sábado, 27 de setembro de 2025

OS MORTOS INICIADOS:UM PARALELO ENTRE ORFEU, OSÍRIS, JESUS CRISTO E HIRAM ABIFF

 

OS MORTOS INICIADOS:UM PARALELO ENTRE ORFEU, OSÍRIS, JESUS CRISTO E HIRAM ABIFF

Por: Neemias Ximenes Mestre Maçom


“O INICIADO MATARÁ O INICIADOR”*

1.  Introdução

Diversas tradições religiosas e esotéricas, desde os antigos mitos egípcios até os rituais maçônicos, compartilham a narrativa simbólica da morte e renascimento do iniciado. Estas figuras e lendas, muitas vezes chamadas de mortos iniciados, representam a jornada interior de transformação espiritual que conduz o ser humano à superação de si mesmo. Este trabalho propõe uma análise comparativa entre quatro dessas figuras arquetípicas: Orfeu, Osíris, Jesus Cristo e Hiram Abiff. O objetivo é identificar os elementos comuns que estruturam a narrativa da morte iniciática e compreender seu valor simbólico e espiritual.

 

2.  O Conceito do “Morto Iniciado”

A expressão "morto iniciado" refere-se àquele que, por meio de um processo ritual ou simbólico, experimenta uma “morte” interior renunciando ao ego, aos desejos materiais e à ignorância e renasce transformado, elevado espiritualmente. Este processo é descrito como fundamental nas escolas de mistério da Antiguidade, em tradições místicas e em ordens iniciáticas como a maçonaria. A morte iniciática não é, necessariamente, física, mas uma profunda transformação do ser interior, análoga ao conceito de metanoia no cristianismo ou de palingenesia no pensamento platônico.

 

3.  Análise das Principais Figuras Iniciáticas

 

3.1  Orfeu: a descida aos infernos órficos

Orfeu, figura central da mitologia grega, é conhecido por sua habilidade musical e por sua descida ao Hades em busca de sua esposa, Eurídice. Apesar de falhar na missão de resgatá-la, Orfeu retorna transformado, e


sua lenda passa a ser base para os Mistérios Órficos, que ensinavam uma doutrina de purificação da alma e libertação do ciclo de reencarnações. A jornada ao mundo inferior simboliza o confronto com as próprias sombras, uma etapa essencial na iniciação espiritual.

3.2  Osíris: o deus desmembrado e ressuscitado

Na teologia egípcia, Osíris é assassinado por seu irmão Seth e tem seu corpo esquartejado e espalhado. Ísis, sua consorte, reconstitui seu corpo e, com rituais mágicos, o traz de volta à vida. Osíris, então,

torna-se soberano do submundo e símbolo da imortalidade da alma. A história de Osíris era centrada nos Mistérios Osiríacos, que prometiam aos iniciados a ressurreição espiritual após a morte. O mito reflete a crença egípcia na continuidade da vida e na evolução espiritual através da morte.

3.3  Jesus Cristo: morte redentora e ressurreição gloriosa

A narrativa de Jesus Cristo, no cristianismo, é o exemplo mais conhecido de morte e ressurreição com significado salvífico. Crucificado e sepultado, Ele desce ao mundo dos mortos e ressuscita ao terceiro dia. A tradição cristã interpreta esse evento não apenas como uma redenção coletiva, mas também como modelo para o processo espiritual individual: morrer para o pecado e renascer em Cristo. Nos Evangelhos e nas cartas de Paulo, percebe-se um forte caráter iniciático, ainda que reinterpretado na teologia posterior.

3.4  Hiram Abiff: o mártir do templo maçônico

Hiram Abiff, personagem chave do terceiro grau da maçonaria, é apresentado como o arquiteto do Templo de Salomão. Segundo o ritual, ele é assassinado por três companheiros que desejam forçar-lhe os segredos da maestria. Hiram mantém seu juramento até a morte, sendo posteriormente "ressuscitado" em cerimônia simbólica pelos Mestres. A lenda reflete a morte do ego profano e o renascimento como um verdadeiro maçom e "homem de luz", símbolo da iniciação plena. O túmulo de Hiram é o símbolo do estado de ignorância, e sua elevação, da iluminação do espírito.


4.  O Elemento Comum: A Morte como Portal de Sabedoria

Apesar das diferentes origens culturais e religiosas, todas essas figuras compartilham o mesmo núcleo simbólico: a morte como caminho de transcendência. Cada uma, à sua maneira, representa a jornada iniciática do ser humano rumo ao autoconhecimento e à união com o divino. Orfeu desce ao submundo, Osíris é esquartejado, Jesus é crucificado, Hiram é assassinado. Todos morrem, mas todos renascem, transformados, mais próximos da verdade eterna.

Esse padrão se repete em outras tradições, como:

     Dionísio (Grécia): morto pelos Titãs, renasce como deus da vida e da natureza.

 

        Mitra (Pérsia): enfrenta provas e ascende à luz celeste.

 

     Baldur (Nórdica): morto injustamente, aguarda o Ragnarök para retornar e restaurar a ordem cósmica.

 

Em todas essas tradições, a morte é rito de passagem, nunca fim, mas transição.

 

5.  Interpretação Simbólica e Psicológica

Carl Gustav Jung e Joseph Campbell interpretaram esses mitos como expressões do inconsciente coletivo. A morte iniciática simboliza o processo de individuação, a integração da sombra, a renúncia ao ego e a realização do Self. Para Jung, o Cristo crucificado, o Osíris desmembrado e o Hiram assassinado representam etapas do processo psíquico de transformação. Campbell, em sua teoria do "monomito", vê todos esses heróis como expressões de uma mesma jornada: separação, iniciação e retorno, a estrutura básica da evolução espiritual humana.

 

6.  Conclusão


As figuras de Orfeu, Osíris, Jesus Cristo e Hiram Abiff revelam um padrão simbólico profundamente arraigado no imaginário humano: a necessidade de morrer para si mesmo a fim de renascer para uma realidade mais elevada. O "morto iniciado" é o herói espiritual, aquele que atravessa a escuridão da alma, enfrenta o mistério da morte e retorna transformado, portador de luz e sabedoria. Esses mitos não apenas expressam doutrinas religiosas antigas, mas ainda hoje inspiram rituais iniciáticos, práticas espirituais e jornadas psicológicas de autotransformação. A mensagem é clara: quem deseja viver plenamente deve, primeiro, aprender a morrer.


 

7.  Bibliografia Sugerida

    CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. Pensamento, 1989.

 

    JUNG, Carl G. A Psicologia e o Alquimista. Vozes, 2000.

 

     ELIADE, Mircea. Ritos e Símbolos da Iniciação. Martins Fontes, 1992.

 

    FRAZER, James G. O Ramo de Ouro. Zahar, 2009.

 

    ASSMANN, Jan. Morte e Vida no Antigo Egito. Vozes, 2001.

 

    PIETROSELLI, Massimo. Os Mistérios de Orfeu. Paulus, 2005.

 

    MACKEY, Albert G. Enciclopédia Maçônica. Madras,

 

    *Ritual de Mestre Maçom do REAA, página 13.

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