A Preguiça de Ler na Maçonaria: Reflexões a partir da Crítica de Kurt Prober e da Atualidade Digital
LuCaS
Resumo: Este
artigo analisa a crítica formulada por Kurt Prober quanto à ausência do hábito
de leitura entre maçons, destacando sua relevância histórica e atual.
Argumenta-se que a negligência intelectual compromete a vitalidade simbólica da
Ordem, contribuindo para o esvaziamento de seus conteúdos iniciáticos e para o
afastamento progressivo de seus membros. A partir de uma abordagem
histórico-filosófica, discute-se como essa postura fragiliza a identidade
cultural da Maçonaria e enfraquece sua função formativa. A reflexão é
complementada pelo artigo Do Templo ao Digital, de Luiz Carlos Silva,
publicado pela Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB), que
corrobora essa preocupação e propõe medidas concretas para o fortalecimento da
dimensão intelectual da Ordem no contexto contemporâneo.
Palavras-chave:
Maçonaria. Leitura. Intelectualidade. Identidade cultural. Formação iniciática.
1. Introdução
A Maçonaria,
historicamente reconhecida como uma escola de aperfeiçoamento moral,
intelectual e espiritual, tem enfrentado críticas internas quanto à efetiva
dedicação de seus membros ao estudo e à reflexão. Embora os rituais e símbolos
da Ordem estejam impregnados de significados filosóficos e esotéricos,
observa-se, em diversas instâncias, uma lacuna entre o potencial formativo da
instituição e o engajamento real de seus integrantes com o conhecimento.
Kurt Prober, em suas
análises, denunciou a “preguiça de ler” como um traço recorrente entre maçons,
apontando para uma negligência intelectual que compromete a profundidade
simbólica da vivência iniciática. Décadas mais tarde, Luiz Carlos Silva, no
artigo Do Templo ao Digital, publicado pela Confederação da Maçonaria
Simbólica do Brasil (CMSB), retoma essa preocupação, destacando os riscos do
esvaziamento cultural da Ordem e propondo estratégias de atualização
intelectual e tecnológica como caminhos para revitalizar sua função formadora.
Este artigo parte dessas
críticas para investigar, sob uma perspectiva histórico-filosófica, os impactos
da persistente negligência intelectual sobre a identidade cultural da
Maçonaria, discutindo suas implicações para o futuro da tradição iniciática.
2. A crítica de Kurt
Prober
Kurt Prober, em suas
análises sobre a cultura maçônica brasileira, chamou atenção para um fenômeno
recorrente: a ausência de hábito de leitura entre os membros da Ordem. Segundo
o autor, muitos maçons demonstravam resistência ou desinteresse pela leitura
dos rituais, estatutos, obras históricas e filosóficas que fundamentam a
tradição iniciática. Essa atitude, segundo Prober, não apenas empobrece a
vivência maçônica, como também compromete sua função formadora.
Ao limitar-se à repetição
formal dos rituais, sem buscar compreender seus significados profundos, o maçom
corre o risco de transformar a experiência iniciática em mera encenação. A
vivência ritualística, desprovida de reflexão, torna-se mecânica e superficial,
enfraquecendo a dimensão intelectual da Maçonaria e provocando o esvaziamento
simbólico de seus conteúdos.
Prober denuncia essa
“preguiça de ler” como um obstáculo à construção de uma cultura maçônica
sólida, capaz de integrar tradição, pensamento crítico e formação ética. Sua
crítica permanece atual, sobretudo diante dos desafios contemporâneos de
preservação da identidade iniciática em meio à crescente superficialidade
cultural.
3. Persistência da
realidade
Apesar das significativas
transformações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas, incluindo a
digitalização de acervos, a popularização de bibliotecas virtuais e o acesso
instantâneo à informação, a crítica formulada por Kurt Prober permanece atual.
O que antes se caracterizava como “preguiça de ler” evoluiu, paradoxalmente,
para uma “preguiça de aprofundar”, marcada pela superficialidade na assimilação
de conteúdos e pela preferência por discursos prontos e fragmentados.
A facilidade de acesso
não se converteu, necessariamente, em maior engajamento intelectual. Ao
contrário, observa-se uma tendência à leitura rápida, descontextualizada e
pouco reflexiva, que compromete a compreensão dos fundamentos simbólicos e
filosóficos da Maçonaria. Essa postura fragiliza a vivência iniciática,
reduzindo o ritual a uma formalidade desprovida de sentido.
A persistência dessa
realidade revela um desafio estrutural para a Ordem: como preservar sua
identidade cultural e sua função formadora em um contexto marcado pela
aceleração informacional e pela cultura da superficialidade? A resposta exige
não apenas crítica, mas também ação pedagógica e renovação de práticas que
estimulem o estudo, a reflexão e o aprofundamento simbólico entre os maçons.
4. Consequências para a
Ordem
A negligência intelectual
no interior da Maçonaria não se limita a uma falha individual: ela produz
efeitos práticos e simbólicos que comprometem a vitalidade da instituição como
um todo. A ausência de estudo, reflexão e aprofundamento teórico fragiliza os
pilares que sustentam a tradição iniciática, gerando impactos em múltiplas
dimensões:
- Esvaziamento ritualístico:
sem compreensão dos significados simbólicos, os rituais tornam-se meras
formalidades, repetidas mecanicamente, desprovidas de profundidade
espiritual e pedagógica.
- Afastamento de membros:
a falta de estímulo intelectual e de vivência significativa leva ao
desinteresse, à desmotivação e, em muitos casos, ao desligamento de irmãos
que não encontram sentido na prática maçônica.
- Estagnação cultural:
a Ordem perde sua capacidade de dialogar com o mundo contemporâneo, de
produzir pensamento crítico e de renovar suas abordagens, tornando-se
anacrônica e autorreferente.
- Perda de influência social:
ao se distanciar da produção intelectual e da formação ética de seus
membros, a Maçonaria reduz sua capacidade de atuação como força
transformadora na sociedade, perdendo relevância pública e prestígio
cultural.
Essas consequências
revelam que o cultivo da dimensão intelectual não é acessório, mas essencial à
preservação da identidade, da função e da missão da Maçonaria como escola
iniciática e agente de transformação.
5. Contribuições
contemporâneas: Do Templo ao Digital
A crítica de Kurt Prober
à negligência intelectual entre maçons encontra ressonância nas análises
contemporâneas de Luiz Carlos Silva, especialmente em seu artigo Do Templo
ao Digital, publicado pela Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil
(CMSB). Silva evidencia que, mesmo diante da ampliação do acesso à informação e
da presença crescente de recursos tecnológicos, a falta de leitura e estudo
permanece como um dos principais desafios da Maçonaria atual.
Com base nessa
constatação, o autor propõe um conjunto de estratégias voltadas à revitalização
da dimensão intelectual da Ordem, articulando tradição e inovação:
- Integração digital:
utilização de plataformas virtuais para promover o estudo coletivo,
facilitando o acesso a conteúdos simbólicos, históricos e filosóficos, e
estimulando o diálogo entre irmãos de diferentes regiões.
- Formação continuada:
incentivo à realização de cursos, seminários e palestras com apoio
institucional, visando à qualificação permanente dos membros e à
valorização do conhecimento como prática iniciática.
- Valorização da produção intelectual:
reconhecimento público de autores, pesquisadores e estudiosos da
Maçonaria, fortalecendo a cultura maçônica e estimulando a criação de
novos conteúdos.
Essas propostas atualizam
a crítica de Prober, demonstrando que, embora o problema persista, ele pode ser
enfrentado com ações concretas, baseadas no compromisso cultural e na abertura
às ferramentas contemporâneas. A transição “do templo ao digital” não
representa ruptura, mas continuidade simbólica, uma forma de preservar a
essência iniciática da Ordem em meio às transformações do mundo moderno.
6. Conclusão
A crítica de Kurt Prober
à ausência do hábito de leitura entre maçons permanece atual e revela uma
fragilidade estrutural da Maçonaria: a negligência intelectual compromete não
apenas a vivência simbólica, mas também a função formadora da Ordem. A persistência
dessa postura indica um descompasso entre os ideais iniciáticos e a prática
cotidiana, gerando esvaziamento ritualístico, desmotivação dos membros e perda
de relevância cultural.
A obra Do Templo ao
Digital, de Luiz Carlos Silva, reforça essa preocupação ao propor caminhos
concretos para a revitalização da dimensão intelectual da Maçonaria. Suas
sugestões, como a integração digital, a formação continuada e a valorização da
produção intelectual, demonstram que é possível enfrentar o problema com
inovação, compromisso e fidelidade aos princípios iniciáticos.
A sobrevivência da
Maçonaria como escola de sabedoria depende da superação da indiferença
intelectual e da reafirmação do compromisso com o conhecimento. Sem estudo, não
há compreensão; sem compreensão, não há iniciação verdadeira. Revalorizar o
saber é, portanto, condição essencial para preservar a identidade, a missão e a
luz da Arte Real.
Referências
PROBER, Kurt. Maçonaria:
escola de aperfeiçoamento moral e intelectual. São Paulo: Editora
Pensamento, [s.d.].
JUK, A. O templo
maçônico e sua simbologia. São Paulo: Editora Esotérica, 2017.
OFICINA REAA. Disposição
ritualística das lojas no Rito Escocês Antigo e Aceito. Disponível em: https://oficinareaa.org. Acesso em: 19 nov.
2025.
SILVA, Luiz Carlos. Do
Templo ao Digital. In: Maçonaria e as Novas Tecnologias. Confederação da
Maçonaria Simbólica do Brasil – CMSB, 2024. Disponível em: Arquivos
Livraria Virtual - CMSB.
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