

Na Europa medieval, havia, apenas, duas opções religiosas: o cristianismo e o judaísmo – o primeiro subdividiu-se em duas correntes, uma sob a ordem do papa de Roma –; depois, com a Reforma Luterana, o protestantismo, sendo o catolicismo amplamente maioritário.

Todos os maçons eram, por definição, crentes de fé cristã. A Maçonaria Operativa, como instituição eminentemente profissional, não se diferenciava do restante das instituições oficiais existentes. E todos eram cristãos e, portanto, teístas. Nem se concebia que pudesse ser diferente!

Com o tempo e o desenvolvimento da sociedade, essa situação foi sendo paulatinamente alterada.

A partir de finais do século XVI, gradualmente as Lojas maçônicas operativas começaram a admitir elementos não integrantes da profissão de construtores em pedra. Foram senhores que mandavam construir igrejas e contratavam e pagavam, para esse efeito, os oficiais construtores, exercendo sobre estes manifesta influência econômica, que demonstravam interesse em compartilhar dos segredos da Arte Real da construção, foram influentes cavalheiros ou nobres que assumiam o papel de protetores das corporações de maçons, enfim, pouco a pouco foram sendo aceitos indivíduos não construtores nas Lojas. E as Lojas passaram a ser locais de congregação de maçons livres e aceitos. Maçons livres, os oficiais construtores que não dependiam de senhores, que eram livres de trabalhar e exercer o seu ofício onde quisessem e pudessem. Maçons aceitos, aqueles que, não sendo oficiais construtores, tinham sido aceitos no seio das Lojas (BANDEIRA, 2009).

Os maçons aceitos foram, aos poucos, se sobrepondo aos maçons livres, tanto em número, quanto no gerenciamento dos destinos das Lojas, escolhendo os trabalhos de Loja, e os ensinamentos a imprimir. Aos poucos, porém, em pouco mais de um século, a Maçonaria que era essencialmente de operários trabalhadores nas artes da construção em pedras, madeiras e alvenaria transformou-se de Operativa em Especulativa, de simples agremiação de construtores, em instituição de livre discussão, de aperfeiçoamento moral, de especulação filosófica e não mais apenas de mera aprendizagem profissional.

Por esses tempos acontece o movimento iluminista, a emergência do racionalismo, a popularização das ideias de Kant, de Locke, e muitos outros. A "Royal Society", sociedade dedicada ao avanço e divulgação das ciências é constituída e muitos dos seus fundadores e elementos impulsionadores são maçons aceitos.

A Grã Bretanha dessa época histórica vivenciou tempos de profundos e dolorosos conflitos políticos e religiosos. "Stuarts" contra "Oranges" e depois "Hanovers", católicos contra anglicanos, jacobinos contra realistas. Lutas ferozes e sangrentas, prisões e decapitações, que em nada ficaram a dever à mais famosa das Revoluções, a Revolução Francesa; foram os resultados da ambição desenfreada pelo poder. Mas, nem tudo restou em malefícios, pois, resultou no fim do Estado Confessional. O Homem podia já pensar sobre os fundamentos da sua crença. E o fez.

A postura de cada um em face do Divino já não dependia exclusivamente da aceitação da Revelação das Escrituras e dos ensinamentos dos profetas e ministros religiosos. Kant indicou o caminho, e muitos foram progressivamente percorrendo a vereda da descoberta do divino através da Razão. Já não havia apenas o caminho exclusivo da Fé para a Crença. Outro também se abriu, o caminho da Razão. Já não havia só teísmo, também apareceu e autonomizou-se o deísmo. Através do seu desassossego intelectual, os maçons aceitos não se limitaram a "colonizar" a Maçonaria Operativa e a transformá-la em Maçonaria Especulativa. Também, na Maçonaria introduziram os princípios e o conceito do deísmo. Sobre uma pré-existente Maçonaria teísta, construíram uma Maçonaria deísta, abrindo o leque para cidadãos livres e de bons costumes, não importando a sua crença professada e foi um importante passo em direção à inclusão Maçônica (BANDEIRA, 2009).

Mas, infelizmente, a nossa história é repleta de avanços e retrocessos, avançam-se alguns passos e outro tantos de passos são dados para traz. É que, na Proclamação de Estrasburgo, o Grande Oriente de França (GOdF) e o Grande Oriente da Bélgica, embora suavizando a sua posição relativa à crença em Deus e em sua revelação, mantêm vivos os princípios que levaram estas duas Potências à “SUMMA DIVISIO” em 1877, que separou em definitivo a nossa Ordem em duas: uma "regular", e outra "irregular". Uma, que mantém o dogma da crença no Grande Arquiteto do Universo e outra que, em nome da Constituição de Anderson, aceita em suas Lojas até ateus e irreligiosos.

Desde o final do sec. XVIII e, sobretudo, no começo do sec. XIX, por influência dos filósofos iluministas houve uma natural tendência para o ateísmo: "Do cristianismo ao deísmo, do deísmo à neutralidade, da neutralidade ao laicismo, do laicismo ao ateísmo declarado". Foi esta escalada descendente que aconteceu em algumas Potências maçônicas da Europa e da América Latina, no séc. XIX, sobretudo no Grande Oriente de França, líder incontestável deste movimento que desembocou na mudança da sua Constituição em 1877. Em realidade, foi o resultado da ação de uma facção minoritária, mas ativa que, mesmo sendo minoria, conseguiu impor suas ideias à maioria acomodada.

Este processo começou pela infiltração nas lojas do GOdF das ideias dos Iluminados da Baviera, seguidos dos Filadelfos e dos Carbonários, guiados pelos irreligiosos e ateus, como por exemplo Littré e Proudhon, que eram ateus, e que a partir de determinado momento, conseguiram impor as suas ideias. Estes e outros seus semelhantes acabaram arrastando o GOdF para fora da Tradição da Ordem, quando eliminou de sua Constituição, em 1877, no seu artigo primeiro, a exigência na fé em Deus e na imortalidade da alma, bem como, a nova redação do art. 1º da Constituição do GOdF, assim modificada: “A Maçonaria não exclui ninguém por suas crenças. A Maçonaria, instituição essencialmente filantrópica, filosófica e progressista, tem por finalidade a busca da verdade, o estudo da moral universal, das ciências e das artes e o exercício da beneficência. Tem por princípio a liberdade absoluta de consciência e a solidariedade humana. Tem por divisa: liberdade, igualdade, fraternidade”. As Grandes Lojas Unidas da Inglaterra, Escócia e Irlanda, e todas as demais Obediências a elas aderentes, romperam relações com o GOdF, e permanecem rompidas até a atualidade, apesar das várias tentativas do mesmo Grande Oriente de França em restabelecê-las, como por exemplo em 1961, como demonstrado na Declaração de Estrasburgo (SILVA, 2014).

Digno de citação, no sentido de inclusão é a Maçonaria Prince Hall (maçonaria dos negros), cujos comentários são dispensados.

Segundo Diego Denardi (2021), importante é ressaltar que na Maçonaria regular, felizmente, a regra de exclusão de deficientes físicos, atualmente em voga, ainda, na América Latina e outras jurisdições, não é nem de longe universal: a Grande Loja Unida da Inglaterra, a Grande Loja do Maine e a Grande Loja Regular da Bélgica, para citar apenas três, não apresentam restrições à Iniciação de profanos com deficiências físicas. Para essas potências, as pessoas com deficiências podem tornar-se maçons, desde que, a deficiência não o impeça de participar das reuniões; Paraplégicos têm-se tornado maçons, assim como cegos, surdos e outros com várias deficiências. Pequenas modificações devem ser feitas nos rituais (por exemplo: empregar linguagem de sinais, modificando pontos em que o candidato fica em pé se é usuário de cadeira de rodas). A Grande Loja da Escócia dispõe de Rituais em Braille dos três graus simbólicos.

A iniciação de pessoas com deficiências não torna uma potência irregular. Somente através da pesquisa, estudo e conhecimento, chegaremos por fim ao resultado que certamente será o fim do preconceito e a permissão às Lojas de poderem elas próprias decidirem quem é elegível para a iniciação na Maçonaria.

Maçonaria para mulheres

O assunto das mulheres e a Maçonaria é complexo e sem uma explicação fácil. Tradicionalmente, apenas os homens podem ser Maçons na Maçonaria Regular. Muitas Grandes Lojas não admitem mulheres porque acreditam que isso quebraria os antigos Landmarks Maçônicos. No entanto, existem muitos órgãos Maçônicos não convencionais que admitem homens e mulheres ou exclusivamente mulheres.

A Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE), e outras, concordam com esta tradição regular (incluindo a Grande Loja Provincial de Nottinghamshire), não reconhecendo formalmente qualquer corpo Maçônico que aceite mulheres. A UGLE declarou em 1998 que duas jurisdições femininas Inglesas são regulares na prática, a The Order of Women Freemasons (OWF) e a The Honorable Fraternity of Ancient Freemasons (HFAH), exceto pela sua inclusão de mulheres, e indicou que, embora não formalmente reconhecidos, estes órgãos podem ser considerados parte da Maçonaria, quando se descreve a Maçonaria em geral.

O site da Honorável Fraternidade dos Antigos Maçons (HFAF), nos informa que essa Ordem Maçônica foi fundada em 1913 e a adesão está aberta a mulheres de qualquer raça ou religião, que são capazes de professar uma crença em um Ser Supremo... tem muitas lojas no Reino Unido, incluindo a Ilha de Man, e até Carlisle no norte e sul para Bournemouth e oeste para os Cotswolds. Também, foram procuradas para abrir lojas no Brasil. Estão trabalhando em conjunto com a Grande Loja Unida da Inglaterra, para promover a Maçonaria Universidades (HFAF, 2020)

Já, o site da “Ordem das Mulheres Maçons” (OWF) nos informa é a maior e mais antiga organização maçônica para mulheres na Inglaterra e trabalha nos moldes da Maçonaria masculina regular. Sendo fundada em 1908, tem cerca de 4.000 membros agrupados em mais de 300 Craft Lodges operando no Reino Unido e no exterior. Embora a Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE) reconhecido, em um comunicado emitido em 1999, a regularidade e a sinceridade da maçonaria feminina, não a reconhece oficialmente e seus membros não podem participar de reuniões conjuntamente. Muitas de suas lojas se reúnem em templos de propriedade da Ordem dos homens e as relações informais são cordiais e cooperativas. Da mesma forma, há um acordo recíproco estendido aos membros da UGLE que realizam suas reuniões nas instalações da OWF (A ORDEM DAS MULHERES MAÇONS).

Uma notícia colhida em 17 de julho de 2018 nos dá conta que as mulheres transexuais podem permanecer como maçons se já o eram como homens, disse a Grande Loja Unida de Inglaterra. Expulsar maçons que façam a transição é considerado “discriminação ilegal”, advertiu a Grande Loja Unida da Inglaterra. Assim, usar a transição de um maçom como razão para excluí-lo de uma loja exclusivamente masculina é “discriminação ilegal e, portanto, nunca poderá constituir uma causa suficiente”. As mulheres que fizerem a transição para se tornarem homens também deverão ser autorizadas a aderir, isto é, ter suas iniciações autorizadas ou permitidas. Independentemente da identidade de gênero, os 200.000 membros do UGLE ainda serão formalmente referidos como “irmãos”, diz o documento. Informalmente eles deverão ser chamados “pelo nome e título que tiverem escolhido” (UGLE, 2018).

Num documento emitido para 7.000 lojas em todo o país diz: “Se um maçom que é membro da UGLE deseja mudar de gênero e se tornar uma mulher, esperamos que receba o apoio total dos seus irmãos”.

Dado o papel fulcral que a United Grand Lodge of England desempenha na Maçonaria Regular, será interessante ver como é que esta orientação vai repercutir por todo o mundo.

Artigo de Jean-Philippe Schreiber datado de 24/09/2020 nos dá conta de que o Grande Oriente da Bélgica (GOB), principal obediência maçônica do país deu um passo fundamental na sua história de quase dois séculos, quando a em Assembleia Geral adotou, em 16 de Fevereiro de 2020, e por grande maioria, uma reforma dos seus estatutos e regulamentos que, entre outras modificações, agora permitirá que as lojas filiadas a esta obediência liberal e adogmática integrem mulheres nos seus quadros.

Maçonaria Executiva

Em determinada época existiu, o que se pode considerar, uma maçonaria Primitiva, a qual evoluiu para uma maçonaria Operativa, que transformou-se em maçonaria Especulativa, e agora, estamos assistindo uma mudança de época e com ela, ainda em estudos, está surgindo a ideia de uma maçonaria Executiva – proativa e inclusiva –, que é aquela que quebrando paradigmas, paulatinamente, venha substituir a maçonaria hoje praticada – a maçonaria especulativa. Em outras palavras, está acontecendo uma mudança de época histórica, isto é, a época da maçonaria Especulativa está com os dias contados, cedendo lugar à época da maçonaria Executiva; semelhante à borboleta que passa por diversas metamorfoses, mudando de forma, mas conservando-se em essência, a mesma. Nessa “nova” maçonaria proativa, de conceitos bastantes inclusivistas, teríamos Lojas atuando junto à sociedade no sentido de implementar um processo de transformação e integração, tanto social, quanto político, gerando consensos globais sobre o pensamento e a ação maçônica, defendendo a liberdade, a democracia, os direitos humanos, a justiça, a verdade, a paz, a solidariedade, a ecologia, a união entre os povos e fraternidade em todos os níveis; discutindo os problemas que afetam a sociedade local e, enfim, realizando o trabalho secular da maçonaria; – os detalhes desse processo de transformação devem constituir assunto para outro momento (SILVA, 2023).

(Re)Construção do Espaço de Inclusão

Tratando-se a Maçonaria de uma associação de homens esclarecidos, a mesma poderá contribuir na atualidade para a finalidade a que sempre se propôs: a felicidade do gênero humano. Tal objetivo deverá ser desprovido de interesses políticos, filosóficos ou religiosos. Pois “trata-se de uma associação de homens esclarecidos, não tendo outra preocupação se não a felicidade do gênero humano – fora de toda a preocupação religiosa e política – excluindo apenas o ser sem virtude”. (D’ASSAC, 1984).

De acordo com a GLSP (2017), “A Maçonaria é uma aliança de Homens que se unem para trabalhar em comum para o aperfeiçoamento intelectual, moral e espiritual da Humanidade – e dentro desta não há classes sociais – há graus de conhecimento, funções executivas e funções jurisdicionais. Este caminho de aperfeiçoamento é realizado com base num comprometimento ancorado no desejo e no amor à Verdade. Assim, a Maçonaria é uma escola de virtude e sabedoria, que opera através de um sistema de moral velada pela alegoria e ilustrada por símbolos, e que não tem por base um mandamento que nos tenha sido dado (…), mas baseia-se em fatos precisos e leis de ordem natural, sobre os quais não há dúvidas”.

Deste modo, ela se afirma como uma “Família Universal”, em que ser maçom é pertencer a esta família a qual se dedica à construção do Templo de Verdade. Para Silva, 2008, um dos principais elementos que caracteriza a família, é acolhimento dos seus parentes e, portanto, a maçonaria tida como uma família universal significa, também, “Acolhimento” de seus membros e, acolher é incluir. Infelizmente, frequentemente, no nosso cotidiano observando de forma direta ou em relatos, convivemos com acontecimentos marcados, não pelo acolhimento e construção, mas sim, pela rejeição, exclusão e divisão e pela destruição.

Um dos grandes desafios da atualidade, é a necessidade de encontrar novas soluções para estabelecer uma sociedade mais inclusiva e solidária. É inerente a todos, o dever de se implicar e acompanhar as mudanças em curso no mundo e procurar estar afinado com o seu diapasão, isto é, com base no que Immanuel Kant definiu como imperativo categórico: o dever de cada um agir conforme os princípios e os valores que considere serem benéficos caso sejam seguidos por qualquer outro indivíduo.

– Coexistimos, mas muitas vezes afastamo-nos uns dos outros e quando isso acontece, também nos afastamos do mundo. Frequentemente vivemos em conflito com a ordem natural das coisas e em desacordo com a nossa dimensão biológica. Nós, por natureza, temos necessidade de explicar o que é o mundo e dessa necessidade nasceu a ciência moderna. Temos igualmente necessidade de compreender quem somos e quem é o outro, questões que nos conduzem para domínios subjetivos, como sejam: sentimentos, emoções, valores e intuição.

– A essência de uma comunidade de “irmãos” é a inclusão do outro. Neste sentido, face aos desafios contemporâneos da construção de sociedades mais inclusivas e solidárias, de que forma a Maçonaria pode oferecer um contributo singular neste desafio? Uma das possíveis respostas poderá ser enunciada da seguinte forma: é preciso refletir para reconstruir. Perante uma cultura em que o Homem é, simultaneamente, produtor, produto e subproduto de uma sociedade mercantilizada, é preciso questionar, entender e transformar.

– Na nossa cultura predomina o pensamento linear, a lógica binária. Este modo de pensar pode fazer acreditar que há sempre polos antagônicos entre os quais é preciso escolher. A possibilidade de escolher é um dos fundamentos da liberdade e da democracia, valores grandemente exaltados pela Maçonaria, todavia, esta não é aquela escolha binária – ou é preto ou é branco – que limita as possibilidades de exercer a individualidade, a criatividade e a consciência crítica (SILVA, 2008).

Uma cultura em que predomina o pensamento linear / a lógica binária, cria mentes prisioneiras das polaridades, como sejam: ou virtude ou vício; ou bem ou mal; ou Norte ou Sul, ou Oriente, ou Ocidente. Um pensamento fortemente formatado nesta lógica binária dificulta a nossa percepção da diversidade e da complexidade do mundo, conduzindo a uma deficiente comunicação entre as pessoas, geradora de uma lógica de exclusão.

É certo que o modelo binário / linear permite criar resultados práticos e significativos para a melhoria da vida humana, como sejam as que se aplicam as situações mecânicas, instrumentais e operacionais (MARTINS, 2022, p. 73).

– O que torna problemático naquele modelo, não é sua existência nem as aplicações práticas que cria, mas sim o fato dele ser visto como quase único, exclusivo. Importa, assim, complementar aquele modelo de pensamento binário, com um modelo de pensar de forma abrangente / holístico, isto é, pensar o todo sem deixar de lado as partes. A este propósito, o filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662) referiu-se do seguinte modo: "Considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, bem como conhecer o todo sem conhecer as partes em particular" (SILVA, 2022, p. 102-103).

– O lema “Bem Pensar, Bem Dizer, Bem Fazer” não nos deve indicar uma realidade sobre a qual fazemos uma escolha limitada, estreita e fragmentada entre dois polos opostos, mas sim uma escolha ilimitada, aberta à reflexão, à ponderação, capaz de conduzir à formação do homem livre e integral, capaz de pensar o mundo na sua natureza complexa. Para isso, precisamos de uma educação que nos conduza a um equilíbrio entre um modelo de pensamento objetivo e lógico – indispensável para que lidemos com as situações concretas, objetivas e quantitativas do cotidiano– e um modelo de pensamento de natureza subjetiva, que inclui os sentimentos, as emoções e a intuição. É neste sentido que os termos "acolhimento" e "complementaridade" são deveras importantes nos trabalhos maçônicos, os quais têm por base a construção da verdadeira fraternidade entre os irmãos, capaz de ser transportada para a vida profana de cada um (MARTINS, 2022, p. 73).

– Dos problemas que a Maçonaria enfrenta hoje, podemos atribuir à sua infidelidade à Verdade que cura e purifica, bem como à constante presença num pensamento marcadamente concreto quanto à sua essência. Neste ponto, os ensinamentos da Maçonaria são basilares, pois a sabedoria e virtude não servem para engrandecer o maçom, mas para o conduzir ao Templo da Verdade. E sabemos que não há religião superior à Verdade, logo o mesmo não tem necessidade de ter uma religião institucionalizada. Segundo Luís de Matos na sua reflexão sobre o Templo da Verdade, o mesmo refere que:

O Templo da Verdade é o local metafísico onde a percepção da verdade desaparece, a distorção causada pela verdade individual cessa e Verdade Indivisível, como ela É, brilha em todo o seu esplendor, inconfundível, indiscutível, inefável. Para ensinar a sabedoria e a virtude, a Maçonaria trabalha num Templo. As reuniões decorrem à porta fechada, em Loja, num espaço sagrado e protegido, no qual estão visíveis os símbolos e emblemas de cada grau. A palavra “templo” etimologicamente provém do latim, templum que significa “lugar reservado”, ou “lugar à parte”, lugar separado dos lugares comuns. Para ensinar a sabedoria e a virtude, a Maçonaria usa o véu dos símbolos em seus templos. Os símbolos são as regras da linguagem metafísica, do código linguístico partilhado por todos os seus estudantes (MATOS, 2010, p. 26-27).

Acordamos que a Maçonaria no século XXI não deve ser a mesma Maçonaria que foi vivida no século XVIII, apesar daquela que hoje projetamos só poder ser sólida se estiver bem firme nos fundamentos de todo o seu passado, porque também o seu passado assentava nos fundamentos da Maçonaria de ofício primitiva (MATOS, 2010). Para Scawn Eyer a própria franco-maçonaria antecedeu o Cristianismo, mas foi a matriz cristã que deu um significado mais profundo à própria Maçonaria (HACKETT, 2014; EYER, 2016).

Para entender o papel da Maçonaria na contemporaneidade é preciso partir da base do modelo mental por meio do qual construímos o nosso mundo. Em geral adota-se um modelo que privilegia as partes isoladas, em prejuízo das relações como um todo. Uma sociedade regida por um sistema de pensamento que privilegia a divisão, o afastamento, a falta de inclusão é uma sociedade de desconhecidos, de estranhos. O desconhecimento produz a desconfiança, e esta alimenta o medo e é por ele realimentada.

Se temos medo de entrar em contato com nossos sentimentos, emoções e subjetividades, acabamos adotando uma visão de mundo em que tudo nos parece externo, objetivo. É como se não compartilhássemos o mesmo mundo com as pessoas com as quais lidamos no cotidiano.

– Para pôr em prática os objetivos sociais da Maçonaria que pretendemos inclusiva é preciso adotar-se não apenas o modelo binário, nem apenas o modelo sistêmico, que embora, mais interativo, se divorcia do modelo binário linear; deve-se, portanto, adotar-se o modelo proposto por Silva (2008), isto é, o modelo Complexo que envolve e adota os dois modelos anteriores do pensamento. Trata-se, todavia, de uma mudança ampla e profunda, que não pode ser feita por meio de iniciativas superficiais e de curto prazo.

Melhor dizendo, o pensamento binário é uma forma de pensamento dicotômico que separa o inseparável. A conveniência de uma visão dicotômica da realidade se consolidou como uma “regra” histórica para modelar a interpretação da realidade e a transformação do mundo. Há cerca de 500 anos, Maquiavel separou o “político” do “moral”; Galileu separou a “realidade material quantificável” da “experiência sensorial intangível”; Descartes separou a “mente” da “matéria”; Bacon separou a “ciência” da “sociedade”; Hobbes separou o “poder” do “povo” e Smith separou o “econômico” do “político”. Este falso dualismo influenciou a forma de pensar e, portanto, a forma de agir de todas as gerações posteriores a estes pensadores. A humanidade, hoje, está confusa frente à proliferação das falsas dicotomias criadas por esta forma de pensar que, por conveniência política ou por inocência intelectual, exige dos “construtores sociais” um posicionamento frente a estes falsos dilemas. Isso tanto drena energia social como gera oposições desnecessárias dentro e entre grupos sociais, enquanto os promotores desse tipo de pensamento se beneficiam da confusão criada.

Trata-se, portanto, de um padrão que exclui em vez de incluir, que separa em vez de juntar, que fala de “ações”, não de “interações”, que fala de “vivência” e “sobrevivência” em vez de “convivência”. Em especial, é um modelo que privilegia as partes isoladas, em prejuízo das relações.

Já o pensamento sistêmico permite pensar o modo como as partes se relacionam entre si para formar o todo. O modelo linear lida com os fenômenos em termos de causa-efeito (causalidade simples). O pensamento sistêmico permite ir além da causalidade simples, possibilita a compreensão das relações e interações no interior de cada sistema e entre sistemas diferentes.

Nosso cérebro está preparado para os dois modelos mentais, isto é, está programado também para relacionamentos e não apenas para a divisão e a fragmentação. Deve haver, portanto, um equilíbrio entre o modo de pensar fragmentador e o modo abrangente de pensar.

O pensamento complexo, por sua vez, é um modo de pensar que procura ligar dois sistemas de pensamento que estão separados por nossa cultura. É um modo de pensar acolhedor, de integração. É por essa razão que ele constitui a base teórica da Maçonaria que pensamos, para enfrentar os desafios do mundo atual. O objetivo do pensamento complexo é permitir que lidemos de modo adequado com a complexidade. Esta pode ser definida como a condição natural de todas as coisas e processos do Universo, no qual tudo está ligado a tudo e tudo depende de tudo, “assim como está em cima, assim está em baixo”. É imperioso lembrar que uma das proposições morais da maçonaria é que o bem das gerações futuras deve ter primazia sobre o bem dos presentes, e isso não se consegue sem que haja inclusão e acolhimento (SILVA, 2022, p. 108).

Inclusão, Solidariedade, Moral e Ética Social

A Maçonaria se diz universal, e suas lojas espalham-se pela terra sem preocupação de fronteiras e de raças.

O colonialismo europeu justificou sua dominação sobre ouros povos, hierarquizando grupos humanos: uns brancos, cristãos, anglo-saxões, eram classificados como superiores; outros negros, índios e mestiços, eram julgados inferiores. Já modernidade foi criada sob a premissa do universalismo para estabelecer o monopólio cultural europeu. Questionam-se ambos, pois, o racismo ignora o “desenvolvimento das diferenças” e inviabiliza “as diferenças do desenvolvimento” enquanto, o universalismo ignora a “natureza do lugar” e inviabiliza o “lugar da natureza”, criando vulnerabilidades onde pessoas e seus lugares são distintos.

Propondo-se a Maçonaria realizar a universalidade, a fraternidade e a tolerância, coloca-se logo de saída a questão de saber como tal objetivo será possível se ela abarca várias obediências e ritos. Assim como algumas obediências rejeitam as mulheres e irmãos pelas suas opções políticas, religiosas, filosóficas ou por pertencerem a outras famílias maçônicas. Há quem diga que “a Ordem é a que pode realizar a universalidade e as Obediências que atraiçoam a Ordem” (MARTINS & NOGUEIRA-SIMÕES, 2022).

De fato, em cada país e com o decorrer dos séculos, foram promulgados diversos e numerosos estatutos, contudo, isso não obsta a que a Maçonaria possua determinado número de princípios básicos, aceitos por todos os indivíduos que a compõem em todas as partes do globo. Tal condição possibilita a aceitação, a fraternidade universal dos maçons, a sua condição de grande família no seio da Humanidade, que centralize o pensamento e a ação da Ordem. Inclusivamente, pode falar-se de um conjunto de caraterísticas institucionais comuns a todas as famílias maçônicas que permite a sua identificação (LÁZARO, 1996).

– A sua universalidade se firma no princípio de que todos os homens são iguais perante uma entidade a que denomina de Grande Arquiteto do Universo, sendo que todos os templos dos Francos-maçons são consagrados à humanidade, à tolerância, à união mais íntima, à amizade mais perfeita e ilimitada e à fraternidade incondicional (GRANDE LOJA MISTA DO RITO DE MEMPHIS-MISRAIM, 2017).

– O enunciado da universalidade da Maçonaria está ancorado a uma construção política e jurídica, cujo início da produção remonta ao século XV e, principalmente, ao século XVII. À época do Iluminismo, não existia uma afirmação consagrada dos direitos humanos, válidos para todos de maneira universal, mas apenas direitos de âmbito regional ou nacional, pensados para alguns humanos de maneira específica, como foi o caso dos direitos do homem, integrantes da Declaração Francesa de Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789 (GRUBBA & STAFFEN, 2017).

Apesar de a “Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948” ter declarado o caráter universal dos direitos humanos, desde o seu surgimento se discute a aplicabilidade daqueles direitos. Argumentos relativistas, localistas ou de direitos culturais, foram se afirmando contrários à ideia de uma possível ou necessária universalidade dos direitos humanos. Deste modo, consideravam ser o universalismo, uma “tentativa cultural ocidental de imposição imperialista de uma única forma de se estar no mundo com dignidade” (GRUBBA & STAFFEN, 2017).

Segundo Grubba & Staffen (2017) os defensores do relativismo cultural sustentam que cada cultura possui uma visão acerca dos direitos fundamentais e que não há uma moral universal, em razão do pluralismo de culturas existentes no mundo. Esses discursos questionam a premissa universalista, considerando que a tentativa de universalização dos direitos, de maneira a priori, é incompatível com os demais modos de vida cultural não-ocidentais e não capitalistas. Em contrapartida, os universalistas defendem que o pluralismo cultural não pode servir para encobrir violações aos direitos humanos.

Para Pottumati (2014), a defesa ao multiculturalismo seria uma pré-condição para uma relação equilibrada, que além de reforçar a ligação entre a legitimidade local e a competência global, igualmente representaria uma política contra hegemônica de direitos humanos. O universalismo busca abarcar os localismos culturais e proteger o direito à diferença, inclusive o respeito aos direitos humanos, quando há uma tentativa de imposição culturalista no que concerne à escolha de religião ou crença. E, ainda, podemos igualmente considerar não ser, o universalismo, uma tentativa de imperialismo cultural, mas, pelo contrário, a tentativa de impedir possíveis imperialismos culturais.

É importante considerar que este diálogo entre universalistas e relativistas não deva ocorrer apenas no meio acadêmico, mas, também no seio de estruturas políticas, econômicas e socioculturais.

– Os Trabalhos Maçônicos são espaços de debate e criação de valor pela Arte de acolher o multiculturalismo como condição do universalismo humano, pelo que – independentemente de vínculos culturais, religiosos ou políticos – os valores que objetivam a proteção da dignidade humana, são a fraternidade. Assim, apesar das características individuais, ideias ou peculiaridades dos maçons, os mesmos desenvolvem os seus trabalhos sempre com a exigência humanista permanente e igualmente compartilhada por todos os elementos que compõem tal Ordem, com base nos valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Este humanismo é alcançável pela tolerância, que é uma das grandes virtudes da Ordem, melhor dizendo, pela tolerância ativa, que implica aceitar a diversidade do outro para que ele aceite a nossa própria sensibilidade, e também criar plataformas de entendimento, através de valores éticos comuns, herança irrenunciável da Maçonaria universal (MARTINS, 2022).

– Existem traços que permitem considerar que a Maçonaria alberga três grandes correntes de pensamento: corrente espiritualista, social e esotérica. Na primeira corrente, assume-se que o sagrado é consubstancial da humanidade, o qual se busca o “homem primordial”, que mediante a tradição maçônica, tenta que cada maçom seja mediador da sua própria projeção para o universal e pureza original. A corrente social dá ênfase à atividade humana, em que tais elementos participam nesta família de pensamento e procuram participar em todas as atividades da vida social e política – privilegiando a espiritualidade ao invés do materialismo. Por fim, a última corrente privilegia a busca de “poderes” psicológicos e paralógicos através de ritos e iniciações específicas, valores, conhecimentos e práticas esotéricas (BANNEL, 2006; EYER, 2016).

Na realidade a Maçonaria é portadora de um conceito do mundo, baseado num sistema de representação e organização potencialmente universal. Pois “o mundo moderno não se limita a um país, uma república, uma monarquia específica, mas tende para a construção de um templo universal, horizonte inalcançável, mas sempre presente na mente dos utópicos que somos” (BANNEL, 2006).

Essencialmente, a sua orientação foca e analisa novos desafios da modernidade, para trabalhar na evolução das mentes e dos comportamentos, tanto individuais como sociais, e propor valores e ideais sem conotações ou manipulações históricas ou ideológicas. Quanto aos valores propostos pela mesma, o primeiro corresponde à liberdade de pensamento, ou seja, aquela que deve resistir a todas as forças que moldam a sociedade. Assim “a Verdade” e a “Luz” que buscam os maçons são uma forma de assumir a liberdade universal, sempre que o sentido profundo integre esses valores morais que permite os seus elementos combinar a razão, a fraternidade, o livre arbítrio e o caminho pessoal. E o segundo valor proposto é a exigência moral, pois ela tende para a universalidade (MARTINS, 2022).

Considerações Finais

Uma das principais preocupações da Maçonaria deve ser a rejeição do espírito de fatalismo passivo que se manifesta nas pessoas quando as dificuldades do trabalho a realizar parecem ser maiores do que as possibilidades de enfrentá-lo com sucesso. A história do mundo mostra ao longo do seu curso como a vontade e o otimismo é a lança e o escudo invencíveis na luta para alcançar suas maiores conquistas.

Cada um dos membros das Colunas dos Templos da Ordem deve iluminar o seu espírito com a convicção de que o homem é todo-poderoso quando o objetivo para o qual tendem os seus esforços é o bem-estar de toda a humanidade.

A Maçonaria encontra justificação na sua fé de que o homem pode progredir permanentemente no seu caminho para a perfeição. A apatia conformista não deve encontrar lugar dentro da Ordem, pois tiraria toda a razão de ser.

– Segundo a teologia cristã, as três virtudes que permitem ao homem chegar a Deus são a fé, a esperança e a caridade. A Maçonaria acrescenta uma quarta virtude, a da razão, através da qual as três anteriores transformam a sua estrutura dogmática, adquirindo uma nova dimensão que torna bom o homem que as possui, não por imposição, mas por convicção.

– A Maçonaria fornece o nível e o fio de prumo com os quais é possível influenciar o homem de hoje e condicionar as gerações futuras a obterem o equilíbrio que evita as distorções causadas pela doença do poder colonizador e impositor. Seus efeitos perniciosos só podem ser neutralizados com sabedoria, força e beleza, que confiram superioridade aos valores intelectuais, regulação ao poder alcançado e qualificação ética e moral aos objetivos.

– Assim como o Homo sapiens é um ser em fuga da sua condição animal em busca do humano, o Maçom, Homo intellectus, deve fugir da inércia e da servidão voluntária, para ser o verdadeiro arquiteto e construtor dessa Maçonaria inclusiva que buscamos.

Muitas vitórias já foram conquistadas, e outras tantas virão, mas, não sem muita luta, perseverança e coragem para quebrar paradigmas. Visto que “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu” (BÍBLIA, ECLESIASTES 3:1, p. 594).

Nesse momento de mudança de época histórica da maçonaria, devemos aproveitar para implementar uma época de mudanças que sejam capazes de tornar essa nossa Ordem uma Maçonaria acolhedora, que sendo inclusiva é, portanto, digna de ser chamada de Família Universal.

Ações simples, despretensiosas, aparentemente insignificantes, são, na verdade, pontos de partida para domínios mais amplos. Elas têm a propriedade de aos poucos convencer, mudar modos de pensar e transformar. Sua ação é quase imperceptível, mas sua constância e efeito cumulativo representam uma abertura para que as pessoas, mesmo lentamente, se acostumem, resistam menos, tornem-se menos conservadoras e mais inclusivistas, com braços e corações abertos para acolher e serem, também, acolhidos.

– Acreditamos, enfim, que numa Maçonaria que se prenda universal, perde em importância saber quantos landmarks, se 3, 25 ou 54 a serem adotados como cláusulas pétreas nas constituições maçônicas da atualidade e futuras. Mas, relevante e imprescindível é que Grande Lojas e Grande Orientes façam alterações em suas Constituições e Regulamentos Gerais, retirando desses documentos todas as cláusulas exclusivistas.

– Para os não iniciados em seus mistérios, importante é que como Ordem Iniciática, a maçonaria pode e deve manter segredo sobre suas cerimônias litúrgicas e rituais, bem como os modos de comunicação de graus e doutrinas, e sem perder sua essência, abrir suas portas para pessoas civilmente emancipas, honestas, de bons costumes, sem distinção de gênero ou preferência sexual. Veja-se o exemplo do Grande Oriente da Bélgica (GOB) já citado.

– Não faz nenhum sentido essa divisão, criada, de Maçonaria Regular e Maçonaria Irregular. Tão pouco que uma determinada Grande Loja dite regras de regularidade para outras Grande Lojas ou Grande Orientes de todas partes do mundo.

– Documentos tais como as Old Charges, Constituição de Anderson etc. podem e até devem ser citados nas novas Constituições, mas apenas como documentos históricos.

– Para que se tenha uma maçonaria atrativa, proativa, inclusivista, que provoque desejos de participação, evitando-se que as pessoas digam que essa é uma instituição que cheira a naftalina, deve-se implementar os conceitos da Maçonaria Executiva, ainda em estudos e debates. Haverá um momento que coexistirão maçons especulativos e maçons executivos – se é que não já esteja acontecendo –, e que aos poucos e sempre afinados com as aspirações dos seus membros, em particular, e com a sociedade em geral, os maçons executivos, por serem dinâmicos substituirão, por completo a forma de se fazer maçonaria, passando da contemplação, que leva à estagnação, à ação aglutinativa que induz à inclusão. Entretanto, não basta mudar o nome e permanecer com as mesmas atitudes e modos de pensar e agir, é necessária a mudança nas atitudes, caso contrário estaremos trocando seis por meia dúzia.

Concluímos com a frase de Luiz Carlos Silva (2022) na qual ele diz “É quase um lugar comum, dizer que de pequenas ações podem surgir grandes mudanças. Tem sido assim ao longa da história dos humanos e suas comunidades e não há que duvidar que assim será em relação à Maçonaria inclusiva que buscamos. É só perseverar”.

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[1] O autor é maçom regular, cadastro nº 5050, membro emérito da ARLS “Regeneração Campinense, nº 02”, Oriente de Campina Grande, Estado da Paraíba, jurisdicionada à Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba; Mestre Maçom Instalado, Grau 33º do R.E.A.A.; Past Venerável Mestre da Loja de Estudos e Pesquisas Maçônicas “Renascença nº 1, Oriente de Campina Grande, PB. e-mail: lcsilva304@gmail.com

FUMAÇA E NÉVOA: REFLEXÕES SOBRE ÉTICA, VERDADE E INCLUSÃO NA MAÇONARIA

 

FUMAÇA E NÉVOA: REFLEXÕES SOBRE ÉTICA, VERDADE E INCLUSÃO NA MAÇONARIA

Luiz Carlos Silva

Delegado Litúrgico da ILPB-1


RESUMO: Este artigo propõe uma análise crítica dos fundamentos éticos e inclusivos da Maçonaria, confrontando seus princípios universais com situações concretas que revelam tensões entre o discurso ritualístico e a prática cotidiana. A partir de relatos envolvendo condutas pessoais de um membro da Ordem, discute-se o papel da ética iniciática, o simbolismo da maturidade espiritual e a ausência de dispositivos excludentes quanto à orientação sexual nos códigos maçônicos. O estudo também incorpora o entendimento jurídico vigente no Brasil, que reconhece a discriminação por orientação sexual como crime, conforme decisões do Supremo Tribunal Federal. A metáfora da “fumaça e névoa” é utilizada como recurso hermenêutico para ilustrar o desafio de discernir entre aparência e essência, reafirmando o compromisso maçônico com a verdade, a justiça e a fraternidade como pilares de uma vivência iniciática autêntica.

Palavras-chave: Maçonaria. Ética iniciática. Inclusão. Orientação sexual. Direitos humanos.

 

1 INTRODUÇÃO

A Maçonaria, enquanto escola de consciência, não se limita à transmissão de símbolos e rituais: ela propõe uma jornada de transformação interior. Cada grau conferido ao iniciado representa não um mérito cerimonial, mas uma convocação à responsabilidade moral. Como Delegado Litúrgico da ILPB-1, reconheço que minha função ultrapassa os limites da ritualística formal. Ela exige coerência entre os Estatutos da Ordem e a conduta dos seus membros, dentro e fora do Templo. A ética que professamos não se sustenta apenas no conhecimento dos Landmarks, ela exige encarnação dos seus princípios. Não basta repetir os rituais: é necessário viver seus ensinamentos com autenticidade e coragem.

2 CONDUTA, APARÊNCIA E ESSÊNCIA

Recentemente, chegaram ao meu conhecimento relatos envolvendo um Irmão de idade avançada, cuja conduta íntima com jovens adultos do mesmo sexo, embora legalmente admissível na esfera profana, suscita inquietações no plano iniciático. A idade, na Maçonaria, é símbolo de sabedoria e maturidade espiritual. Espera-se que o Irmão mais velho seja referência ética, não fonte de desconforto. Quando a conduta se distancia dos valores que sustentam nossa Sublime Instituição, respeito, equilíbrio, elevação moral, não é apenas o indivíduo que se fragiliza: é o Templo simbólico que se abala.

Segundo relatos informais, esse mesmo Irmão oculta sua verdadeira orientação sexual, apresentando-se como heterossexual enquanto vive outra realidade. O silêncio, nesse caso, é escudo contra o preconceito. Ao revisitar os códigos legais da Maçonaria, constatei que não há qualquer cláusula que trate da orientação sexual dos irmãos. Essa ausência não é negligência, é uma afirmação silenciosa de que, para a Ordem, o que importa é o caráter, a conduta e o compromisso com os valores universais de liberdade, igualdade e fraternidade.

3 A INCLUSÃO COMO PRINCÍPIO MAÇÔNICO

A Maçonaria, em sua essência, é inclusiva. Seus ensinamentos são voltados ao espírito humano, à construção de um caráter elevado, à busca pela luz. A orientação sexual de um Irmão não deve ser motivo de constrangimento ou exclusão, mas sim de respeito e acolhimento. Cabe às lojas revisitarem seus valores, abrirem espaço para o diálogo e cultivarem ambientes iniciáticos verdadeiramente fraternos. O iniciado não se guia pelo que parece, mas pelo que é.

A Fraternidade não pode servir de escudo para comportamentos questionáveis, tampouco de barreira para identidades legítimas. Ela é espelho que exige transparência. Quando a convivência se torna condicionada à omissão, o ambiente deixa de ser iniciático e passa a ser tóxico. E isso não decorre da doutrina maçônica, mas da cultura que alguns maçons e lojas perpetuam, muitas vezes em nome de uma tradição que exclui mais do que ensina.

4 A LEI CIVIL E A PROTEÇÃO À DIVERSIDADE

No Brasil, a discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero é reconhecida como crime. Em decisão histórica de junho de 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgar a Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO 26) e o Mandado de Injunção (MI 4733), determinou que atos de homofobia e transfobia devem ser enquadrados como crimes de racismo, conforme os incisos XLI e XLII do artigo 5º da Constituição Federal (BRASIL, 1988). Em agosto de 2023, o STF ampliou essa proteção ao reconhecer que tais atos também podem configurar injúria racial, reforçando o entendimento de que ofensas individuais contra pessoas LGBTQIAPN+ devem ser tratadas com o mesmo rigor que ofensas raciais (STF, 2023).

Esse reconhecimento jurídico reforça o que a Maçonaria já deveria praticar por princípio: o respeito à dignidade humana em todas as suas expressões. A ausência de dispositivos excludentes nos códigos maçônicos não é omissão, é sinal de maturidade institucional. A Ordem não legisla sobre afetos, mas sobre virtudes.

5 FUMAÇA E NÉVOA: A METÁFORA DO DISCERNIMENTO

As situações descritas, embora distintas em aparência, revelam uma tensão comum: o conflito entre aparência e essência. Há um adágio profano que afirma: “Onde há fumaça, há fogo”. Contudo, nem toda fumaça vem do fogo. Às vezes, o que parece fumaça é apenas névoa, e a névoa não queima, não denuncia, não destrói. Ela apenas encobre. A fumaça sobe, agita, alerta. A névoa desce, silencia, confunde. Ambas obscurecem, mas por razões distintas. A primeira é efeito de algo que arde. A segunda é condição natural, não consequência, mas mistério.

Quantas vezes confundimos o que vemos com o que é? Quantas vezes condenamos o que não compreendemos? Quantas vezes esquecemos que o verdadeiro fogo é aquele que arde no coração do homem justo?

Por isso, afirmo com serenidade: vou averiguar com bastante cuidado para discernir se se trata de névoa ou fogo. Porque a verdade há de prevalecer. Essa postura honra o Grau que carrego. O verdadeiro maçom não se precipita, ele observa, pondera, escuta e age com justiça. Averiguar com cuidado é mais do que prudência: é fidelidade à Luz que buscamos.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Maçonaria, quando vivida em sua plenitude, é uma jornada de luz. E a luz, por definição, não exclui, ela revela. Que esta reflexão nos sirva como espelho. Que cada Irmão, ao vestir o avental, se pergunte: minha conduta honra o que professo? Minha vida fora da Loja está à altura da Luz que busco dentro dela?

A ética maçônica não se limita ao Templo, ela se estende à vida profana. E a inclusão, longe de ser concessão, é expressão da verdadeira fraternidade.

 

REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 1988.

STF – Supremo Tribunal Federal. STF determina que atos de homofobia e transfobia sejam punidos como injúria racial. Disponível em: https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=512663&ori=1 Acesso em: 10 out. 2025.

G1. Supremo determina que atos de homofobia e transfobia sejam punidos como injúria racial. Jornal Nacional, 22 ago. 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2023/08/22/supremo-determina-que-atos-de-homofobia-e-transfobia-sejam-punidos-como-injuria-racial.ghtml Acesso em: 10 out. 2025.

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