segunda-feira, 29 de setembro de 2025

O Invejoso Bajulador: Reflexões sobre Ética, Fraternidade e Vigilância Interior

 O Invejoso Bajulador: Reflexões sobre Ética, Fraternidade e Vigilância Interior

LuCaS


Resumo

Este artigo analisa o comportamento do invejoso bajulador sob a ótica dos princípios maçônicos, destacando os riscos que esse perfil representa à harmonia do Templo e à vivência da fraternidade. A partir de fundamentos da psicologia (Klein, Goleman), da filosofia moral (Tomás de Aquino) e da simbologia iniciática, investiga-se como a bajulação pode ser usada como máscara para a inveja, gerando relações tóxicas e ameaçando a autenticidade entre os Irmãos.

O estudo propõe estratégias de defesa baseadas na vigilância interior, no cultivo de vínculos sinceros e na prática da ética iniciática. Ao reconhecer e lidar com esse tipo de conduta com firmeza e compaixão, o maçom fortalece sua própria jornada e contribui para a preservação da Luz e da integridade da Obra.

Introdução

A Maçonaria, enquanto escola de aperfeiçoamento moral e espiritual, orienta seus membros à prática da virtude, da sinceridade e da fraternidade. No entanto, como toda instituição humana, está sujeita à presença de comportamentos que destoam desses ideais. Entre eles, destaca-se o perfil do invejoso bajulador, aquele que, sob aparência de reverência e elogio, oculta ressentimento, competição e desejo de manipulação.

Este artigo busca compreender esse comportamento no contexto maçônico, refletindo sobre seus impactos na harmonia da Loja e propondo caminhos para sua superação, com base na vigilância interior e na prática dos princípios iniciáticos.

1. A Inveja e a Bajulação: Uma Perspectiva Filosófica

A inveja, segundo Santo Tomás de Aquino, é “a tristeza pelo bem alheio”, enquanto a bajulação é “a adulação desonesta que visa agradar por interesse”. No contexto maçônico, ambas representam desvios éticos que comprometem a busca pela verdade e pela luz.

O bajulador invejoso não apenas fere o princípio da sinceridade, mas também ameaça a igualdade entre os Irmãos, criando hierarquias artificiais baseadas em vaidade e manipulação. Sua presença pode gerar divisões, alimentar intrigas e enfraquecer o espírito de fraternidade que sustenta o Templo.

2. Dinâmicas Psicológicas e Simbólicas

Segundo Melanie Klein (1957), a inveja é uma emoção primária que pode ser projetada sobre figuras de autoridade ou destaque. Na Maçonaria, isso se manifesta quando um Irmão não suporta o brilho do outro e tenta neutralizá-lo por meio de elogios excessivos, aproximações interesseiras ou sabotagens sutis.

Do ponto de vista simbólico, o invejoso bajulador é aquele que não lapidou sua pedra bruta. Ele busca atalhos, deseja reconhecimento sem mérito e se aproxima da Luz sem estar preparado para recebê-la. Sua bajulação é uma máscara que encobre a ausência de trabalho interior.

3. Estratégias de Defesa e Vigilância

A Maçonaria ensina que o verdadeiro combate é travado dentro de nós. Para lidar com o invejoso bajulador, o Irmão deve:

  • Praticar o silêncio e a observação: reconhecer os padrões sem reagir impulsivamente.
  • Estabelecer limites fraternos: manter a cordialidade sem permitir manipulação.
  • Fortalecer os vínculos autênticos: cultivar relações baseadas na verdade e no respeito mútuo.
  • Exercer a vigilância interior: evitar cair na vaidade ou na necessidade de aprovação.

Como ensina o Rito Escocês Antigo e Aceito, “o verdadeiro Mestre é aquele que domina a si mesmo”. Ao reconhecer o bajulador, o Irmão deve evitar o julgamento e buscar compreender o que nele ainda precisa ser lapidado.

Conclusão

O invejoso bajulador é uma figura que desafia os princípios da Maçonaria, mas também oferece uma oportunidade de crescimento. Ao lidar com ele com firmeza, ética e compaixão, o Irmão fortalece sua própria jornada iniciática e contribui para a harmonia do Templo.

A Luz não se impõe, ela se conquista. E o verdadeiro maçom é aquele que, mesmo diante da sombra, escolhe permanecer fiel à sua missão: construir pontes, lapidar a pedra e servir à Verdade.

Referências Bibliográficas

  • Klein, M. (1957). Envy and Gratitude. The Hogarth Press.
  • Aquino, T. (1265–1274). Suma Teológica.
  • Goleman, D. (1995). Emotional Intelligence. Bantam Books.
  • Goffman, E. (1959). The Presentation of Self in Everyday Life. Anchor Books.


sábado, 27 de setembro de 2025

OS MORTOS INICIADOS:UM PARALELO ENTRE ORFEU, OSÍRIS, JESUS CRISTO E HIRAM ABIFF

 

OS MORTOS INICIADOS:UM PARALELO ENTRE ORFEU, OSÍRIS, JESUS CRISTO E HIRAM ABIFF

Por: Neemias Ximenes Mestre Maçom


“O INICIADO MATARÁ O INICIADOR”*

1.  Introdução

Diversas tradições religiosas e esotéricas, desde os antigos mitos egípcios até os rituais maçônicos, compartilham a narrativa simbólica da morte e renascimento do iniciado. Estas figuras e lendas, muitas vezes chamadas de mortos iniciados, representam a jornada interior de transformação espiritual que conduz o ser humano à superação de si mesmo. Este trabalho propõe uma análise comparativa entre quatro dessas figuras arquetípicas: Orfeu, Osíris, Jesus Cristo e Hiram Abiff. O objetivo é identificar os elementos comuns que estruturam a narrativa da morte iniciática e compreender seu valor simbólico e espiritual.

 

2.  O Conceito do “Morto Iniciado”

A expressão "morto iniciado" refere-se àquele que, por meio de um processo ritual ou simbólico, experimenta uma “morte” interior renunciando ao ego, aos desejos materiais e à ignorância e renasce transformado, elevado espiritualmente. Este processo é descrito como fundamental nas escolas de mistério da Antiguidade, em tradições místicas e em ordens iniciáticas como a maçonaria. A morte iniciática não é, necessariamente, física, mas uma profunda transformação do ser interior, análoga ao conceito de metanoia no cristianismo ou de palingenesia no pensamento platônico.

 

3.  Análise das Principais Figuras Iniciáticas

 

3.1  Orfeu: a descida aos infernos órficos

Orfeu, figura central da mitologia grega, é conhecido por sua habilidade musical e por sua descida ao Hades em busca de sua esposa, Eurídice. Apesar de falhar na missão de resgatá-la, Orfeu retorna transformado, e


sua lenda passa a ser base para os Mistérios Órficos, que ensinavam uma doutrina de purificação da alma e libertação do ciclo de reencarnações. A jornada ao mundo inferior simboliza o confronto com as próprias sombras, uma etapa essencial na iniciação espiritual.

3.2  Osíris: o deus desmembrado e ressuscitado

Na teologia egípcia, Osíris é assassinado por seu irmão Seth e tem seu corpo esquartejado e espalhado. Ísis, sua consorte, reconstitui seu corpo e, com rituais mágicos, o traz de volta à vida. Osíris, então,

torna-se soberano do submundo e símbolo da imortalidade da alma. A história de Osíris era centrada nos Mistérios Osiríacos, que prometiam aos iniciados a ressurreição espiritual após a morte. O mito reflete a crença egípcia na continuidade da vida e na evolução espiritual através da morte.

3.3  Jesus Cristo: morte redentora e ressurreição gloriosa

A narrativa de Jesus Cristo, no cristianismo, é o exemplo mais conhecido de morte e ressurreição com significado salvífico. Crucificado e sepultado, Ele desce ao mundo dos mortos e ressuscita ao terceiro dia. A tradição cristã interpreta esse evento não apenas como uma redenção coletiva, mas também como modelo para o processo espiritual individual: morrer para o pecado e renascer em Cristo. Nos Evangelhos e nas cartas de Paulo, percebe-se um forte caráter iniciático, ainda que reinterpretado na teologia posterior.

3.4  Hiram Abiff: o mártir do templo maçônico

Hiram Abiff, personagem chave do terceiro grau da maçonaria, é apresentado como o arquiteto do Templo de Salomão. Segundo o ritual, ele é assassinado por três companheiros que desejam forçar-lhe os segredos da maestria. Hiram mantém seu juramento até a morte, sendo posteriormente "ressuscitado" em cerimônia simbólica pelos Mestres. A lenda reflete a morte do ego profano e o renascimento como um verdadeiro maçom e "homem de luz", símbolo da iniciação plena. O túmulo de Hiram é o símbolo do estado de ignorância, e sua elevação, da iluminação do espírito.


4.  O Elemento Comum: A Morte como Portal de Sabedoria

Apesar das diferentes origens culturais e religiosas, todas essas figuras compartilham o mesmo núcleo simbólico: a morte como caminho de transcendência. Cada uma, à sua maneira, representa a jornada iniciática do ser humano rumo ao autoconhecimento e à união com o divino. Orfeu desce ao submundo, Osíris é esquartejado, Jesus é crucificado, Hiram é assassinado. Todos morrem, mas todos renascem, transformados, mais próximos da verdade eterna.

Esse padrão se repete em outras tradições, como:

     Dionísio (Grécia): morto pelos Titãs, renasce como deus da vida e da natureza.

 

        Mitra (Pérsia): enfrenta provas e ascende à luz celeste.

 

     Baldur (Nórdica): morto injustamente, aguarda o Ragnarök para retornar e restaurar a ordem cósmica.

 

Em todas essas tradições, a morte é rito de passagem, nunca fim, mas transição.

 

5.  Interpretação Simbólica e Psicológica

Carl Gustav Jung e Joseph Campbell interpretaram esses mitos como expressões do inconsciente coletivo. A morte iniciática simboliza o processo de individuação, a integração da sombra, a renúncia ao ego e a realização do Self. Para Jung, o Cristo crucificado, o Osíris desmembrado e o Hiram assassinado representam etapas do processo psíquico de transformação. Campbell, em sua teoria do "monomito", vê todos esses heróis como expressões de uma mesma jornada: separação, iniciação e retorno, a estrutura básica da evolução espiritual humana.

 

6.  Conclusão


As figuras de Orfeu, Osíris, Jesus Cristo e Hiram Abiff revelam um padrão simbólico profundamente arraigado no imaginário humano: a necessidade de morrer para si mesmo a fim de renascer para uma realidade mais elevada. O "morto iniciado" é o herói espiritual, aquele que atravessa a escuridão da alma, enfrenta o mistério da morte e retorna transformado, portador de luz e sabedoria. Esses mitos não apenas expressam doutrinas religiosas antigas, mas ainda hoje inspiram rituais iniciáticos, práticas espirituais e jornadas psicológicas de autotransformação. A mensagem é clara: quem deseja viver plenamente deve, primeiro, aprender a morrer.


 

7.  Bibliografia Sugerida

    CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. Pensamento, 1989.

 

    JUNG, Carl G. A Psicologia e o Alquimista. Vozes, 2000.

 

     ELIADE, Mircea. Ritos e Símbolos da Iniciação. Martins Fontes, 1992.

 

    FRAZER, James G. O Ramo de Ouro. Zahar, 2009.

 

    ASSMANN, Jan. Morte e Vida no Antigo Egito. Vozes, 2001.

 

    PIETROSELLI, Massimo. Os Mistérios de Orfeu. Paulus, 2005.

 

    MACKEY, Albert G. Enciclopédia Maçônica. Madras,

 

    *Ritual de Mestre Maçom do REAA, página 13.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

 

Comentário geral da instrução do Grau 17 Cavaleiro do Oriente e do Ocidente.

LuCaS


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A instrução do Grau 17 apresenta uma síntese da jornada espiritual do Maçom, marcada pela purificação e pelo sacrifício. A recepção pela ablução com água e pela efusão do sangue simboliza a dupla exigência do caminho iniciático: limpar-se das impurezas do mundo e estar disposto a entregar-se pela Pátria e pela Maçonaria. O Cavaleiro do Oriente e do Ocidente é aquele que, tendo sido purificado, não teme o sacrifício em nome da verdade e da fraternidade.

O cenário simbólico do Grande Conselho é ricamente composto por elementos cósmicos e espirituais: o sol, a lua e o arco-íris representam a verdade, a transitoriedade e a esperança universal. O heptágono inscrito no círculo expressa a plenitude moral e a união fraterna. No centro, a figura do Filho do Homem, com sete estrelas e rodeado por sete castiçais, evoca a sabedoria divina e a missão redentora do iniciado. Cada detalhe reforça o papel do Maçom como agente da luz em meio às sombras do mundo.

As letras gravadas nos vértices e ângulos do heptágono representam atributos divinos e virtudes humanas que devem guiar a conduta do Cavaleiro. Beleza, Divindade, Sabedoria, Poder, Honra, Glória e Força são qualidades que elevam o espírito; Fraternidade, União, Submissão, Discrição, Fidelidade, Prudência e Temperança moldam o caráter. Juntas, essas palavras formam um código ético que transcende o ritual e se aplica à vida cotidiana do Maçom, exigindo dele uma postura íntegra e vigilante.

O Livro dos Sete Selos, inspirado no Apocalipse, é uma alegoria que transmite lições sobre justiça, lealdade, sacrifício e vigilância. Cada selo revela uma dimensão da missão maçônica: prontidão, defesa, justiça, memória dos desvios[1], sacrifício pela verdade, poder disciplinar e exaltação das virtudes. A queima do incenso e o toque das trombetas concluem essa jornada com a promessa de glória e expansão da Maçonaria sobre as asas da Honra e da Fama.

Os sete deveres dos Cavaleiros do Oriente e do Ocidente consolidam esse ensinamento: trabalhar e meditar; esperar e crer; velar pela Maçonaria; socorrer os necessitados; ensinar a verdade; amar a verdade e desprezar a morte. Esses deveres não são apenas obrigações formais, mas expressam uma postura existencial diante da vida. O Cavaleiro é aquele que transcende o medo, vive com propósito e honra, e se torna guardião da luz em tempos de trevas.

Por fim, as palavras Zabulum e Abaddon encerram o mistério do Grau. Zabulum, palavra de passe, significa “presente de Deus” ou “honra”, e representa a dádiva divina que é a vocação maçônica. Abaddon, palavra sagrada, significa “destruidor”, evocando o poder de dissolver o erro e purificar pela verdade. Ambas têm sete letras, como os selos, as virtudes e os castiçais, e remetem ao estandarte Baucent dos Templários, símbolo da dualidade entre misericórdia e justiça. O Cavaleiro do Grau 17 é, assim, um herdeiro espiritual dessa tradição: benevolente com os irmãos e firme contra os inimigos da luz.

Paz Profunda!!!



[1] A expressão “memória dos desvios” refere-se ao simbolismo do Quarto Selo, que apresenta a caveira como imagem central. No contexto da instrução do Grau 17, essa caveira representa o Irmão que foi excluído da Loja por não respeitar seus juramentos. Ou seja, ela é um lembrete constante, uma “memória, dos erros, traições ou desvios de conduta que podem ocorrer dentro da Ordem. Essa memória não é para alimentar ressentimento, mas para manter viva a consciência da responsabilidade que cada Maçom assume ao ser iniciado. A caveira funciona como um símbolo de advertência: ela lembra que a quebra dos compromissos sagrados tem consequências, e que a integridade é um pilar inegociável da vida maçônica. Assim, “memória dos desvios” significa cultivar a vigilância ética e espiritual, aprendendo com os erros do passado para não os repetir.

 

Comentário à Terceira Instrução do Grau de Companheiro Maçom

 Comentário à Terceira Instrução do Grau de Companheiro Maçom

LuCaS


        A terceira instrução do grau de Companheiro Maçom é uma verdadeira síntese filosófica e simbólica que convida o iniciado a transcender a mera compreensão intelectual e adentrar o terreno da meditação profunda. Ela articula uma visão do universo e do ser humano como estruturas interligadas por princípios numéricos, geométricos e espirituais, revelando que o caminho maçônico é, antes de tudo, uma jornada de interiorização e de ascensão consciente.

A instrução parte da ideia de que os números não são apenas quantidades, mas qualidades espirituais. Cada número representa um estágio de desenvolvimento, uma chave para a compreensão do mundo e de si mesmo. O Aprendiz lida com os fundamentos (1 a 4), o Companheiro com a realização e superação dos elementos (4 a 7), e o Mestre com a transcendência e a integração plena (7 a 10). Essa progressão não é arbitrária, mas sim profundamente enraizada na tradição pitagórica, onde o número dez representa a totalidade, o ciclo completo, a perfeição da manifestação.

A instrução também mergulha na simbologia geométrica, atribuindo significados espirituais às formas: o ponto (1) como origem, a linha (2) como ação, a superfície (3) como plano das ideias, e o sólido (4) como obra realizada. Essa sequência revela que toda criação parte do invisível e se concretiza no visível, e que o iniciado deve compreender essa dinâmica para realizar sua própria obra interior.

Outro ponto central é a leitura esotérica do Tetragrama hebraico (YHWH), que é interpretado como uma estrutura quaternária de ação: princípio ativo, verbo, meio e resultado. Essa leitura não apenas conecta a tradição judaica ao simbolismo maçônico, mas também reforça a ideia de que toda ação verdadeira é composta por esses quatro elementos, refletindo a própria estrutura do universo.

Essa terceira instrução avança para a simbologia dos elementos naturais, Terra, Água, Fogo e Ar, e introduz a quintessência como o princípio espiritual que os transcende. Aqui, o número cinco representa o ser humano em sua plenitude, capaz de dominar os elementos e manifestar sua verdadeira natureza. A luta do Companheiro contra os elementos é, portanto, uma metáfora para o processo de individuação, onde o homem deixa de ser um autômato reativo e torna-se um criador consciente.

A Estrela Flamejante, símbolo do grau de Companheiro, é apresentada como o astro do microcosmo humano, iluminando suavemente o caminho do iniciado. Ela representa a luz interior que começa a brilhar, ainda tímida, mas já reveladora. Em contraponto, o Hexagrama, formado por dois triângulos equiláteros entrelaçados, representa o macrocosmo, a união dos opostos, a síntese entre o masculino e o feminino, entre o ativo e o passivo. Essa figura é o símbolo da harmonia universal, da integração entre o eu e o todo.

Por fim, a instrução sugere que o verdadeiro trabalho do Companheiro é realizar, transformar, superar. Ele não pode se contentar com a teoria; deve aplicar, lutar, vencer. O número quatro, seu ponto de partida, é o símbolo da matéria, da obra a ser moldada. O cinco, seu objetivo, é a vitória do espírito sobre a matéria. E o seis, que começa a se revelar, é a atmosfera psíquica que envolve essa transformação, preparando o caminho para a iluminação maior.

Em suma, essa terceira instrução é um convite à alquimia interior. Ela ensina que o universo é regido por leis simbólicas e que o iniciado, ao compreendê-las e vivenciá-las, torna-se capaz de transformar a si mesmo e o mundo. É uma cartografia espiritual que orienta o Companheiro na travessia do labirinto, guiado pela luz da Estrela Flamejante e pela sabedoria dos números. Não se trata apenas de saber, trata-se de ser.

Paz Profunda!!!

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Durante a vida: produção, amor e acolhimento como fundamentos da existência significativa

Durante a vida: produção, amor e acolhimento como fundamentos da existência significativa

LuCaS

 


Resumo: Este artigo propõe uma reflexão filosófica e simbólica sobre o sentido da vida, articulando três dimensões essenciais da existência: produzir, amar e acolher. A partir da premissa de que a ausência dessas práticas configura uma vida não vivida, o texto dialoga com pensadores como Viktor Frankl, Simone de Beauvoir, Emmanuel Levinas, Martin Buber, Hannah Arendt, Rubem Alves, Edgar Morin, Erich Fromm e Paul Ricoeur. A análise é entrelaçada com os princípios da Maçonaria, compreendida como escola ética e iniciática que convida seus membros à construção de um legado humano e espiritual. O tempo é abordado não apenas como cronologia, mas como espaço simbólico de sentido. Conclui-se que viver é um ato ético, e que a plenitude da vida está na capacidade de transformar o tempo em legado.

Palavras-chave: Sentido da vida; Maçonaria; Ética; Produção simbólica; Amor; Acolhimento; Filosofia existencial.

 

1. Introdução

A distinção entre existir e viver é uma das mais urgentes da filosofia contemporânea. Em tempos de aceleração e superficialidade, o chamado à profundidade existencial torna-se um imperativo ético. Este artigo parte da afirmação: “Quem durante a vida não produziu, amou ou acolheu, não viveu a vida, apenas passou por ela”. Tal proposição será examinada à luz de pensadores que abordam o sentido da vida, a responsabilidade com o outro e a construção de significado, articulando essas ideias com os valores da Maçonaria.

2. Produzir: a construção do legado

Produzir é mais do que gerar resultados, é deixar marcas que resistem ao tempo. É transformar o instante em permanência, o gesto em memória, o esforço em legado. A produção significativa não se limita à esfera material; ela se estende ao simbólico, ao ético, ao afetivo. Produzir é inscrever-se na história, mesmo que em linhas discretas.

O psiquiatra e filósofo Viktor Frankl (2008), em “Em busca de sentido, afirma que o ser humano é movido pela necessidade de encontrar propósito, mesmo em meio ao sofrimento. Para ele, a vida só se torna suportável quando está orientada por um sentido que transcende o imediato. Produzir, nesse contexto, é uma forma de responder à pergunta fundamental: por que estou aqui?

Edgar Morin (2004), em “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, destaca que a complexidade da vida exige uma produção que integre ética, conhecimento e sensibilidade. O saber fragmentado não basta; é preciso uma inteligência que compreenda o humano em sua totalidade. Produzir, portanto, é também educar, é formar, é cultivar.

Hannah Arendt (1958), em “A condição humana, distingue três atividades fundamentais: labor, trabalho e ação. O trabalho é aquilo que constrói o mundo durável, as obras, os legados, os monumentos da cultura. Produzir, nesse sentido, é participar da construção do mundo humano, é deixar algo que permaneça após a partida.

No contexto maçônico, produzir é lapidar a pedra bruta. É transformar potencial em realização. É contribuir para o edifício invisível da humanidade, aquele que não se vê com os olhos, mas se sente com o espírito. O maçom é chamado a ser um construtor simbólico, alguém que trabalha não apenas com ferramentas, mas com virtudes. Cada ação ética, cada palavra justa, cada gesto fraterno é uma pedra colocada nesse templo universal.

Produzir também é resistir à tentação da indiferença. É escolher o envolvimento, mesmo quando o mundo parece desmobilizado. É assumir a responsabilidade de deixar o mundo um pouco melhor do que se encontrou. Como dizia Albert Schweitzer, médico e teólogo: “O exemplo não é a coisa mais importante que se pode transmitir aos outros. É a única”.

3. Amar: o compromisso com o outro

Amar é, antes de tudo, um ato de reconhecimento. É enxergar no outro não apenas uma presença, mas uma dignidade. É afirmar que o outro importa, que sua existência tem valor, que sua liberdade merece ser protegida. Amar é comprometer-se com o bem-estar do outro, mesmo quando isso exige renúncia, escuta, paciência.

Simone de Beauvoir (1947), em “A ética da ambiguidade, afirma que a liberdade só se realiza quando se compromete com a liberdade do outro. Para ela, a ética não nasce da abstração, mas da convivência. Amar, portanto, é um gesto ético: é reconhecer que o outro não é obstáculo à minha liberdade, mas condição para que ela se torne plena.

Emmanuel Levinas (1961), em “Totalidade e Infinito, aprofunda essa ideia ao afirmar que o rosto do outro nos interpela eticamente. O outro não é um objeto de conhecimento, mas um sujeito que nos convoca à responsabilidade. Amar, nesse sentido, é responder ao chamado do outro, é deixar-se afetar, é assumir o dever de cuidar.

Martin Buber, em sua “filosofia do diálogo”, propõe que a relação “Eu-Tu” é a base da vida autêntica. Amar é entrar nessa relação sem máscaras, sem utilidade, sem cálculo. É estar com o outro como quem está com o mistério, com reverência, com entrega, com verdade.

Erich Fromm, em “A arte de amar (1956), afirma que o amor não é um sentimento passivo, mas uma prática ativa. Amar exige disciplina, humildade, coragem. É uma arte que se aprende, que se cultiva, que se renova. Para Fromm, o amor verdadeiro é aquele que une maturidade emocional com compromisso ético.

No contexto maçônico, o amor fraterno é mais do que sentimento: é prática, é vínculo, é dever. O maçom é chamado a amar não apenas os que lhe são próximos, mas todos os que compartilham da condição humana. O amor fraterno é o cimento que une as pedras do templo, é o que transforma indivíduos em Irmãos, é o que sustenta a construção coletiva.

Amar, na Maçonaria, é também reconhecer que o outro é um espelho. Que sua dor é minha dor, que sua alegria é minha alegria. É viver o princípio da alteridade como fundamento da fraternidade. É agir com benevolência, com justiça, com compaixão. Amar é, enfim, resistir à indiferença. É escolher o vínculo em vez do isolamento. É afirmar que a vida só tem sentido quando é compartilhada. Quem ama, vive. Quem se compromete com o outro, constrói. Quem transforma o afeto em ação, deixa legado.

4. Acolher: o gesto que humaniza

Acolher é mais do que receber. É reconhecer. É permitir que o outro exista com dignidade, sem precisar pedir licença para ser quem é. Acolher é um gesto radicalmente humano, porque exige escuta, presença e disponibilidade. É o oposto da indiferença. É a afirmação de que o outro importa, não por sua utilidade, mas por sua existência.

Martin Buber (1970), em “Eu e Tu, propõe que a vida autêntica se dá na relação dialógica, onde o outro é visto como um “Tu” e não como um “Isso”. Acolher é entrar nessa relação sem máscaras, sem hierarquias, sem distâncias artificiais. É reconhecer no outro um parceiro de existência, alguém com quem se compartilha o mistério da vida.

Hannah Arendt (1958), em “A condição humana”, afirma que a ação humana só ganha sentido no espaço público, no encontro com os outros. Acolher, nesse sentido, é criar esse espaço, é tornar possível a convivência, o diálogo, a pluralidade. É construir pontes onde antes havia muros.

Paul Ricoeur, filósofo da hermenêutica, acrescenta que o acolhimento é um ato de hospitalidade ética. Em “Soi-même comme un autre (1990), ele defende que compreender o outro é também transformar-se. Acolher é permitir que o outro nos afete, nos desestabilize, nos ensine.

Levinas, em sua filosofia da alteridade, afirma que o rosto do outro nos convoca à responsabilidade. Acolher é responder a esse chamado, é assumir o dever de proteger, de cuidar, de garantir que o outro não seja reduzido à invisibilidade.

Rubem Alves (2002) reforça que “a vida é feita de encontros”, e que acolher é estar disponível para esses encontros, mesmo quando exigem escuta, paciência e entrega. Acolher é abrir espaço para o inesperado, para o diferente, para o que não se encaixa nos nossos moldes.

No contexto maçônico, acolher é um dos pilares da fraternidade. O maçom é chamado a ser abrigo, a ser ponte, a ser presença. Acolher o outro é reconhecer nele um Irmão, mesmo quando suas ideias, suas dores ou suas origens são distintas. É viver o princípio da igualdade na prática, não como conceito abstrato, mas como ação concreta.

Acolher também é um gesto iniciático. É o que permite que o novo seja recebido, que o desconhecido seja integrado, que o templo seja ampliado. Sem acolhimento, não há construção coletiva. Sem acolhimento, não há humanidade. Acolher é resistir à lógica da exclusão. É afirmar que todos têm lugar. Que todos têm voz. Que todos têm valor. É o gesto que humaniza, e que transforma o mundo em um espaço habitável para todos.

5. Tempo e sentido: entre o cronológico e o simbólico

O tempo da vida não é apenas uma sucessão de minutos, dias e anos. Ele é também uma experiência qualitativa, carregada de sentido, memória e transformação. A distinção entre o tempo cronológico (chronos) e o tempo vivido (kairos) é fundamental para compreender a profundidade da existência. O primeiro é medido por relógios; o segundo, por significados.

Na tradição maçônica, o tempo é sempre simbólico. Cada sessão ritualística não é apenas um encontro marcado no calendário, é uma travessia interior, uma oportunidade de lapidar a pedra bruta do ser. Cada palavra proferida, cada silêncio respeitado, cada gesto repetido carrega em si a densidade de séculos de sabedoria. O tempo maçônico é iniciático: ele não passa, ele transforma.

Henri Bergson, filósofo francês, em “Matéria e Memória (1896), distingue o tempo da ciência, homogêneo e mensurável, do tempo da consciência, que é fluido, subjetivo e carregado de duração. Para Bergson, viver é mergulhar nesse tempo interior, onde os instantes não se acumulam, mas se aprofundam. O tempo que não é habitado com sentido torna-se vazio, indiferente, esquecido.

Byung-Chul Han, pensador contemporâneo, em “O aroma do tempo (2009), alerta para a crise temporal da modernidade: vivemos acelerados, mas sem profundidade. O tempo perdeu seu ritmo, sua narrativa, sua capacidade de gerar sentido. A Maçonaria, ao contrário, resgata o tempo como espaço de construção, lento, ritualizado, significativo.

Paul Tillich, teólogo e filósofo, afirma que “o tempo é o horizonte da existência”. É nele que se desenrolam nossas escolhas, nossas perdas, nossos legados. O tempo é o palco onde se encena a liberdade humana. E essa liberdade só se realiza quando é preenchida por ações que produzem, amam e acolhem.

Na linguagem simbólica da Maçonaria, o tempo é também um ciclo. O Oriente e o Ocidente não são apenas direções, são metáforas do nascer e do pôr, do início e do fim, da luz e da reflexão. O tempo é o fio que une o Aprendiz ao Mestre, o passado ao futuro, o indivíduo à coletividade.

Quem não produz, não ama, não acolhe, não vive. É apenas uma sombra entre colunas, uma pedra que nunca foi tocada pelo cinzel da consciência. O tempo que não é transformado em sentido é tempo perdido, não porque passou, mas porque não foi vivido.

Por isso, o verdadeiro iniciado não teme o tempo. Ele o honra. Ele o habita. Ele o transforma em legado.

6. Considerações finais

Viver é deixar rastro. É inscrever-se na memória do mundo por meio de gestos, vínculos e legados. É transformar o tempo em matéria de sentido, e não apenas em sucessão de dias. A vida plena não se mede pela duração, mas pela densidade, pela capacidade de produzir, amar e acolher com autenticidade.

A Maçonaria, como escola simbólica e ética, convida seus iniciados a transcender a mera existência. Ser maçom é comprometer-se com o aperfeiçoamento interior e com a construção coletiva de um mundo mais justo, fraterno e iluminado. É viver com consciência, com propósito, com presença.

Produzir é lapidar a pedra bruta, é transformar potencial em realização, é contribuir para o edifício invisível da humanidade. Amar é reconhecer no outro um sujeito de valor, é construir vínculos que transcendem o interesse pessoal. Acolher é abrir espaço para que o outro exista com dignidade, é afirmar a alteridade como fundamento da fraternidade.

Esses três pilares, produção, amor e acolhimento, não são apenas virtudes individuais. São fundamentos civilizatórios. São os traços que sustentam o templo simbólico da humanidade. E quem os negligencia, mesmo que tenha respirado, não viveu. Foi apenas uma sombra entre colunas, uma presença sem legado, uma existência sem sentido.

Como nos lembra Fernando Pessoa, “vale mais ser um homem de ação do que um homem de intenção”. A vida exige movimento, entrega, compromisso. E o tempo, esse que parece sempre disponível, é na verdade o bem mais escasso. Cada dia vivido sem sentido é uma oportunidade perdida de construir, de amar, de acolher.

Por isso, viver é um ato ético. É uma escolha que se renova a cada instante. É a decisão de transformar o tempo em espaço de sentido, como quem grava, com firmeza e ternura, os traços da alma no Livro da Vida.

Referências

ALVES, Rubem. O que é religião. São Paulo: Loyola, 2002.

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1958.

BEAUVOIR, Simone de. A ética da ambiguidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1947.

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LOJA MÃE

  LOJA MÃE (PALESTRA)   Venerável Mestre, presidente desta sessão, Veneráveis Mestres das demais Lojas e Potências aqui presentes, Ofici...