A Maçonaria Na Paraíba e No Nordeste: Origens, Princípios e Contribuições Históricas
LuCaS
RESUMO:
Este
artigo propõe uma abordagem histórico-institucional da Maçonaria no Nordeste
brasileiro, com foco na atuação da Maçonaria paraibana desde o período colonial
até sua consolidação como potência filosófica e simbólica. A partir de fontes
documentais e registros de autores como Zenaide e Elisiário, examina-se a
gênese das sociedades secretas no Areópago de Itambé, a fundação das primeiras
lojas regulares na Paraíba, o processo de ruptura entre o Supremo Conselho do
Grau 33º e o Grande Oriente do Brasil, e a consequente criação da Grande Loja
Maçônica do Estado da Paraíba. O estudo evidencia o protagonismo da Maçonaria
regional nos movimentos de emancipação política, na formação de lideranças
republicanas e na difusão dos valores do Rito Escocês Antigo e Aceito,
reafirmando seu papel na construção de uma sociedade democrática e fraterna.
Palavras-chave:
Maçonaria; Paraíba; Areópago de Itambé; Rito Escocês; Grandes Lojas; História
institucional.
1
INTRODUÇÃO
A
Maçonaria é uma instituição iniciática, filosófica e filantrópica que tem como
propósito o aperfeiçoamento moral, intelectual e espiritual do ser humano.
Fundamentada em princípios universais como liberdade, igualdade e fraternidade,
atua como uma escola de virtudes, cultivando a fraternidade universal sob a
égide do Grande Arquiteto do Universo. Embora não se configure como organização
política ou religiosa, sua influência histórica é notável nos processos de
transformação cultural, política e institucional das sociedades em que se
insere.
Esses
princípios (liberdade, igualdade e fraternidade) refletem os ideais iluministas
que influenciaram revoluções como a Francesa (1789) e a Americana (1776). A
Maçonaria contribuiu historicamente para a consolidação da democracia, da
cidadania e dos direitos fundamentais, promovendo o desenvolvimento ético e o
compromisso com a justiça social.
No
Brasil, sua presença remonta ao período colonial, ainda que de forma velada, em
razão das restrições impostas pela Coroa portuguesa. Com a chegada das ideias
iluministas e o avanço dos movimentos de emancipação política, a Maçonaria
passou a desempenhar papel ativo na articulação de lideranças, na difusão dos
ideais republicanos e na defesa da soberania nacional. Segundo Zenaide (2000),
a Maçonaria brasileira consolidou-se como força atuante em diversos campos da
vida social, contribuindo para a formação de instituições democráticas e para a
promoção dos direitos humanos.
Este
artigo propõe uma análise histórico-institucional da Maçonaria no Nordeste
brasileiro, com ênfase na atuação da Maçonaria paraibana. A partir de fontes
documentais e registros de autores como Zenaide e Elisiário, examina-se a
gênese das sociedades secretas no Areópago de Itambé, a fundação das primeiras
lojas regulares na Paraíba, o processo de ruptura entre o Supremo Conselho do
Grau 33º e o Grande Oriente do Brasil, e a consequente criação da Grande Loja
Maçônica do Estado da Paraíba. Ao resgatar essa trajetória, busca-se evidenciar
a relevância histórica, filosófica e institucional da Maçonaria regional como
protagonista na construção de uma sociedade mais justa, democrática e fraterna.
2
ORIGENS NO NORDESTE
As
primeiras manifestações maçônicas no Nordeste brasileiro remontam ao final do
século XVIII, em um contexto de efervescência intelectual e política marcado
pela disseminação das ideias iluministas e pela insatisfação com o domínio
colonial português. O marco inaugural dessa presença é o Areópago de Itambé,
fundado por Manoel Arruda Câmara, natural da então Vila de Pombal, atual cidade
de Pombal, na Paraíba.
O
Areópago de Itambé, sediado no distrito homônimo pertencente à cidade de
Goiana, em Pernambuco, funcionava como uma sociedade secreta de caráter
filosófico e político, reunindo intelectuais, religiosos, militares e
comerciantes. Segundo Zenaide (2000), esse espaço era dedicado à discussão dos
ideais de independência, república e liberdade civil, inspirados nas
Declarações de Direitos da Revolução Francesa (1789) e da Independência
Americana (1776). Oliveira Lima, citado por Zenaide, considera o Areópago como
a primeira loja maçônica do Nordeste, embora não tenha sido formalmente
reconhecida como tal pelas potências maçônicas da época.
Manoel
Arruda Câmara, formado em medicina e filosofia pela Universidade de
Montpellier, na França, foi o principal articulador do Areópago. Sua formação
europeia e seu contato direto com os círculos iluministas conferiram ao
movimento um caráter avançado e profundamente influenciado pelos princípios da
razão, da ciência e da liberdade. Sua atuação no Areópago foi marcada pela
defesa da liberdade de consciência, da soberania popular e da reforma agrária,
temas considerados subversivos à época. Como destaca Ferreira Pinto (1977;
1978), o Areópago funcionava como um centro de irradiação das ideias
revolucionárias, tendo contribuído diretamente para a eclosão da Revolução
Pernambucana de 1817.
A
participação de maçons e intelectuais paraibanos no Areópago de Itambé é um dos
aspectos mais relevantes da gênese da Maçonaria no Nordeste brasileiro. Segundo
Irineu Ferreira Pinto (1978), diversos paraibanos integraram esse círculo,
contribuindo diretamente para a difusão das ideias de emancipação e reforma
institucional. Entre os nomes mais destacados está o padre Antônio Pereira de
Albuquerque, natural da cidade de Pilar, que teve atuação decisiva nas
articulações do Areópago. Sua militância política e filosófica resultou em sua
condenação à morte pelas autoridades coloniais, evidenciando o grau de
comprometimento e risco assumido pelos participantes do movimento. Outro nome
relevante é o padre Antônio Félix Velho Cardoso, também ligado à cidade de Pilar,
cuja atuação intelectual reforça a presença paraibana nas discussões que
antecederam a Revolução Pernambucana de 1817.
A
presença de paraibanos no Areópago não se deu apenas em termos individuais, mas
também institucionais. Cidades como Itabaiana, Pilar e Pombal tornaram-se polos
de resistência intelectual e política, abrigando núcleos de discussão e
articulação que influenciaram diretamente os movimentos de independência e de
formação republicana. Como observa Zenaide (2000), a atuação desses maçons e
pensadores paraibanos antecipou a fundação das primeiras lojas regulares no
estado, consolidando uma tradição maçônica comprometida com a transformação
social e com os valores do Rito Escocês Antigo e Aceito.
Embora
o Areópago tenha sido dissolvido em 1801, após denúncias de conspiração contra
o governo colonial, sua influência perdurou nas décadas seguintes, servindo de
base para a fundação das primeiras lojas maçônicas regulares no Nordeste. Sua
estrutura, ainda que informal, antecipava os princípios organizacionais da
Maçonaria moderna, como a valorização do debate filosófico, a prática da
iniciação simbólica e o compromisso com a transformação social.
A
memória do Areópago de Itambé permanece como símbolo da gênese da Maçonaria
nordestina, representando o elo entre o pensamento iluminista europeu e a luta
pela emancipação política brasileira. Sua existência confirma que a Maçonaria
no Brasil não foi apenas receptora de influências externas, mas também
produtora de pensamento crítico e agente ativo nos processos históricos que
culminaram na independência e na formação da república.
3
AS PRIMEIRAS LOJAS NA PARAÍBA
A
história da Maçonaria na Paraíba começa com a fundação da Loja Maçônica
Pelicano, em 1822, na cidade de João Pessoa. Embora seja reconhecida como a
primeira loja maçônica do estado, não há registros precisos sobre sua estrutura
organizacional, membros fundadores ou atividades desenvolvidas. Sua criação
coincide com o ano da Independência do Brasil, o que sugere que ela pode ter
desempenhado papel simbólico ou articulador nos debates sobre soberania
nacional e reforma política.
A
segunda loja a surgir foi a Regeneração Brasílica, fundada em 1865,
também em João Pessoa. Segundo Zenaide, esta loja é considerada a primeira
efetivamente instalada e documentada na Paraíba. Sua atuação se deu em um
contexto de efervescência política, marcado pela ascensão das ideias
republicanas e pela intensificação da campanha abolicionista. A Regeneração
Brasílica tornou-se referência na articulação de lideranças locais e na
promoção de valores iluministas e humanistas.
No
mesmo ano, foi fundada a Loja União e Beneficência, na cidade de
Mamanguape. Esta loja ampliou a presença maçônica para o interior do estado,
contribuindo para a disseminação dos ideais maçônicos entre comerciantes,
profissionais liberais e líderes comunitários. Sua atuação reforça o caráter
descentralizado da Maçonaria paraibana, que não se restringia à capital.
Em
1873, surgiu em Campina Grande a Loja Segredo e Lealdade, considerada um
marco na expansão maçônica para o agreste paraibano. Esta loja teve papel
relevante nos movimentos pela abolição da escravatura e pela Proclamação da
República, além de protagonizar os primeiros conflitos entre a Maçonaria e a
Igreja Católica na região. Segundo registros históricos, foi nesta loja que se
iniciaram as tensões que culminariam na chamada Questão Religiosa, envolvendo o
bispo D. Vital de Oliveira e o padre Calixto Nóbrega.
Outras
lojas foram fundadas nas décadas seguintes, como Vigilância e Segredo
(1875), Renascença (1875), Constância e Lealdade (1877) e Lealdade
e Perseverança (1882), todas em João Pessoa ou Campina Grande. Essas lojas
estiveram engajadas em causas sociais e políticas, como a assistência aos
retirantes da seca, a fundação de escolas e bibliotecas, e a defesa da
laicidade do Estado.
Segundo
Botelho (2025), a tradição maçônica na Paraíba está ligada à atuação de figuras
como Manoel Arruda Câmara, que já no século XVIII articulava redes de
pensamento libertário entre Pernambuco e a então Vila de Pedras de Fogo,
próxima ao Distrito de Itambé. Essa conexão histórica reforça a ideia de que a
Maçonaria paraibana não apenas recebeu influências externas, mas também
produziu pensamento político original e atuante.
4
A GRANDE LOJA MAÇÔNICA DA PARAÍBA
A
fundação da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba, em 24 de agosto de 1927,
representa um marco institucional na história da Maçonaria brasileira. O evento
foi resultado de um movimento de cisão de três lojas paraibanas, Branca Dias,
Regeneração Campinense e Padre Azevedo, que decidiram desvincular-se do Grande
Oriente do Brasil (GOB), criando uma nova potência maçônica: a Grande Loja
Simbólica Escocesa Soberana para o Estado da Paraíba, posteriormente renomeada
como Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba em 1934 (ZENAIDE, 2000.).
Segundo
Zenaide, a criação da Grande Loja da Paraíba ocorreu em consonância com o
movimento nacional liderado pelo Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho
do Grau 33º, Irmão Mário Behring, que propunha a descentralização da Maçonaria
brasileira e a autonomia das lojas simbólicas em cada estado. A Paraíba
integrou o grupo das seis primeiras Grandes Lojas Estaduais criadas no Brasil,
ao lado das do Amazonas, Pará, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo.
A
solenidade de fundação foi realizada no templo da Loja Branca Dias, sob a
presidência do Irmão Augusto Simões. Na ocasião, foram eleitos por aclamação o
Irmão Manoel Velloso Borges como Grão-Mestre e o Irmão João Arlindo Correia
como Grão-Mestre Adjunto. A primeira diretoria foi composta por maçons de
reconhecida atuação, oriundos das três lojas fundadoras, e teve como missão
consolidar a nova estrutura institucional e garantir a regularidade dos
trabalhos maçônicos no estado.
A
decisão de romper com o GOB foi motivada por divergências doutrinárias e
administrativas, especialmente no que diz respeito à observância dos princípios
do Rito Escocês Antigo e Aceito. Conforme registrado no Boletim Informativo do
Jubileu de Brilhante da Grande Loja Maçônica da Paraíba (2002), a Loja
Regeneração Campinense, liderada por João Arlindo Correia, declarou reconhecer
como única potência legítima o Supremo Conselho do Grau 33º, retirando sua
solidariedade ao GOB, o que culminou na suspensão da loja pelo Decreto nº 867,
de 4 de agosto de 1927.
A
estrutura da Grande Loja foi organizada com base nos três poderes maçônicos, (Executivo,
Legislativo e Judiciário), e passou a administrar os três graus simbólicos do
Rito Escocês com plena soberania. A nova potência também estabeleceu vínculos
diretos com o Supremo Conselho, que passou a fornecer as Cartas Constitutivas e
os rituais oficiais, garantindo o reconhecimento internacional da Maçonaria
paraibana.
A
Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba consolidou-se como referência
nacional, promovendo a formação de lideranças, a difusão dos valores
republicanos e a atuação social em áreas como educação, assistência e cultura.
Seu surgimento representa não apenas uma resposta à crise institucional da
Maçonaria brasileira, mas também uma afirmação da autonomia ritualística e
filosófica das lojas paraibanas.
5
INSPETORIA LITÚRGICA DA PARAÍBA
A
Inspetoria Litúrgica do Estado da Paraíba constitui um dos pilares da estrutura
filosófica do Rito Escocês Antigo e Aceito, sendo responsável pela coordenação
dos Corpos Subordinados ao Supremo Conselho em nível estadual. Sua função é
garantir a regularidade ritualística, a formação doutrinária e a supervisão
administrativa dos graus superiores da Maçonaria, do 4º ao 33º.
A
primeira Inspetoria Litúrgica foi instalada na cidade de Campina Grande, tendo
como sede o templo da Loja Maçônica Regeneração Campinense. À época, sua
jurisdição abrangia todo o território paraibano, refletindo a centralidade de
Campina Grande no cenário maçônico regional. Segundo Elisiário, essa instalação
ocorreu em um contexto de reorganização nacional do Rito Escocês, após o
rompimento entre o Supremo Conselho e o Grande Oriente do Brasil.
Em
1926, o Supremo Conselho, sob a liderança do Soberano Grande Comendador Mário
Behring, nomeou o Irmão José Eugênio Lins de Albuquerque como o primeiro
Inspetor Litúrgico da Paraíba. Essa nomeação marcou o início da atuação
litúrgica regular no estado, alinhada à nova estrutura filosófica independente
do Grande Oriente. José Eugênio passou a coordenar os trabalhos dos Corpos
Filosóficos, promovendo a expansão do Rito Escocês e a formação de novos
iniciados nos graus superiores.
Com
o crescimento da Maçonaria filosófica na Paraíba e a fundação de novos Corpos
Subordinados, tornou-se necessário reorganizar a jurisdição da Inspetoria. Sob
a liderança do Irmão Ailton Elisiário de Sousa, a Inspetoria passou a abranger
a 1ª Região, delimitando sua atuação geográfica e fortalecendo sua capacidade
de supervisão. Ailton Elisiário, como Soberano Grande Inspetor Litúrgico,
promoveu a criação de novas Inspetorias regionais, descentralizando a
administração e ampliando o alcance do Supremo Conselho no estado.
Segundo
registros do Boletim Informativo do Jubileu de Brilhante da Grande Loja
Maçônica da Paraíba (2002), a Inspetoria Litúrgica teve papel decisivo na
articulação entre os Corpos Filosóficos e a Grande Loja, especialmente no
período de transição institucional após 1927. A Loja Regeneração Campinense,
por exemplo, editou decreto reconhecendo exclusivamente o Supremo Conselho como
potência legítima do Rito Escocês, o que reforçou a autoridade da Inspetoria
Litúrgica sobre os trabalhos filosóficos no estado.
Diversos
maçons paraibanos exerceram a função de Inspetor Litúrgico ao longo das
décadas, entre eles Augusto Simões, João Arlindo Correia, João Tavares de Melo
Cavalcanti, Pedro d’Aragão e o próprio Ailton Elisiário. Com a delimitação da
1ª Região, outros nomes assumiram a função, como Adeguimar Bezerra Barros,
Nilson Nogueira de Melo, Rosseni Leopoldino de Oliveira, Edésio Guedes da Rocha
e João de Azevedo Freire. Atualmente, o cargo é exercido pelo Poderoso Irmão
José Soares de Oliveira (ELISIÁRIO, s.d.).
A
Inspetoria Litúrgica da Paraíba representa, portanto, um elo fundamental entre
a tradição iniciática do Rito Escocês e a prática maçônica cotidiana. Sua
atuação assegura a fidelidade aos princípios filosóficos, a formação ética dos
iniciados e a preservação da identidade ritualística da Maçonaria escocesa no
estado.
5.1
CORPOS SUBORDINADOS
5.1.1
LOJA DE PERFEIÇÃO “PAZ E AMOR”
A
Loja de Perfeição “Paz e Amor” representa um marco na continuidade e
fortalecimento dos trabalhos filosóficos do Rito Escocês Antigo e Aceito na
Paraíba. Fundada em 11 de abril de 1972, ela sucedeu a Loja de Perfeição
“Gasparino Barreto”, que até então funcionava agregada ao Capítulo Rosa Cruz
“Cavaleiros do Nordeste”. A substituição ocorreu no contexto de uma
reestruturação dos Corpos Filosóficos vinculados ao Supremo Conselho, com o
objetivo de garantir maior regularidade, autonomia e dinamismo às atividades
litúrgicas.
A
fundação da Loja “Paz e Amor” foi liderada por um grupo de 14 irmãos
comprometidos com a preservação da tradição escocesa e com a revitalização dos
graus filosóficos na região. Entre os fundadores destacam-se Rubem Pires, que
assumiu a presidência inaugural, e Luiz Gonzaga de Vasconcelos, que o sucedeu
na gestão seguinte. Ambos foram fundamentais para a consolidação da nova loja,
imprimindo-lhe um caráter disciplinado, fraterno e fiel aos princípios do Rito
Escocês.
A
primeira diretoria da Loja foi composta por irmãos experientes e atuantes na
Maçonaria paraibana, como Antônio Rafael de Medeiros (1º Vigilante), Hermano
Regis Navarro (2º Vigilante), João Alfredo Filho (Orador), Romildo Dias de
Toledo (Guarda do Selo) e Demétrio Demerval Trigueiro do Vale (Mestre de
Cerimônias), entre outros. A composição da diretoria revela o compromisso com a
excelência ritualística e a continuidade da formação filosófica dos maçons da
região.
Ao
longo das décadas, a Loja “Paz e Amor” foi presidida por diversos irmãos que
deram continuidade à sua missão iniciática. Entre eles, destacam-se nomes como
Honório Rozendo Bezerra, Ailton Elisiário de Sousa, Leônidas Amaro de Lima,
Guilherme Cavalcante Cruz, Raimundo Lucena de Sá, João Clementino Filho, Valmir
Xavier Silva, José Laurindo de Sousa, Renato Barros Silva, Pedro Vicente de
Paiva, José Soares de Oliveira, Francisco Assis de Almeida, Benedito Pereira de
Vasconcelos, José da Guia Dantas, Mário de Freitas, Hermes Alves de Almeida e
Eduardo Alves Pereira.
A
longevidade e a regularidade da Loja “Paz e Amor” evidenciam sua importância
como espaço de aprofundamento filosófico, de elevação espiritual e de formação
de lideranças comprometidas com os ideais maçônicos. Sua atuação contribuiu
para a consolidação da estrutura dos Corpos Filosóficos na Paraíba,
fortalecendo o elo entre os graus simbólicos e os altos graus do Rito Escocês
Antigo e Aceito.
Como
observa Elisiário, a fundação da Loja “Paz e Amor” não apenas preservou a
continuidade dos trabalhos iniciados pela Loja “Gasparino Barreto”, mas também
inaugurou uma nova fase de expansão e institucionalização da Maçonaria
filosófica no estado. Sua história é, portanto, inseparável da trajetória do
Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste” e do Conselho de Kadosh “Arautos da
Luz”, com os quais compartilha valores, membros e objetivos iniciáticos.
5.1.2
CAPÍTULO ROSA CRUZ “CAVALEIROS DO NORDESTE”
O
Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste” representa um marco na consolidação
dos Corpos Filosóficos do Rito Escocês Antigo e Aceito na Paraíba. Fundado em
18 de maio de 1927, na cidade de Campina Grande, foi o primeiro Capítulo Rosa
Cruz instituído no estado, tornando-se referência na administração dos graus
filosóficos intermediários, especialmente do 15º ao 18º grau. Sua criação está
diretamente vinculada ao movimento de reorganização da Maçonaria brasileira
após o rompimento entre o Supremo Conselho e o Grande Oriente do Brasil.
Segundo
Elisiário, o Capítulo foi instalado oficialmente em 28 de julho de 1927, por
meio de Carta Constitutiva expedida pelo Supremo Conselho, sob a liderança do
Soberano Grande Comendador Mário Behring. A iniciativa partiu da Loja Simbólica
Regeneração Campinense, que solicitou a instalação de um Corpo Capitular em sua
jurisdição, como forma de assegurar a continuidade dos trabalhos filosóficos e
fortalecer a estrutura escocesa no estado.
A
primeira administração do Capítulo foi composta por maçons de destacada
atuação, entre eles o Dr. João Arlindo Correia (Artesata), José Faustino
Cavalcanti de Albuquerque (1º Vigilante), Dr. Severino Henrique Cruz (2º
Vigilante), Wilson Viriato de Medeiros (Orador), Sebastião Alves de Oliveira
(Chanceler) e Luiz Dália (Secretário). Esses obreiros assinaram o primeiro
Regimento Particular em 1º de setembro de 1927, estabelecendo as bases
organizacionais e rituais do Capítulo.
Após
um período de inatividade documental entre 1931 e 1958, o Capítulo foi
reorganizado por Pedro d’Aragão, que assumiu a presidência e promoveu a
reestruturação administrativa e ritualística. Em 1º de novembro de 1960, foi
eleita a nova diretoria oficial, tendo como presidente Afrânio de Aragão. Os
estatutos do Capítulo foram aprovados pelo Supremo Conselho em 1962, publicados
no Diário Oficial do Estado da Paraíba em 11 de janeiro de 1963 e registrados
no Cartório do 2º Ofício de João Pessoa em 5 de abril do mesmo ano, sob nº
13.554, Livro 7 do Registro Civil das Pessoas Jurídicas.
A
atuação do Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste” ao longo das décadas foi
marcada por iniciativas de valorização simbólica e institucional. Em 1978, por
ocasião do cinquentenário de sua fundação, o então Artesata Ailton Elisiário de
Sousa promoveu a criação de uma medalha comemorativa e a concessão de diplomas
de menção honrosa a 50 irmãos que contribuíram significativamente para a
história do Capítulo e da Maçonaria paraibana.
Entre
os presidentes que conduziram o Capítulo destacam-se nomes como Pedro d’Aragão,
Afrânio de Aragão, Juvino Pereira Nepomuceno, Fernando Philogônio do Ó, Pedro
Andrade, Ailton Elisiário de Sousa, Romildo Dias de Toledo, José Laurindo de
Sousa, Renato Barros Silva, Walber Santiago Colaço, Francisco Assis de Almeida,
José da Guia Dantas, Mário de Freitas, Hermes Alves de Almeida e Luiz Carlos
Silva.
A
longevidade e a regularidade do Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste”
evidenciam sua relevância como espaço de aprofundamento filosófico, de formação
ética e de preservação dos valores do Rito Escocês Antigo e Aceito. Sua
história está entrelaçada com a trajetória da Loja Regeneração Campinense, do
Conselho de Kadosh “Arautos da Luz” e do Consistório “Cristo Rei”, formando um
núcleo sólido de atuação maçônica filosófica na Paraíba.
5.1.3
CONSELHO DE CAVALEIROS KADOSH “ARAUTOS DA LUZ”
O
Conselho de Cavaleiros Kadosh “Arautos da Luz” é um dos corpos filosóficos mais
relevantes do Rito Escocês Antigo e Aceito na Paraíba, responsável pela
administração dos graus 19º ao 30º. Fundado em 25 de maio de 1960, na cidade de
Campina Grande, sua criação foi liderada pelo Irmão Pedro d’Aragão, figura
central na reorganização dos Corpos Filosóficos no estado após a reestruturação
do Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste”.
A
fundação do Conselho ocorreu em um momento de expansão da Maçonaria filosófica
na Paraíba, com o objetivo de consolidar a hierarquia escocesa e garantir a
continuidade dos trabalhos iniciáticos. A primeira diretoria foi composta por
irmãos de destacada atuação, entre eles Pedro d’Aragão (Presidente), Niutildes
Otacílio Vieira (Prior), Paulo Martins Costa (Preceptor), Juvino Pereira
Nepomuceno (Chanceler), Afrânio de Aragão (Secretário), Fernando Philogônio do
Ó (Grande Orador), José Cyreneu Gomes (Tesoureiro), Francisco de Assis Pereira
(Mestre de Cerimônias), Elias Fernandes (Hospitaleiro), Manuel Leite Cavalcanti
(Porta Estandarte), Waldemar de Almeida Pequeno (Capitão das Guardas) e Pedro
Andrade (Cobridor).
A
atuação do Conselho “Arautos da Luz” ao longo das décadas foi marcada pela
regularidade ritualística, pela formação ética dos iniciados e pela preservação
dos valores filosóficos do Rito Escocês. Seus sucessivos presidentes como:
Afrânio de Aragão, Pedro Andrade, José Almeida Torreão, Antônio Moreira,
Romildo Dias de Toledo, Raimundo Lucena de Sá, Benedito Dutra de Oliveira,
Francisco Eudson Pereira, José Soares de Oliveira, Luiz Carlos Silva, entre
outros, contribuíram para o fortalecimento institucional e para a expansão dos
graus superiores na região.
O
Conselho também desempenhou papel relevante na articulação com os demais Corpos
Filosóficos, como o Capítulo Rosa Cruz e o Consistório “Cristo Rei”, formando
um núcleo sólido de atuação filosófica em Campina Grande. Sua história está
entrelaçada com a trajetória da Loja Regeneração Campinense, que serviu como
base para a instalação e funcionamento dos Corpos Superiores.
DIRETORIA
ATUAL DO CONSELHO “ARAUTOS DA LUZ”
A
atual diretoria do Conselho de Cavaleiros Kadosh “Arautos da Luz” é presidida
pelo Eminentíssimo Irmão Carlos Roberto Cunha, que ocupa o cargo de Três Vezes
Poderoso Grão-Mestre. Todos os membros da diretoria são detentores do Grau 33º,
o mais elevado do Rito Escocês Antigo e Aceito, o que evidencia o nível de
excelência e comprometimento dos dirigentes.
Além
da diretoria executiva, o Conselho conta com comissões especializadas que
garantem a governança e a regularidade dos trabalhos:
- Comissão de Jurisprudência e
Legislação
- Comissão de Graus
- Comissão de Solidariedade e Finanças
A
estrutura organizacional do Conselho “Arautos da Luz” reflete o compromisso com
a excelência ritualística, a formação filosófica e a atuação ética dos seus
membros. Sua diretoria atual dá continuidade a uma tradição de mais de seis
décadas de serviço à Maçonaria escocesa na Paraíba.
5.1.4
CONSISTÓRIO “CRISTO REI”
O
Consistório de Príncipes do Real Segredo “Cristo Rei” representa o ápice da
estrutura filosófica do Rito Escocês Antigo e Aceito na Paraíba, sendo
responsável pela administração dos graus 31º e 32º. Fundado em 8 de agosto de
1971 e instalado oficialmente em 30 de março de 1972, o Consistório foi
instituído com o objetivo de completar a hierarquia escocesa no estado,
permitindo que os maçons paraibanos ascendessem aos graus mais elevados antes
do Grau 33º, conferido exclusivamente pelo Supremo Conselho.
A
fundação do Consistório foi liderada pelo Irmão Pedro d’Aragão, que já havia
desempenhado papel central na reorganização do Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros
do Nordeste” e na criação do Conselho de Kadosh “Arautos da Luz”. Sua atuação
visionária e comprometida com a regularidade ritualística foi fundamental para
a consolidação dos Corpos Filosóficos na Paraíba.
A
instalação do Consistório contou com a presença de autoridades maçônicas de
destaque, como o Irmão Alberto Mansur, Grande Secretário do Sacro Império,
representando o Soberano Grande Comendador; o Irmão Adauto Barreto da Silva
Nen, Inspetor Litúrgico de Pernambuco; e o Irmão Francisco Edward Aguiar,
Sereníssimo Grão-Mestre da Grande Loja da Paraíba. Essa solenidade reforçou o
reconhecimento institucional e a legitimidade do novo Corpo Filosófico.
A
primeira diretoria foi composta por maçons experientes e atuantes, entre eles:
- Pedro d’Aragão – Presidente
- Elias Fernandes – 1º Vigilante
- Antônio Carlos Cavalcanti Filho – 2º
Vigilante
- José Lopes da Silva – Orador
- Francisco Mariano – Secretário
- José de Almeida Torreão – Mestre de
Cerimônias
- Pedro Andrade – Hospitaleiro
- Fernando Philogônio do Ó – Tesoureiro
- Francisco Edward Aguiar – Capitão das
Guardas
- Valdemar de Almeida Pequeno – Porta
Estandarte
- Paulo Martins Costa – Cobridor
- Alexandre Teles de Andrade – membro
fundador
A
atuação do Consistório “Cristo Rei” ao longo das décadas foi marcada pela
regularidade dos trabalhos, pela formação filosófica dos iniciados e pela
preservação dos princípios do Rito Escocês. Seus presidentes como: Fernando
Philogônio do Ó, Antonio Rafael de Medeiros, Raimundo Lucena de Sá, Francisco
Eudson Pereira, Nilson Nogueira de Melo, Benedito Pereira de Vasconcelos, João
de Azevedo Freire, Edmir Xavier da Silva, João Clementino Filho, Walter Vasconcellos
e Luiz Carlos Silva, contribuíram para a continuidade e o fortalecimento
institucional do Consistório.
A
criação do Consistório “Cristo Rei” completou a estrutura dos Corpos
Filosóficos na Paraíba, permitindo que os maçons do estado percorressem toda a
jornada iniciática do Rito Escocês até o Grau 32º, em consonância com os
princípios universais da Ordem. Sua história está entrelaçada com a trajetória
da Loja Regeneração Campinense, do Capítulo Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste”
e do Conselho de Kadosh “Arautos da Luz”, formando um sistema coeso e exemplar
de atuação filosófica no Brasil.
6
LOJA “REGENERAÇÃO CAMPINENSE” Nº 2
A
Augusta e Respeitável Loja Maçônica “Regeneração Campinense” nº 2 ocupa posição
de destaque na história da Maçonaria paraibana e brasileira. Fundada em 19 de
agosto de 1923, na cidade de Campina Grande, inicialmente sob jurisdição do
Grande Oriente do Brasil, a loja rapidamente se consolidou como centro
irradiador dos ideais maçônicos republicanos, humanistas e filosóficos no
interior do estado.
Segundo
Elisiário, a loja foi regularizada em 8 de dezembro de 1924 e, em 20 de
fevereiro de 1924, instalou seu templo em prédio situado à Rua Maciel Pinheiro.
Posteriormente, transferiu-se para sede própria na Rua Vidal de Negreiros,
sagrada em 24 de junho de 1926. Essa infraestrutura passou por diversas
reformas ao longo das décadas, com destaque para as gestões de Aroldo Cruz,
Raimundo Gadelha Fontes e Ailton Elisiário de Sousa, que modernizaram e
ampliaram o espaço físico da loja.
A
Regeneração Campinense foi protagonista na fundação da Grande Loja Maçônica do
Estado da Paraíba, em 24 de agosto de 1927, ao lado das lojas Branca Dias e
Padre Azevedo. A decisão de romper com o Grande Oriente do Brasil e vincular-se
diretamente ao Supremo Conselho do Grau 33º do Rito Escocês Antigo e Aceito foi
motivada por divergências doutrinárias e pela busca de autonomia ritualística.
O movimento foi liderado por João Arlindo Correia, então Venerável Mestre da
loja, que se tornaria o primeiro Grão-Mestre da nova potência estadual
(ZENAIDE, 2000).
A
loja recebeu o título de Benemérita em 24 de agosto de 1933 e o de Benfeitora
em 20 de novembro de 1938, conferidos pela própria Grande Loja da Paraíba em
reconhecimento à sua atuação exemplar. Em 1994, foi declarada de utilidade
pública pela Lei Estadual nº 5.859, sancionada pelo então governador Cícero de
Lucena Filho, adotando o título distintivo de Augusta e Respeitável Loja
Simbólica, Benemérita e Benfeitora Regeneração Campinense Nº 2, consolidando
seu papel como instituição comprometida com o desenvolvimento social,
educacional e cultural da cidade de Campina Grande.
Seus
irmãos fundadores, entre os quais se destacam: Alfredo Carneiro da Cunha,
Gasparino Barreto, Luiz Dália, Luiz Lyra, Manoel Feliciano do Nascimento,
Juvino de Souza do Ó e Venâncio dos Santos — representam uma geração de maçons
que contribuíram decisivamente para a construção de uma sociedade mais justa e
fraterna. A atuação da loja ao longo de um século inclui a promoção de ações
filantrópicas, a formação de lideranças políticas e intelectuais, e a defesa
dos valores republicanos e democráticos.
Como
enfatizou o Irmão Argemiro de Figueiredo, em discurso no Senado Federal por
ocasião do centenário de emancipação política de Campina Grande:
“Campinense,
para nós, e, às vezes mais campinenses, são os que lutam pelo progresso da
terra; os que servem ao seu desenvolvimento; os que se ajustam aos seus
sentimentos e aspirações; os que se devotam à tarefa do seu engrandecimento. O
povo é bom, ordeiro, laborioso, criador de riquezas.”
A
Loja Regeneração Campinense permanece, até hoje, como símbolo de tradição,
renovação e excelência maçônica, sendo reconhecida nacionalmente como modelo de
atuação ritualística, filosófica e social.
7
A CISÃO ENTRE O SUPREMO CONSELHO E O GRANDE ORIENTE DO BRASIL: DO ACORDO
À RUPTURA
A
separação entre o Supremo Conselho do Grau 33º do Rito Escocês Antigo e Aceito
e o Grande Oriente do Brasil (GOB), oficializada em 20 de junho de 1927, foi o
desfecho de um processo histórico complexo, marcado por tensões institucionais,
disputas de jurisdição e pressões internacionais. Longe de ser um rompimento
abrupto, a cisão foi precedida por décadas de convivência conflituosa entre os
dois corpos, que compartilhavam a administração dos graus simbólicos e
filosóficos da Maçonaria brasileira.
7.1
A ESTRUTURA CONFEDERADA E O ACORDO DE 1926
Desde
1864, o GOB e o Supremo Conselho mantinham uma relação de confederação, na qual
o Grão-Mestre Geral do GOB acumulava, por tradição, o cargo de Soberano Grande
Comendador do Supremo Conselho. Essa sobreposição de funções contrariava os
princípios das Grandes Constituições de 1762 e 1786, que regem o Rito Escocês
Antigo e Aceito, comprometendo a autonomia dos Corpos Filosóficos e gerando
tensões internas.
A
crise institucional se agravou em 1922, durante a Convenção Internacional dos
Supremos Conselhos do REAA, realizada em Lausanne, Suíça. Na ocasião, o Supremo
Conselho do Brasil foi pressionado por seus pares a promover a separação entre
os graus simbólicos (1º ao 3º) e os graus filosóficos (4º ao 33º), conforme o
modelo adotado em países como França, Estados Unidos e Escócia. A estrutura
confederada brasileira foi considerada uma anomalia institucional, incompatível
com os princípios da soberania ritualística e administrativa dos Supremos
Conselhos.
Em
resposta às pressões internacionais e às divergências internas, foi firmado em
1926 um protocolo entre o Supremo Conselho e o GOB, com o objetivo de pacificar
a estrutura maçônica brasileira. O acordo estabelecia:
- O reconhecimento mútuo das
jurisdições: o GOB como única potência regular para os graus simbólicos, e
o Supremo Conselho como autoridade exclusiva sobre os altos graus
filosóficos.
- A renúncia do Supremo Conselho ao
direito de fundar lojas simbólicas ou iniciar nos três primeiros graus.
- O compromisso do GOB de atuar
exclusivamente nos graus simbólicos do REAA.
- A prerrogativa do Supremo Conselho de
organizar e modificar os rituais simbólicos, fornecendo cópias autênticas
ao GOB, que se obrigava a mantê-los inalterados.
- A desvinculação das lojas escocesas
da obediência ao Supremo Conselho, passando a responder diretamente ao
GOB, mediante substituição das Cartas Constitutivas.
Esse
acordo visava harmonizar a atuação das potências e garantir a regularidade do
Rito Escocês Antigo e Aceito no Brasil, conforme os padrões internacionais.
7.2
A RENÚNCIA DE MÁRIO BEHRING E A RUPTURA DEFINITIVA
Mário
Behring, figura central nesse processo, exercia simultaneamente os cargos de
Grão-Mestre Geral do GOB e Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho. Em
13 de julho de 1925, renunciou ao Grão-Mestrado do GOB após denúncias de
irregularidades no processo eleitoral que o reconduziu ao cargo. Sua renúncia
não representou um gesto de reconciliação, mas sim o início de uma
reestruturação institucional alinhada às exigências internacionais.
Apesar
da formalização do acordo em 1926, o GOB posteriormente declarou que observaria
apenas as normas constantes de sua própria Constituição, tornando sem efeito os
compromissos assumidos no protocolo. Essa atitude foi interpretada pelo Supremo
Conselho como uma violação dos princípios universais do Rito Escocês Antigo e
Aceito e como uma tentativa de nacionalização da Maçonaria brasileira, em
detrimento da tradição escocesa.
Diante
disso, o Supremo Conselho, sob a liderança de Behring, denunciou formalmente o
tratado de confederação em 20 de junho de 1927. A decisão foi comunicada
oficialmente às lojas regulares do Brasil e do exterior, em português e inglês,
marcando o fim da relação institucional entre as duas potências.
7.3
A CRIAÇÃO DAS GRANDES LOJAS ESTADUAIS
Com
o rompimento, o Supremo Conselho avocou à sua jurisdição todos os corpos
escoceses que haviam recebido suas Cartas Constitutivas. No entanto, em
respeito às Leis Universais do Rito, decidiu não manter sob sua jurisdição
direta os graus simbólicos. Em vez disso, passou a incentivar a criação de
Grandes Lojas Estaduais soberanas, cada uma responsável pela administração dos
três primeiros graus em seu território.
Essas
Grandes Lojas receberam Carta-Patente gratuita do Supremo Conselho,
garantindo-lhes reconhecimento internacional. A Grande Loja Maçônica do Estado
da Paraíba foi uma das pioneiras, fundada em 24 de agosto de 1927, ao lado das
Grandes Lojas do Amazonas, Pará, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo.
7.4
UMA NOVA ESTRUTURA MAÇÔNICA
A
nova estrutura proposta pelo Supremo Conselho previa:
- Uma Grande Loja soberana em cada
Estado, com poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, responsável pelos
graus simbólicos.
- Um Consistório do Grau 32 em cada
Estado, com jurisdição sobre os corpos filosóficos locais (Lojas de
Perfeição, Capítulos Rosa-Cruz e Conselhos de Kadosh).
- Um convênio de cooperação financeira
e administrativa entre os corpos simbólicos e filosóficos, promovendo a
descentralização e o fortalecimento da Maçonaria regional.
A
cisão de 1927 teve consequências profundas para a Maçonaria brasileira. Por um
lado, permitiu a conformidade com os padrões internacionais de regularidade e
fortaleceu a autonomia dos Corpos Filosóficos. Por outro, fragmentou o campo
maçônico nacional, criando duas grandes vertentes: uma vinculada ao GOB e outra
às Grandes Lojas Estaduais.
O
legado de Mário Behring, embora controverso, é reconhecido por sua contribuição
à modernização da estrutura maçônica brasileira. Sua liderança no Supremo
Conselho consolidou o Rito Escocês Antigo e Aceito como uma das principais
expressões da Maçonaria no país, preservando sua integridade ritualística e
filosófica.
8
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A
trajetória da Maçonaria no Nordeste brasileiro, com especial destaque para o
estado da Paraíba, revela uma instituição que se consolidou como força
histórica, filosófica e social ao longo dos séculos. Desde as primeiras
reuniões secretas no Areópago de Itambé, ainda no período colonial, até a
fundação da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba em 1927, observa-se um
contínuo engajamento da Maçonaria com os ideais de liberdade, justiça e
fraternidade.
A
atuação maçônica na Paraíba não se restringiu ao campo ritualístico ou
simbólico. Ao contrário, os registros históricos demonstram que as lojas
maçônicas foram espaços de articulação política, de resistência intelectual e
de promoção de reformas sociais. A presença de figuras como Manoel Arruda
Câmara, João Arlindo Correia e Pedro d’Aragão evidencia o protagonismo de
maçons paraibanos na luta pela independência, pela república e pela abolição da
escravatura.
A
fundação de Corpos Filosóficos como a Loja de Perfeição Paz e amor, o Capítulo
Rosa Cruz “Cavaleiros do Nordeste”, o Conselho de Kadosh “Arautos da Luz” e o
Consistório “Cristo Rei” consolidou a estrutura do Rito Escocês Antigo e Aceito
no estado, permitindo que os maçons paraibanos percorressem toda a jornada
iniciática até o Grau 33º. Esses corpos não apenas preservaram a tradição
esotérica da Ordem, mas também contribuíram para a formação ética e filosófica
de seus membros, promovendo valores universais em consonância com os princípios
da Maçonaria regular.
A
cisão entre o Supremo Conselho e o Grande Oriente do Brasil, ocorrida em 1927,
foi um divisor de águas na organização da Maçonaria brasileira. A criação das
Grandes Lojas Estaduais, entre elas a da Paraíba, representou um avanço
institucional e uma reafirmação da soberania das lojas simbólicas. Esse modelo
descentralizado permitiu maior autonomia administrativa e ritualística,
fortalecendo a identidade maçônica regional e ampliando sua capacidade de
atuação social.
Ao
resgatar essa memória, reconhece-se a Maçonaria como protagonista na construção
de uma sociedade mais justa, democrática e fraterna. Sua contribuição
ultrapassa os limites dos templos e se inscreve na história política, cultural
e humanitária do Brasil. A Maçonaria paraibana, em particular, permanece como
referência nacional, não apenas pela antiguidade de suas instituições, mas pela
profundidade de sua atuação e pela fidelidade aos princípios que a fundaram.
REFERÊNCIAS
BOTELHO, Sérgio. O
Areópago de Itambé. Paraíba Criativa, 2025.
CONFEDERAÇÃO DA MAÇONARIA
SIMBÓLICA DO BRASIL. História do Rito Escocês Antigo e Aceito no Brasil.
[s.d.].
Dogma Livre. História da
separação do Supremo Conselho do grau 33 para o R.E.A.A. no Brasil. Disponível
em: https://www.dogmalivre.com.br/artigos/Historia-da-separacao-do-Supremo-Conselho-do-grau-33-para-o-REAA-no-Bra.
Acesso em: 13 nov. 2025.
ELISIÁRIO, Ailton.
Registros históricos da Maçonaria na Paraíba. [s.d.].
GRANDE LOJA MAÇÔNICA DO
ESTADO DA PARAÍBA. Boletim Informativo do Jubileu de Brilhante. João
Pessoa, ago. 2002.
LIMA, Oliveira. Apud
ZENAIDE, Hélio. História da Maçonaria na Paraíba. João Pessoa: A União, 2000,
p. 311-332.
PINTO, Irineu Ferreira. Datas
e Notas para a História da Paraíba. v. I e II, 2 ed. João Pessoa:
Universitária/UFPB, 1977.
Portal Maçônica. (1927)
Cisão da Maçonaria no Brasil. Disponível em: https://www.masonica.com.br/l/1927-cisao-do-grande-oriente-do-brasil.
Acesso em: 13 nov. 2025.
Supremo Conselho do
Brasil. Breve Histórico. Disponível em: https://supremoconselho.com.br/breve-historico/.
Acesso em: 13 nov. 2025.
WIKIPÉDIA. Revolução
Pernambucana. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Pernambucana.
Acesso em: 12 nov. 2025.
ZENAIDE FILHO, Hélio Nóbrega.
(expositor). A maçonaria na Paraíba. A PARAÍBA NOS 500 ANOS DE BRASIL, 1999,
João Pessoa. Anais do Ciclo de Debates do Instituto Histórico e Geográfico da
Paraíba. João Pessoa: A União, 2000, p. 311-332.
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