quinta-feira, 20 de novembro de 2025

A Preguiça de Ler na Maçonaria: Reflexões a partir da Crítica de Kurt Prober e da Atualidade Digital

 A Preguiça de Ler na Maçonaria: Reflexões a partir da Crítica de Kurt Prober e da Atualidade Digital

LuCaS

Resumo: Este artigo analisa a crítica formulada por Kurt Prober quanto à ausência do hábito de leitura entre maçons, destacando sua relevância histórica e atual. Argumenta-se que a negligência intelectual compromete a vitalidade simbólica da Ordem, contribuindo para o esvaziamento de seus conteúdos iniciáticos e para o afastamento progressivo de seus membros. A partir de uma abordagem histórico-filosófica, discute-se como essa postura fragiliza a identidade cultural da Maçonaria e enfraquece sua função formativa. A reflexão é complementada pelo artigo Do Templo ao Digital, de Luiz Carlos Silva, publicado pela Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB), que corrobora essa preocupação e propõe medidas concretas para o fortalecimento da dimensão intelectual da Ordem no contexto contemporâneo.

Palavras-chave: Maçonaria. Leitura. Intelectualidade. Identidade cultural. Formação iniciática.

 

1. Introdução

A Maçonaria, historicamente reconhecida como uma escola de aperfeiçoamento moral, intelectual e espiritual, tem enfrentado críticas internas quanto à efetiva dedicação de seus membros ao estudo e à reflexão. Embora os rituais e símbolos da Ordem estejam impregnados de significados filosóficos e esotéricos, observa-se, em diversas instâncias, uma lacuna entre o potencial formativo da instituição e o engajamento real de seus integrantes com o conhecimento.

Kurt Prober, em suas análises, denunciou a “preguiça de ler” como um traço recorrente entre maçons, apontando para uma negligência intelectual que compromete a profundidade simbólica da vivência iniciática. Décadas mais tarde, Luiz Carlos Silva, no artigo Do Templo ao Digital, publicado pela Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB), retoma essa preocupação, destacando os riscos do esvaziamento cultural da Ordem e propondo estratégias de atualização intelectual e tecnológica como caminhos para revitalizar sua função formadora.

Este artigo parte dessas críticas para investigar, sob uma perspectiva histórico-filosófica, os impactos da persistente negligência intelectual sobre a identidade cultural da Maçonaria, discutindo suas implicações para o futuro da tradição iniciática.

2. A crítica de Kurt Prober

Kurt Prober, em suas análises sobre a cultura maçônica brasileira, chamou atenção para um fenômeno recorrente: a ausência de hábito de leitura entre os membros da Ordem. Segundo o autor, muitos maçons demonstravam resistência ou desinteresse pela leitura dos rituais, estatutos, obras históricas e filosóficas que fundamentam a tradição iniciática. Essa atitude, segundo Prober, não apenas empobrece a vivência maçônica, como também compromete sua função formadora.

Ao limitar-se à repetição formal dos rituais, sem buscar compreender seus significados profundos, o maçom corre o risco de transformar a experiência iniciática em mera encenação. A vivência ritualística, desprovida de reflexão, torna-se mecânica e superficial, enfraquecendo a dimensão intelectual da Maçonaria e provocando o esvaziamento simbólico de seus conteúdos.

Prober denuncia essa “preguiça de ler” como um obstáculo à construção de uma cultura maçônica sólida, capaz de integrar tradição, pensamento crítico e formação ética. Sua crítica permanece atual, sobretudo diante dos desafios contemporâneos de preservação da identidade iniciática em meio à crescente superficialidade cultural.

3. Persistência da realidade

Apesar das significativas transformações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas, incluindo a digitalização de acervos, a popularização de bibliotecas virtuais e o acesso instantâneo à informação, a crítica formulada por Kurt Prober permanece atual. O que antes se caracterizava como “preguiça de ler” evoluiu, paradoxalmente, para uma “preguiça de aprofundar”, marcada pela superficialidade na assimilação de conteúdos e pela preferência por discursos prontos e fragmentados.

A facilidade de acesso não se converteu, necessariamente, em maior engajamento intelectual. Ao contrário, observa-se uma tendência à leitura rápida, descontextualizada e pouco reflexiva, que compromete a compreensão dos fundamentos simbólicos e filosóficos da Maçonaria. Essa postura fragiliza a vivência iniciática, reduzindo o ritual a uma formalidade desprovida de sentido.

A persistência dessa realidade revela um desafio estrutural para a Ordem: como preservar sua identidade cultural e sua função formadora em um contexto marcado pela aceleração informacional e pela cultura da superficialidade? A resposta exige não apenas crítica, mas também ação pedagógica e renovação de práticas que estimulem o estudo, a reflexão e o aprofundamento simbólico entre os maçons.

4. Consequências para a Ordem

A negligência intelectual no interior da Maçonaria não se limita a uma falha individual: ela produz efeitos práticos e simbólicos que comprometem a vitalidade da instituição como um todo. A ausência de estudo, reflexão e aprofundamento teórico fragiliza os pilares que sustentam a tradição iniciática, gerando impactos em múltiplas dimensões:

  • Esvaziamento ritualístico: sem compreensão dos significados simbólicos, os rituais tornam-se meras formalidades, repetidas mecanicamente, desprovidas de profundidade espiritual e pedagógica.
  • Afastamento de membros: a falta de estímulo intelectual e de vivência significativa leva ao desinteresse, à desmotivação e, em muitos casos, ao desligamento de irmãos que não encontram sentido na prática maçônica.
  • Estagnação cultural: a Ordem perde sua capacidade de dialogar com o mundo contemporâneo, de produzir pensamento crítico e de renovar suas abordagens, tornando-se anacrônica e autorreferente.
  • Perda de influência social: ao se distanciar da produção intelectual e da formação ética de seus membros, a Maçonaria reduz sua capacidade de atuação como força transformadora na sociedade, perdendo relevância pública e prestígio cultural.

Essas consequências revelam que o cultivo da dimensão intelectual não é acessório, mas essencial à preservação da identidade, da função e da missão da Maçonaria como escola iniciática e agente de transformação.

5. Contribuições contemporâneas: Do Templo ao Digital

A crítica de Kurt Prober à negligência intelectual entre maçons encontra ressonância nas análises contemporâneas de Luiz Carlos Silva, especialmente em seu artigo Do Templo ao Digital, publicado pela Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB). Silva evidencia que, mesmo diante da ampliação do acesso à informação e da presença crescente de recursos tecnológicos, a falta de leitura e estudo permanece como um dos principais desafios da Maçonaria atual.

Com base nessa constatação, o autor propõe um conjunto de estratégias voltadas à revitalização da dimensão intelectual da Ordem, articulando tradição e inovação:

  • Integração digital: utilização de plataformas virtuais para promover o estudo coletivo, facilitando o acesso a conteúdos simbólicos, históricos e filosóficos, e estimulando o diálogo entre irmãos de diferentes regiões.
  • Formação continuada: incentivo à realização de cursos, seminários e palestras com apoio institucional, visando à qualificação permanente dos membros e à valorização do conhecimento como prática iniciática.
  • Valorização da produção intelectual: reconhecimento público de autores, pesquisadores e estudiosos da Maçonaria, fortalecendo a cultura maçônica e estimulando a criação de novos conteúdos.

Essas propostas atualizam a crítica de Prober, demonstrando que, embora o problema persista, ele pode ser enfrentado com ações concretas, baseadas no compromisso cultural e na abertura às ferramentas contemporâneas. A transição “do templo ao digital” não representa ruptura, mas continuidade simbólica, uma forma de preservar a essência iniciática da Ordem em meio às transformações do mundo moderno.

6. Conclusão

A crítica de Kurt Prober à ausência do hábito de leitura entre maçons permanece atual e revela uma fragilidade estrutural da Maçonaria: a negligência intelectual compromete não apenas a vivência simbólica, mas também a função formadora da Ordem. A persistência dessa postura indica um descompasso entre os ideais iniciáticos e a prática cotidiana, gerando esvaziamento ritualístico, desmotivação dos membros e perda de relevância cultural.

A obra Do Templo ao Digital, de Luiz Carlos Silva, reforça essa preocupação ao propor caminhos concretos para a revitalização da dimensão intelectual da Maçonaria. Suas sugestões, como a integração digital, a formação continuada e a valorização da produção intelectual, demonstram que é possível enfrentar o problema com inovação, compromisso e fidelidade aos princípios iniciáticos.

A sobrevivência da Maçonaria como escola de sabedoria depende da superação da indiferença intelectual e da reafirmação do compromisso com o conhecimento. Sem estudo, não há compreensão; sem compreensão, não há iniciação verdadeira. Revalorizar o saber é, portanto, condição essencial para preservar a identidade, a missão e a luz da Arte Real.

Referências

PROBER, Kurt. Maçonaria: escola de aperfeiçoamento moral e intelectual. São Paulo: Editora Pensamento, [s.d.].

JUK, A. O templo maçônico e sua simbologia. São Paulo: Editora Esotérica, 2017.

OFICINA REAA. Disposição ritualística das lojas no Rito Escocês Antigo e Aceito. Disponível em: https://oficinareaa.org. Acesso em: 19 nov. 2025.

SILVA, Luiz Carlos. Do Templo ao Digital. In: Maçonaria e as Novas Tecnologias. Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil – CMSB, 2024. Disponível em: Arquivos Livraria Virtual - CMSB.

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