OS MORTOS INICIADOS:UM PARALELO ENTRE ORFEU, OSÍRIS, JESUS CRISTO E HIRAM ABIFF
Por:
Neemias Ximenes Mestre Maçom
1. Introdução
Diversas
tradições religiosas e esotéricas, desde os antigos mitos egípcios até os rituais
maçônicos, compartilham a narrativa simbólica da morte e renascimento do iniciado. Estas figuras e lendas,
muitas vezes chamadas de mortos iniciados,
representam a jornada interior de transformação espiritual que conduz o ser
humano à superação de si mesmo. Este trabalho propõe uma análise comparativa
entre quatro dessas figuras arquetípicas: Orfeu, Osíris, Jesus Cristo e Hiram
Abiff. O objetivo é identificar os elementos comuns que estruturam a narrativa da morte iniciática e compreender seu
valor simbólico e espiritual.
2.
O
Conceito do “Morto
Iniciado”
A
expressão "morto iniciado" refere-se àquele que, por meio de um
processo ritual ou simbólico, experimenta uma “morte” interior renunciando ao
ego, aos desejos materiais e à ignorância e
renasce transformado, elevado espiritualmente. Este processo é descrito como
fundamental nas escolas de mistério da Antiguidade, em tradições místicas e em
ordens iniciáticas como a maçonaria. A morte iniciática não é, necessariamente, física,
mas uma profunda
transformação do ser interior, análoga ao conceito de
metanoia no cristianismo ou de palingenesia
no pensamento platônico.
3.
Análise das Principais Figuras Iniciáticas
3.1 Orfeu: a descida aos infernos órficos
Orfeu, figura central da mitologia grega, é conhecido por
sua habilidade musical e por sua descida
ao Hades em busca de sua esposa,
Eurídice. Apesar de falhar na
missão de resgatá-la, Orfeu retorna transformado, e
sua lenda passa a ser base para os Mistérios
Órficos, que ensinavam uma doutrina de purificação da
alma e libertação do ciclo de reencarnações. A jornada ao mundo inferior
simboliza o confronto com as próprias sombras, uma etapa essencial na iniciação
espiritual.
3.2
Osíris: o deus desmembrado e ressuscitado
Na teologia
egípcia, Osíris é assassinado por seu irmão Seth e tem seu corpo esquartejado e espalhado. Ísis,
sua consorte, reconstitui seu corpo e, com rituais mágicos, o traz de volta à
vida. Osíris, então,
torna-se
soberano do submundo e símbolo da imortalidade da alma. A história de Osíris era centrada nos Mistérios
Osiríacos, que prometiam aos iniciados a ressurreição
espiritual após a morte. O mito reflete a crença egípcia na continuidade da
vida e na evolução espiritual através da morte.
3.3
Jesus Cristo: morte redentora e ressurreição gloriosa
A
narrativa de Jesus Cristo, no cristianismo, é o exemplo mais conhecido de morte
e ressurreição com significado salvífico. Crucificado e sepultado, Ele desce ao
mundo dos mortos e ressuscita ao terceiro dia. A tradição cristã interpreta
esse evento não apenas como uma redenção coletiva, mas também como modelo para o processo
espiritual individual: morrer para o pecado e renascer em Cristo. Nos
Evangelhos e nas cartas de Paulo, percebe-se um forte caráter iniciático, ainda
que reinterpretado na teologia posterior.
3.4
Hiram Abiff: o mártir
do templo maçônico
Hiram
Abiff, personagem chave do terceiro grau da maçonaria, é apresentado como o arquiteto
do Templo de Salomão. Segundo
o ritual, ele é assassinado
por três companheiros que desejam forçar-lhe os segredos da maestria. Hiram
mantém seu juramento até a morte,
sendo posteriormente "ressuscitado" em cerimônia simbólica
pelos Mestres. A lenda reflete a morte do ego profano e o renascimento como um
verdadeiro maçom e "homem de luz", símbolo da iniciação plena. O
túmulo de Hiram é o símbolo do estado de ignorância, e sua elevação, da
iluminação do espírito.
4.
O
Elemento Comum: A Morte como Portal de Sabedoria
Apesar das diferentes origens
culturais e religiosas, todas essas figuras compartilham o mesmo núcleo
simbólico: a morte como caminho de
transcendência. Cada uma, à sua maneira, representa a jornada iniciática do
ser humano rumo ao autoconhecimento e à união com o divino. Orfeu desce ao
submundo, Osíris é esquartejado, Jesus é crucificado, Hiram é assassinado. Todos morrem, mas todos renascem, transformados, mais próximos da
verdade eterna.
Esse padrão se
repete em outras tradições, como:
● Dionísio (Grécia): morto pelos Titãs,
renasce como deus da vida e
da natureza.
●
Mitra (Pérsia): enfrenta provas e ascende à luz celeste.
● Baldur (Nórdica): morto injustamente, aguarda
o Ragnarök para retornar e restaurar a ordem cósmica.
Em todas essas tradições, a morte é rito de passagem, nunca fim, mas transição.
5.
Interpretação Simbólica e Psicológica
Carl
Gustav Jung e Joseph Campbell interpretaram esses mitos como expressões do inconsciente coletivo. A morte
iniciática simboliza o processo de individuação, a integração da sombra, a
renúncia ao ego e a realização do Self. Para Jung, o Cristo crucificado, o
Osíris desmembrado e o Hiram assassinado representam etapas do processo
psíquico de transformação. Campbell, em sua teoria do "monomito", vê
todos esses heróis como expressões de uma mesma jornada: separação, iniciação
e retorno, a estrutura básica da evolução
espiritual humana.
6.
Conclusão
As
figuras de Orfeu, Osíris, Jesus Cristo e Hiram Abiff revelam um padrão
simbólico profundamente arraigado no imaginário humano: a necessidade de morrer
para si mesmo a fim de renascer para uma realidade mais elevada. O "morto
iniciado" é o herói espiritual, aquele que atravessa a escuridão da alma,
enfrenta o mistério da morte e retorna transformado, portador de luz e
sabedoria. Esses mitos não apenas expressam doutrinas religiosas antigas, mas ainda hoje inspiram
rituais iniciáticos, práticas espirituais e jornadas psicológicas de
autotransformação. A mensagem
é clara: quem deseja viver
plenamente deve, primeiro, aprender a morrer.
7. Bibliografia Sugerida
●
CAMPBELL, Joseph.
O Herói
de Mil Faces. Pensamento, 1989.
●
JUNG, Carl G. A Psicologia e o Alquimista. Vozes, 2000.
● ELIADE, Mircea.
Ritos e Símbolos da Iniciação. Martins
Fontes, 1992.
● FRAZER, James G. O Ramo de Ouro.
Zahar, 2009.
● ASSMANN, Jan. Morte e Vida no Antigo
Egito. Vozes, 2001.
●
PIETROSELLI, Massimo. Os
Mistérios de Orfeu. Paulus, 2005.
● MACKEY, Albert G. Enciclopédia Maçônica. Madras,
● *Ritual de Mestre
Maçom do REAA, página 13.
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