Durante
a vida: produção, amor e acolhimento como fundamentos da existência
significativa
LuCaS
Resumo: Este
artigo propõe uma reflexão filosófica e simbólica sobre o sentido da vida,
articulando três dimensões essenciais da existência: produzir, amar e acolher.
A partir da premissa de que a ausência dessas práticas configura uma vida não
vivida, o texto dialoga com pensadores como Viktor Frankl, Simone de Beauvoir,
Emmanuel Levinas, Martin Buber, Hannah Arendt, Rubem Alves, Edgar Morin, Erich
Fromm e Paul Ricoeur. A análise é entrelaçada com os princípios da Maçonaria,
compreendida como escola ética e iniciática que convida seus membros à
construção de um legado humano e espiritual. O tempo é abordado não apenas como
cronologia, mas como espaço simbólico de sentido. Conclui-se que viver é um ato
ético, e que a plenitude da vida está na capacidade de transformar o tempo em
legado.
Palavras-chave:
Sentido
da vida; Maçonaria; Ética; Produção simbólica; Amor; Acolhimento; Filosofia
existencial.
1.
Introdução
A
distinção entre existir e viver é uma das mais urgentes da filosofia
contemporânea. Em tempos de aceleração e superficialidade, o chamado à
profundidade existencial torna-se um imperativo ético. Este artigo parte da
afirmação: “Quem durante a vida não produziu, amou ou acolheu, não viveu a
vida, apenas passou por ela”. Tal proposição será examinada à luz de
pensadores que abordam o sentido da vida, a responsabilidade com o outro e a
construção de significado, articulando essas ideias com os valores da
Maçonaria.
2.
Produzir: a construção do legado
Produzir
é mais do que gerar resultados, é deixar marcas que resistem ao tempo. É
transformar o instante em permanência, o gesto em memória, o esforço em legado.
A produção significativa não se limita à esfera material; ela se estende ao
simbólico, ao ético, ao afetivo. Produzir é inscrever-se na história, mesmo que
em linhas discretas.
O
psiquiatra e filósofo Viktor Frankl (2008), em “Em busca de sentido”,
afirma que o ser humano é movido pela necessidade de encontrar propósito, mesmo
em meio ao sofrimento. Para ele, a vida só se torna suportável quando está
orientada por um sentido que transcende o imediato. Produzir, nesse contexto, é
uma forma de responder à pergunta fundamental: por que estou aqui?
Edgar
Morin (2004), em “Os sete saberes necessários à educação
do futuro”, destaca que a complexidade da vida exige uma produção que
integre ética, conhecimento e sensibilidade. O saber fragmentado não basta; é
preciso uma inteligência que compreenda o humano em sua totalidade. Produzir,
portanto, é também educar, é formar, é cultivar.
Hannah
Arendt (1958), em “A condição humana”, distingue três
atividades fundamentais: labor, trabalho e ação. O trabalho é aquilo que
constrói o mundo durável, as obras, os legados, os monumentos da cultura.
Produzir, nesse sentido, é participar da construção do mundo humano, é deixar
algo que permaneça após a partida.
No
contexto maçônico, produzir é lapidar a pedra bruta. É transformar
potencial em realização. É contribuir para o edifício invisível da humanidade,
aquele que não se vê com os olhos, mas se sente com o espírito. O maçom é
chamado a ser um construtor simbólico, alguém que trabalha não apenas com
ferramentas, mas com virtudes. Cada ação ética, cada palavra justa, cada gesto
fraterno é uma pedra colocada nesse templo universal.
Produzir
também é resistir à tentação da indiferença. É escolher o envolvimento, mesmo
quando o mundo parece desmobilizado. É assumir a responsabilidade de deixar o
mundo um pouco melhor do que se encontrou. Como dizia Albert Schweitzer,
médico e teólogo: “O exemplo não é a coisa mais importante que se pode
transmitir aos outros. É a única”.
3.
Amar: o compromisso com o outro
Amar
é, antes de tudo, um ato de reconhecimento. É enxergar no outro não apenas uma
presença, mas uma dignidade. É afirmar que o outro importa, que sua existência
tem valor, que sua liberdade merece ser protegida. Amar é comprometer-se com o
bem-estar do outro, mesmo quando isso exige renúncia, escuta, paciência.
Simone
de Beauvoir (1947), em “A ética da ambiguidade”,
afirma que a liberdade só se realiza quando se compromete com a liberdade do
outro. Para ela, a ética não nasce da abstração, mas da convivência. Amar,
portanto, é um gesto ético: é reconhecer que o outro não é obstáculo à minha
liberdade, mas condição para que ela se torne plena.
Emmanuel
Levinas (1961), em “Totalidade e Infinito”, aprofunda
essa ideia ao afirmar que o rosto do outro nos interpela eticamente. O outro
não é um objeto de conhecimento, mas um sujeito que nos convoca à
responsabilidade. Amar, nesse sentido, é responder ao chamado do outro, é
deixar-se afetar, é assumir o dever de cuidar.
Martin
Buber, em sua “filosofia do diálogo”, propõe que a relação
“Eu-Tu” é a base da vida autêntica. Amar é entrar nessa relação sem máscaras,
sem utilidade, sem cálculo. É estar com o outro como quem está com o mistério,
com reverência, com entrega, com verdade.
Erich
Fromm, em “A arte de amar” (1956), afirma que o amor
não é um sentimento passivo, mas uma prática ativa. Amar exige disciplina,
humildade, coragem. É uma arte que se aprende, que se cultiva, que se renova.
Para Fromm, o amor verdadeiro é aquele que une maturidade emocional com compromisso
ético.
No
contexto maçônico, o amor fraterno é mais do que sentimento: é prática,
é vínculo, é dever. O maçom é chamado a amar não apenas os que lhe são
próximos, mas todos os que compartilham da condição humana. O amor fraterno é o
cimento que une as pedras do templo, é o que transforma indivíduos em Irmãos, é
o que sustenta a construção coletiva.
Amar,
na Maçonaria, é também reconhecer que o outro é um espelho. Que sua dor é minha
dor, que sua alegria é minha alegria. É viver o princípio da alteridade como
fundamento da fraternidade. É agir com benevolência, com justiça, com
compaixão. Amar é, enfim, resistir à indiferença. É escolher o vínculo em vez
do isolamento. É afirmar que a vida só tem sentido quando é compartilhada. Quem
ama, vive. Quem se compromete com o outro, constrói. Quem transforma o afeto em
ação, deixa legado.
4.
Acolher: o gesto que humaniza
Acolher
é mais do que receber. É reconhecer. É permitir que o outro exista com
dignidade, sem precisar pedir licença para ser quem é. Acolher é um gesto
radicalmente humano, porque exige escuta, presença e disponibilidade. É o
oposto da indiferença. É a afirmação de que o outro importa, não por sua
utilidade, mas por sua existência.
Martin
Buber (1970), em “Eu e Tu”, propõe que a vida
autêntica se dá na relação dialógica, onde o outro é visto como um “Tu” e não
como um “Isso”. Acolher é entrar nessa relação sem máscaras, sem hierarquias,
sem distâncias artificiais. É reconhecer no outro um parceiro de existência, alguém
com quem se compartilha o mistério da vida.
Hannah
Arendt (1958), em “A condição humana”, afirma que a
ação humana só ganha sentido no espaço público, no encontro com os outros.
Acolher, nesse sentido, é criar esse espaço, é tornar possível a convivência, o
diálogo, a pluralidade. É construir pontes onde antes havia muros.
Paul
Ricoeur, filósofo da hermenêutica, acrescenta que o
acolhimento é um ato de hospitalidade ética. Em “Soi-même comme un autre”
(1990), ele defende que compreender o outro é também transformar-se. Acolher é
permitir que o outro nos afete, nos desestabilize, nos ensine.
Levinas,
em sua filosofia da alteridade, afirma que o rosto do outro nos convoca à
responsabilidade. Acolher é responder a esse chamado, é assumir o dever de
proteger, de cuidar, de garantir que o outro não seja reduzido à
invisibilidade.
Rubem
Alves (2002) reforça que “a vida é feita de encontros”, e
que acolher é estar disponível para esses encontros, mesmo quando exigem
escuta, paciência e entrega. Acolher é abrir espaço para o inesperado, para o
diferente, para o que não se encaixa nos nossos moldes.
No
contexto maçônico, acolher é um dos pilares da fraternidade. O maçom é
chamado a ser abrigo, a ser ponte, a ser presença. Acolher o outro é reconhecer
nele um Irmão, mesmo quando suas ideias, suas dores ou suas origens são
distintas. É viver o princípio da igualdade na prática, não como conceito
abstrato, mas como ação concreta.
Acolher
também é um gesto iniciático. É o que permite que o novo seja recebido, que o
desconhecido seja integrado, que o templo seja ampliado. Sem acolhimento, não
há construção coletiva. Sem acolhimento, não há humanidade. Acolher é resistir
à lógica da exclusão. É afirmar que todos têm lugar. Que todos têm voz. Que
todos têm valor. É o gesto que humaniza, e que transforma o mundo em um espaço
habitável para todos.
5.
Tempo e sentido: entre o cronológico e o simbólico
O
tempo da vida não é apenas uma sucessão de minutos, dias e anos. Ele é também
uma experiência qualitativa, carregada de sentido, memória e transformação. A
distinção entre o tempo cronológico (chronos) e o tempo vivido (kairos)
é fundamental para compreender a profundidade da existência. O primeiro é
medido por relógios; o segundo, por significados.
Na
tradição maçônica, o tempo é sempre simbólico. Cada sessão ritualística
não é apenas um encontro marcado no calendário, é uma travessia interior, uma
oportunidade de lapidar a pedra bruta do ser. Cada palavra proferida, cada
silêncio respeitado, cada gesto repetido carrega em si a densidade de séculos
de sabedoria. O tempo maçônico é iniciático: ele não passa, ele transforma.
Henri
Bergson, filósofo francês, em “Matéria e Memória”
(1896), distingue o tempo da ciência, homogêneo e mensurável, do tempo da
consciência, que é fluido, subjetivo e carregado de duração. Para Bergson,
viver é mergulhar nesse tempo interior, onde os instantes não se acumulam, mas
se aprofundam. O tempo que não é habitado com sentido torna-se vazio,
indiferente, esquecido.
Byung-Chul
Han,
pensador contemporâneo, em “O aroma do tempo” (2009), alerta para a
crise temporal da modernidade: vivemos acelerados, mas sem profundidade. O
tempo perdeu seu ritmo, sua narrativa, sua capacidade de gerar sentido. A
Maçonaria, ao contrário, resgata o tempo como espaço de construção, lento,
ritualizado, significativo.
Paul
Tillich, teólogo e filósofo, afirma que “o tempo é o
horizonte da existência”. É nele que se desenrolam nossas escolhas, nossas
perdas, nossos legados. O tempo é o palco onde se encena a liberdade humana. E
essa liberdade só se realiza quando é preenchida por ações que produzem, amam e
acolhem.
Na
linguagem simbólica da Maçonaria, o tempo é também um ciclo. O Oriente e o
Ocidente não são apenas direções, são metáforas do nascer e do pôr, do início e
do fim, da luz e da reflexão. O tempo é o fio que une o Aprendiz ao Mestre, o
passado ao futuro, o indivíduo à coletividade.
Quem
não produz, não ama, não acolhe, não vive. É apenas uma sombra entre colunas,
uma pedra que nunca foi tocada pelo cinzel da consciência. O tempo que não é
transformado em sentido é tempo perdido, não porque passou, mas porque não foi
vivido.
Por
isso, o verdadeiro iniciado não teme o tempo. Ele o honra. Ele o habita. Ele o
transforma em legado.
6.
Considerações finais
Viver
é deixar rastro. É inscrever-se na memória do mundo por meio de gestos,
vínculos e legados. É transformar o tempo em matéria de sentido, e não apenas
em sucessão de dias. A vida plena não se mede pela duração, mas pela densidade,
pela capacidade de produzir, amar e acolher com autenticidade.
A
Maçonaria, como escola simbólica e ética, convida seus iniciados a
transcender a mera existência. Ser maçom é comprometer-se com o aperfeiçoamento
interior e com a construção coletiva de um mundo mais justo, fraterno e
iluminado. É viver com consciência, com propósito, com presença.
Produzir
é lapidar a pedra bruta, é transformar potencial em realização, é contribuir
para o edifício invisível da humanidade. Amar é reconhecer no outro um sujeito
de valor, é construir vínculos que transcendem o interesse pessoal. Acolher é
abrir espaço para que o outro exista com dignidade, é afirmar a alteridade como
fundamento da fraternidade.
Esses
três pilares, produção, amor e acolhimento, não são apenas virtudes
individuais. São fundamentos civilizatórios. São os traços que sustentam o
templo simbólico da humanidade. E quem os negligencia, mesmo que tenha
respirado, não viveu. Foi apenas uma sombra entre colunas, uma presença sem
legado, uma existência sem sentido.
Como
nos lembra Fernando Pessoa, “vale mais ser um homem de ação do que um
homem de intenção”. A vida exige movimento, entrega, compromisso. E o tempo,
esse que parece sempre disponível, é na verdade o bem mais escasso. Cada dia
vivido sem sentido é uma oportunidade perdida de construir, de amar, de
acolher.
Por
isso, viver é um ato ético. É uma escolha que se renova a cada instante. É a
decisão de transformar o tempo em espaço de sentido, como quem grava, com
firmeza e ternura, os traços da alma no Livro da Vida.
Referências
ALVES,
Rubem. O que é religião. São Paulo: Loyola, 2002.
ARENDT,
Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1958.
BEAUVOIR,
Simone de. A ética da ambiguidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1947.
BERGSON,
Henri. Matéria e Memória. São Paulo: Martins Fontes, 1896.
BUBER,
Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 1970.
FRANKL,
Viktor. Em busca de sentido. São Paulo: Vozes, 2008.
FROMM,
Erich. A arte de amar. Rio de Janeiro: Zahar, 1956.
HAN,
Byung-Chul. O aroma do tempo. Petrópolis: Vozes, 2009.
LEVINAS,
Emmanuel. Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições 70, 1961.
MORIN,
Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez,
2004.
PESSOA,
Fernando. Obras completas. Lisboa: Ática, 1980.
RICOEUR,
Paul. Soi-même comme un autre. Paris: Seuil, 1990.