sábado, 27 de setembro de 2025

OS MORTOS INICIADOS:UM PARALELO ENTRE ORFEU, OSÍRIS, JESUS CRISTO E HIRAM ABIFF

 

OS MORTOS INICIADOS:UM PARALELO ENTRE ORFEU, OSÍRIS, JESUS CRISTO E HIRAM ABIFF

Por: Neemias Ximenes Mestre Maçom


“O INICIADO MATARÁ O INICIADOR”*

1.  Introdução

Diversas tradições religiosas e esotéricas, desde os antigos mitos egípcios até os rituais maçônicos, compartilham a narrativa simbólica da morte e renascimento do iniciado. Estas figuras e lendas, muitas vezes chamadas de mortos iniciados, representam a jornada interior de transformação espiritual que conduz o ser humano à superação de si mesmo. Este trabalho propõe uma análise comparativa entre quatro dessas figuras arquetípicas: Orfeu, Osíris, Jesus Cristo e Hiram Abiff. O objetivo é identificar os elementos comuns que estruturam a narrativa da morte iniciática e compreender seu valor simbólico e espiritual.

 

2.  O Conceito do “Morto Iniciado”

A expressão "morto iniciado" refere-se àquele que, por meio de um processo ritual ou simbólico, experimenta uma “morte” interior renunciando ao ego, aos desejos materiais e à ignorância e renasce transformado, elevado espiritualmente. Este processo é descrito como fundamental nas escolas de mistério da Antiguidade, em tradições místicas e em ordens iniciáticas como a maçonaria. A morte iniciática não é, necessariamente, física, mas uma profunda transformação do ser interior, análoga ao conceito de metanoia no cristianismo ou de palingenesia no pensamento platônico.

 

3.  Análise das Principais Figuras Iniciáticas

 

3.1  Orfeu: a descida aos infernos órficos

Orfeu, figura central da mitologia grega, é conhecido por sua habilidade musical e por sua descida ao Hades em busca de sua esposa, Eurídice. Apesar de falhar na missão de resgatá-la, Orfeu retorna transformado, e


sua lenda passa a ser base para os Mistérios Órficos, que ensinavam uma doutrina de purificação da alma e libertação do ciclo de reencarnações. A jornada ao mundo inferior simboliza o confronto com as próprias sombras, uma etapa essencial na iniciação espiritual.

3.2  Osíris: o deus desmembrado e ressuscitado

Na teologia egípcia, Osíris é assassinado por seu irmão Seth e tem seu corpo esquartejado e espalhado. Ísis, sua consorte, reconstitui seu corpo e, com rituais mágicos, o traz de volta à vida. Osíris, então,

torna-se soberano do submundo e símbolo da imortalidade da alma. A história de Osíris era centrada nos Mistérios Osiríacos, que prometiam aos iniciados a ressurreição espiritual após a morte. O mito reflete a crença egípcia na continuidade da vida e na evolução espiritual através da morte.

3.3  Jesus Cristo: morte redentora e ressurreição gloriosa

A narrativa de Jesus Cristo, no cristianismo, é o exemplo mais conhecido de morte e ressurreição com significado salvífico. Crucificado e sepultado, Ele desce ao mundo dos mortos e ressuscita ao terceiro dia. A tradição cristã interpreta esse evento não apenas como uma redenção coletiva, mas também como modelo para o processo espiritual individual: morrer para o pecado e renascer em Cristo. Nos Evangelhos e nas cartas de Paulo, percebe-se um forte caráter iniciático, ainda que reinterpretado na teologia posterior.

3.4  Hiram Abiff: o mártir do templo maçônico

Hiram Abiff, personagem chave do terceiro grau da maçonaria, é apresentado como o arquiteto do Templo de Salomão. Segundo o ritual, ele é assassinado por três companheiros que desejam forçar-lhe os segredos da maestria. Hiram mantém seu juramento até a morte, sendo posteriormente "ressuscitado" em cerimônia simbólica pelos Mestres. A lenda reflete a morte do ego profano e o renascimento como um verdadeiro maçom e "homem de luz", símbolo da iniciação plena. O túmulo de Hiram é o símbolo do estado de ignorância, e sua elevação, da iluminação do espírito.


4.  O Elemento Comum: A Morte como Portal de Sabedoria

Apesar das diferentes origens culturais e religiosas, todas essas figuras compartilham o mesmo núcleo simbólico: a morte como caminho de transcendência. Cada uma, à sua maneira, representa a jornada iniciática do ser humano rumo ao autoconhecimento e à união com o divino. Orfeu desce ao submundo, Osíris é esquartejado, Jesus é crucificado, Hiram é assassinado. Todos morrem, mas todos renascem, transformados, mais próximos da verdade eterna.

Esse padrão se repete em outras tradições, como:

     Dionísio (Grécia): morto pelos Titãs, renasce como deus da vida e da natureza.

 

        Mitra (Pérsia): enfrenta provas e ascende à luz celeste.

 

     Baldur (Nórdica): morto injustamente, aguarda o Ragnarök para retornar e restaurar a ordem cósmica.

 

Em todas essas tradições, a morte é rito de passagem, nunca fim, mas transição.

 

5.  Interpretação Simbólica e Psicológica

Carl Gustav Jung e Joseph Campbell interpretaram esses mitos como expressões do inconsciente coletivo. A morte iniciática simboliza o processo de individuação, a integração da sombra, a renúncia ao ego e a realização do Self. Para Jung, o Cristo crucificado, o Osíris desmembrado e o Hiram assassinado representam etapas do processo psíquico de transformação. Campbell, em sua teoria do "monomito", vê todos esses heróis como expressões de uma mesma jornada: separação, iniciação e retorno, a estrutura básica da evolução espiritual humana.

 

6.  Conclusão


As figuras de Orfeu, Osíris, Jesus Cristo e Hiram Abiff revelam um padrão simbólico profundamente arraigado no imaginário humano: a necessidade de morrer para si mesmo a fim de renascer para uma realidade mais elevada. O "morto iniciado" é o herói espiritual, aquele que atravessa a escuridão da alma, enfrenta o mistério da morte e retorna transformado, portador de luz e sabedoria. Esses mitos não apenas expressam doutrinas religiosas antigas, mas ainda hoje inspiram rituais iniciáticos, práticas espirituais e jornadas psicológicas de autotransformação. A mensagem é clara: quem deseja viver plenamente deve, primeiro, aprender a morrer.


 

7.  Bibliografia Sugerida

    CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. Pensamento, 1989.

 

    JUNG, Carl G. A Psicologia e o Alquimista. Vozes, 2000.

 

     ELIADE, Mircea. Ritos e Símbolos da Iniciação. Martins Fontes, 1992.

 

    FRAZER, James G. O Ramo de Ouro. Zahar, 2009.

 

    ASSMANN, Jan. Morte e Vida no Antigo Egito. Vozes, 2001.

 

    PIETROSELLI, Massimo. Os Mistérios de Orfeu. Paulus, 2005.

 

    MACKEY, Albert G. Enciclopédia Maçônica. Madras,

 

    *Ritual de Mestre Maçom do REAA, página 13.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

 

Comentário geral da instrução do Grau 17 Cavaleiro do Oriente e do Ocidente.

LuCaS


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A instrução do Grau 17 apresenta uma síntese da jornada espiritual do Maçom, marcada pela purificação e pelo sacrifício. A recepção pela ablução com água e pela efusão do sangue simboliza a dupla exigência do caminho iniciático: limpar-se das impurezas do mundo e estar disposto a entregar-se pela Pátria e pela Maçonaria. O Cavaleiro do Oriente e do Ocidente é aquele que, tendo sido purificado, não teme o sacrifício em nome da verdade e da fraternidade.

O cenário simbólico do Grande Conselho é ricamente composto por elementos cósmicos e espirituais: o sol, a lua e o arco-íris representam a verdade, a transitoriedade e a esperança universal. O heptágono inscrito no círculo expressa a plenitude moral e a união fraterna. No centro, a figura do Filho do Homem, com sete estrelas e rodeado por sete castiçais, evoca a sabedoria divina e a missão redentora do iniciado. Cada detalhe reforça o papel do Maçom como agente da luz em meio às sombras do mundo.

As letras gravadas nos vértices e ângulos do heptágono representam atributos divinos e virtudes humanas que devem guiar a conduta do Cavaleiro. Beleza, Divindade, Sabedoria, Poder, Honra, Glória e Força são qualidades que elevam o espírito; Fraternidade, União, Submissão, Discrição, Fidelidade, Prudência e Temperança moldam o caráter. Juntas, essas palavras formam um código ético que transcende o ritual e se aplica à vida cotidiana do Maçom, exigindo dele uma postura íntegra e vigilante.

O Livro dos Sete Selos, inspirado no Apocalipse, é uma alegoria que transmite lições sobre justiça, lealdade, sacrifício e vigilância. Cada selo revela uma dimensão da missão maçônica: prontidão, defesa, justiça, memória dos desvios[1], sacrifício pela verdade, poder disciplinar e exaltação das virtudes. A queima do incenso e o toque das trombetas concluem essa jornada com a promessa de glória e expansão da Maçonaria sobre as asas da Honra e da Fama.

Os sete deveres dos Cavaleiros do Oriente e do Ocidente consolidam esse ensinamento: trabalhar e meditar; esperar e crer; velar pela Maçonaria; socorrer os necessitados; ensinar a verdade; amar a verdade e desprezar a morte. Esses deveres não são apenas obrigações formais, mas expressam uma postura existencial diante da vida. O Cavaleiro é aquele que transcende o medo, vive com propósito e honra, e se torna guardião da luz em tempos de trevas.

Por fim, as palavras Zabulum e Abaddon encerram o mistério do Grau. Zabulum, palavra de passe, significa “presente de Deus” ou “honra”, e representa a dádiva divina que é a vocação maçônica. Abaddon, palavra sagrada, significa “destruidor”, evocando o poder de dissolver o erro e purificar pela verdade. Ambas têm sete letras, como os selos, as virtudes e os castiçais, e remetem ao estandarte Baucent dos Templários, símbolo da dualidade entre misericórdia e justiça. O Cavaleiro do Grau 17 é, assim, um herdeiro espiritual dessa tradição: benevolente com os irmãos e firme contra os inimigos da luz.

Paz Profunda!!!



[1] A expressão “memória dos desvios” refere-se ao simbolismo do Quarto Selo, que apresenta a caveira como imagem central. No contexto da instrução do Grau 17, essa caveira representa o Irmão que foi excluído da Loja por não respeitar seus juramentos. Ou seja, ela é um lembrete constante, uma “memória, dos erros, traições ou desvios de conduta que podem ocorrer dentro da Ordem. Essa memória não é para alimentar ressentimento, mas para manter viva a consciência da responsabilidade que cada Maçom assume ao ser iniciado. A caveira funciona como um símbolo de advertência: ela lembra que a quebra dos compromissos sagrados tem consequências, e que a integridade é um pilar inegociável da vida maçônica. Assim, “memória dos desvios” significa cultivar a vigilância ética e espiritual, aprendendo com os erros do passado para não os repetir.

 

Comentário à Terceira Instrução do Grau de Companheiro Maçom

 Comentário à Terceira Instrução do Grau de Companheiro Maçom

LuCaS


        A terceira instrução do grau de Companheiro Maçom é uma verdadeira síntese filosófica e simbólica que convida o iniciado a transcender a mera compreensão intelectual e adentrar o terreno da meditação profunda. Ela articula uma visão do universo e do ser humano como estruturas interligadas por princípios numéricos, geométricos e espirituais, revelando que o caminho maçônico é, antes de tudo, uma jornada de interiorização e de ascensão consciente.

A instrução parte da ideia de que os números não são apenas quantidades, mas qualidades espirituais. Cada número representa um estágio de desenvolvimento, uma chave para a compreensão do mundo e de si mesmo. O Aprendiz lida com os fundamentos (1 a 4), o Companheiro com a realização e superação dos elementos (4 a 7), e o Mestre com a transcendência e a integração plena (7 a 10). Essa progressão não é arbitrária, mas sim profundamente enraizada na tradição pitagórica, onde o número dez representa a totalidade, o ciclo completo, a perfeição da manifestação.

A instrução também mergulha na simbologia geométrica, atribuindo significados espirituais às formas: o ponto (1) como origem, a linha (2) como ação, a superfície (3) como plano das ideias, e o sólido (4) como obra realizada. Essa sequência revela que toda criação parte do invisível e se concretiza no visível, e que o iniciado deve compreender essa dinâmica para realizar sua própria obra interior.

Outro ponto central é a leitura esotérica do Tetragrama hebraico (YHWH), que é interpretado como uma estrutura quaternária de ação: princípio ativo, verbo, meio e resultado. Essa leitura não apenas conecta a tradição judaica ao simbolismo maçônico, mas também reforça a ideia de que toda ação verdadeira é composta por esses quatro elementos, refletindo a própria estrutura do universo.

Essa terceira instrução avança para a simbologia dos elementos naturais, Terra, Água, Fogo e Ar, e introduz a quintessência como o princípio espiritual que os transcende. Aqui, o número cinco representa o ser humano em sua plenitude, capaz de dominar os elementos e manifestar sua verdadeira natureza. A luta do Companheiro contra os elementos é, portanto, uma metáfora para o processo de individuação, onde o homem deixa de ser um autômato reativo e torna-se um criador consciente.

A Estrela Flamejante, símbolo do grau de Companheiro, é apresentada como o astro do microcosmo humano, iluminando suavemente o caminho do iniciado. Ela representa a luz interior que começa a brilhar, ainda tímida, mas já reveladora. Em contraponto, o Hexagrama, formado por dois triângulos equiláteros entrelaçados, representa o macrocosmo, a união dos opostos, a síntese entre o masculino e o feminino, entre o ativo e o passivo. Essa figura é o símbolo da harmonia universal, da integração entre o eu e o todo.

Por fim, a instrução sugere que o verdadeiro trabalho do Companheiro é realizar, transformar, superar. Ele não pode se contentar com a teoria; deve aplicar, lutar, vencer. O número quatro, seu ponto de partida, é o símbolo da matéria, da obra a ser moldada. O cinco, seu objetivo, é a vitória do espírito sobre a matéria. E o seis, que começa a se revelar, é a atmosfera psíquica que envolve essa transformação, preparando o caminho para a iluminação maior.

Em suma, essa terceira instrução é um convite à alquimia interior. Ela ensina que o universo é regido por leis simbólicas e que o iniciado, ao compreendê-las e vivenciá-las, torna-se capaz de transformar a si mesmo e o mundo. É uma cartografia espiritual que orienta o Companheiro na travessia do labirinto, guiado pela luz da Estrela Flamejante e pela sabedoria dos números. Não se trata apenas de saber, trata-se de ser.

Paz Profunda!!!

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Durante a vida: produção, amor e acolhimento como fundamentos da existência significativa

Durante a vida: produção, amor e acolhimento como fundamentos da existência significativa

LuCaS

 


Resumo: Este artigo propõe uma reflexão filosófica e simbólica sobre o sentido da vida, articulando três dimensões essenciais da existência: produzir, amar e acolher. A partir da premissa de que a ausência dessas práticas configura uma vida não vivida, o texto dialoga com pensadores como Viktor Frankl, Simone de Beauvoir, Emmanuel Levinas, Martin Buber, Hannah Arendt, Rubem Alves, Edgar Morin, Erich Fromm e Paul Ricoeur. A análise é entrelaçada com os princípios da Maçonaria, compreendida como escola ética e iniciática que convida seus membros à construção de um legado humano e espiritual. O tempo é abordado não apenas como cronologia, mas como espaço simbólico de sentido. Conclui-se que viver é um ato ético, e que a plenitude da vida está na capacidade de transformar o tempo em legado.

Palavras-chave: Sentido da vida; Maçonaria; Ética; Produção simbólica; Amor; Acolhimento; Filosofia existencial.

 

1. Introdução

A distinção entre existir e viver é uma das mais urgentes da filosofia contemporânea. Em tempos de aceleração e superficialidade, o chamado à profundidade existencial torna-se um imperativo ético. Este artigo parte da afirmação: “Quem durante a vida não produziu, amou ou acolheu, não viveu a vida, apenas passou por ela”. Tal proposição será examinada à luz de pensadores que abordam o sentido da vida, a responsabilidade com o outro e a construção de significado, articulando essas ideias com os valores da Maçonaria.

2. Produzir: a construção do legado

Produzir é mais do que gerar resultados, é deixar marcas que resistem ao tempo. É transformar o instante em permanência, o gesto em memória, o esforço em legado. A produção significativa não se limita à esfera material; ela se estende ao simbólico, ao ético, ao afetivo. Produzir é inscrever-se na história, mesmo que em linhas discretas.

O psiquiatra e filósofo Viktor Frankl (2008), em “Em busca de sentido, afirma que o ser humano é movido pela necessidade de encontrar propósito, mesmo em meio ao sofrimento. Para ele, a vida só se torna suportável quando está orientada por um sentido que transcende o imediato. Produzir, nesse contexto, é uma forma de responder à pergunta fundamental: por que estou aqui?

Edgar Morin (2004), em “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, destaca que a complexidade da vida exige uma produção que integre ética, conhecimento e sensibilidade. O saber fragmentado não basta; é preciso uma inteligência que compreenda o humano em sua totalidade. Produzir, portanto, é também educar, é formar, é cultivar.

Hannah Arendt (1958), em “A condição humana, distingue três atividades fundamentais: labor, trabalho e ação. O trabalho é aquilo que constrói o mundo durável, as obras, os legados, os monumentos da cultura. Produzir, nesse sentido, é participar da construção do mundo humano, é deixar algo que permaneça após a partida.

No contexto maçônico, produzir é lapidar a pedra bruta. É transformar potencial em realização. É contribuir para o edifício invisível da humanidade, aquele que não se vê com os olhos, mas se sente com o espírito. O maçom é chamado a ser um construtor simbólico, alguém que trabalha não apenas com ferramentas, mas com virtudes. Cada ação ética, cada palavra justa, cada gesto fraterno é uma pedra colocada nesse templo universal.

Produzir também é resistir à tentação da indiferença. É escolher o envolvimento, mesmo quando o mundo parece desmobilizado. É assumir a responsabilidade de deixar o mundo um pouco melhor do que se encontrou. Como dizia Albert Schweitzer, médico e teólogo: “O exemplo não é a coisa mais importante que se pode transmitir aos outros. É a única”.

3. Amar: o compromisso com o outro

Amar é, antes de tudo, um ato de reconhecimento. É enxergar no outro não apenas uma presença, mas uma dignidade. É afirmar que o outro importa, que sua existência tem valor, que sua liberdade merece ser protegida. Amar é comprometer-se com o bem-estar do outro, mesmo quando isso exige renúncia, escuta, paciência.

Simone de Beauvoir (1947), em “A ética da ambiguidade, afirma que a liberdade só se realiza quando se compromete com a liberdade do outro. Para ela, a ética não nasce da abstração, mas da convivência. Amar, portanto, é um gesto ético: é reconhecer que o outro não é obstáculo à minha liberdade, mas condição para que ela se torne plena.

Emmanuel Levinas (1961), em “Totalidade e Infinito, aprofunda essa ideia ao afirmar que o rosto do outro nos interpela eticamente. O outro não é um objeto de conhecimento, mas um sujeito que nos convoca à responsabilidade. Amar, nesse sentido, é responder ao chamado do outro, é deixar-se afetar, é assumir o dever de cuidar.

Martin Buber, em sua “filosofia do diálogo”, propõe que a relação “Eu-Tu” é a base da vida autêntica. Amar é entrar nessa relação sem máscaras, sem utilidade, sem cálculo. É estar com o outro como quem está com o mistério, com reverência, com entrega, com verdade.

Erich Fromm, em “A arte de amar (1956), afirma que o amor não é um sentimento passivo, mas uma prática ativa. Amar exige disciplina, humildade, coragem. É uma arte que se aprende, que se cultiva, que se renova. Para Fromm, o amor verdadeiro é aquele que une maturidade emocional com compromisso ético.

No contexto maçônico, o amor fraterno é mais do que sentimento: é prática, é vínculo, é dever. O maçom é chamado a amar não apenas os que lhe são próximos, mas todos os que compartilham da condição humana. O amor fraterno é o cimento que une as pedras do templo, é o que transforma indivíduos em Irmãos, é o que sustenta a construção coletiva.

Amar, na Maçonaria, é também reconhecer que o outro é um espelho. Que sua dor é minha dor, que sua alegria é minha alegria. É viver o princípio da alteridade como fundamento da fraternidade. É agir com benevolência, com justiça, com compaixão. Amar é, enfim, resistir à indiferença. É escolher o vínculo em vez do isolamento. É afirmar que a vida só tem sentido quando é compartilhada. Quem ama, vive. Quem se compromete com o outro, constrói. Quem transforma o afeto em ação, deixa legado.

4. Acolher: o gesto que humaniza

Acolher é mais do que receber. É reconhecer. É permitir que o outro exista com dignidade, sem precisar pedir licença para ser quem é. Acolher é um gesto radicalmente humano, porque exige escuta, presença e disponibilidade. É o oposto da indiferença. É a afirmação de que o outro importa, não por sua utilidade, mas por sua existência.

Martin Buber (1970), em “Eu e Tu, propõe que a vida autêntica se dá na relação dialógica, onde o outro é visto como um “Tu” e não como um “Isso”. Acolher é entrar nessa relação sem máscaras, sem hierarquias, sem distâncias artificiais. É reconhecer no outro um parceiro de existência, alguém com quem se compartilha o mistério da vida.

Hannah Arendt (1958), em “A condição humana”, afirma que a ação humana só ganha sentido no espaço público, no encontro com os outros. Acolher, nesse sentido, é criar esse espaço, é tornar possível a convivência, o diálogo, a pluralidade. É construir pontes onde antes havia muros.

Paul Ricoeur, filósofo da hermenêutica, acrescenta que o acolhimento é um ato de hospitalidade ética. Em “Soi-même comme un autre (1990), ele defende que compreender o outro é também transformar-se. Acolher é permitir que o outro nos afete, nos desestabilize, nos ensine.

Levinas, em sua filosofia da alteridade, afirma que o rosto do outro nos convoca à responsabilidade. Acolher é responder a esse chamado, é assumir o dever de proteger, de cuidar, de garantir que o outro não seja reduzido à invisibilidade.

Rubem Alves (2002) reforça que “a vida é feita de encontros”, e que acolher é estar disponível para esses encontros, mesmo quando exigem escuta, paciência e entrega. Acolher é abrir espaço para o inesperado, para o diferente, para o que não se encaixa nos nossos moldes.

No contexto maçônico, acolher é um dos pilares da fraternidade. O maçom é chamado a ser abrigo, a ser ponte, a ser presença. Acolher o outro é reconhecer nele um Irmão, mesmo quando suas ideias, suas dores ou suas origens são distintas. É viver o princípio da igualdade na prática, não como conceito abstrato, mas como ação concreta.

Acolher também é um gesto iniciático. É o que permite que o novo seja recebido, que o desconhecido seja integrado, que o templo seja ampliado. Sem acolhimento, não há construção coletiva. Sem acolhimento, não há humanidade. Acolher é resistir à lógica da exclusão. É afirmar que todos têm lugar. Que todos têm voz. Que todos têm valor. É o gesto que humaniza, e que transforma o mundo em um espaço habitável para todos.

5. Tempo e sentido: entre o cronológico e o simbólico

O tempo da vida não é apenas uma sucessão de minutos, dias e anos. Ele é também uma experiência qualitativa, carregada de sentido, memória e transformação. A distinção entre o tempo cronológico (chronos) e o tempo vivido (kairos) é fundamental para compreender a profundidade da existência. O primeiro é medido por relógios; o segundo, por significados.

Na tradição maçônica, o tempo é sempre simbólico. Cada sessão ritualística não é apenas um encontro marcado no calendário, é uma travessia interior, uma oportunidade de lapidar a pedra bruta do ser. Cada palavra proferida, cada silêncio respeitado, cada gesto repetido carrega em si a densidade de séculos de sabedoria. O tempo maçônico é iniciático: ele não passa, ele transforma.

Henri Bergson, filósofo francês, em “Matéria e Memória (1896), distingue o tempo da ciência, homogêneo e mensurável, do tempo da consciência, que é fluido, subjetivo e carregado de duração. Para Bergson, viver é mergulhar nesse tempo interior, onde os instantes não se acumulam, mas se aprofundam. O tempo que não é habitado com sentido torna-se vazio, indiferente, esquecido.

Byung-Chul Han, pensador contemporâneo, em “O aroma do tempo (2009), alerta para a crise temporal da modernidade: vivemos acelerados, mas sem profundidade. O tempo perdeu seu ritmo, sua narrativa, sua capacidade de gerar sentido. A Maçonaria, ao contrário, resgata o tempo como espaço de construção, lento, ritualizado, significativo.

Paul Tillich, teólogo e filósofo, afirma que “o tempo é o horizonte da existência”. É nele que se desenrolam nossas escolhas, nossas perdas, nossos legados. O tempo é o palco onde se encena a liberdade humana. E essa liberdade só se realiza quando é preenchida por ações que produzem, amam e acolhem.

Na linguagem simbólica da Maçonaria, o tempo é também um ciclo. O Oriente e o Ocidente não são apenas direções, são metáforas do nascer e do pôr, do início e do fim, da luz e da reflexão. O tempo é o fio que une o Aprendiz ao Mestre, o passado ao futuro, o indivíduo à coletividade.

Quem não produz, não ama, não acolhe, não vive. É apenas uma sombra entre colunas, uma pedra que nunca foi tocada pelo cinzel da consciência. O tempo que não é transformado em sentido é tempo perdido, não porque passou, mas porque não foi vivido.

Por isso, o verdadeiro iniciado não teme o tempo. Ele o honra. Ele o habita. Ele o transforma em legado.

6. Considerações finais

Viver é deixar rastro. É inscrever-se na memória do mundo por meio de gestos, vínculos e legados. É transformar o tempo em matéria de sentido, e não apenas em sucessão de dias. A vida plena não se mede pela duração, mas pela densidade, pela capacidade de produzir, amar e acolher com autenticidade.

A Maçonaria, como escola simbólica e ética, convida seus iniciados a transcender a mera existência. Ser maçom é comprometer-se com o aperfeiçoamento interior e com a construção coletiva de um mundo mais justo, fraterno e iluminado. É viver com consciência, com propósito, com presença.

Produzir é lapidar a pedra bruta, é transformar potencial em realização, é contribuir para o edifício invisível da humanidade. Amar é reconhecer no outro um sujeito de valor, é construir vínculos que transcendem o interesse pessoal. Acolher é abrir espaço para que o outro exista com dignidade, é afirmar a alteridade como fundamento da fraternidade.

Esses três pilares, produção, amor e acolhimento, não são apenas virtudes individuais. São fundamentos civilizatórios. São os traços que sustentam o templo simbólico da humanidade. E quem os negligencia, mesmo que tenha respirado, não viveu. Foi apenas uma sombra entre colunas, uma presença sem legado, uma existência sem sentido.

Como nos lembra Fernando Pessoa, “vale mais ser um homem de ação do que um homem de intenção”. A vida exige movimento, entrega, compromisso. E o tempo, esse que parece sempre disponível, é na verdade o bem mais escasso. Cada dia vivido sem sentido é uma oportunidade perdida de construir, de amar, de acolher.

Por isso, viver é um ato ético. É uma escolha que se renova a cada instante. É a decisão de transformar o tempo em espaço de sentido, como quem grava, com firmeza e ternura, os traços da alma no Livro da Vida.

Referências

ALVES, Rubem. O que é religião. São Paulo: Loyola, 2002.

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1958.

BEAUVOIR, Simone de. A ética da ambiguidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1947.

BERGSON, Henri. Matéria e Memória. São Paulo: Martins Fontes, 1896.

BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 1970.

FRANKL, Viktor. Em busca de sentido. São Paulo: Vozes, 2008.

FROMM, Erich. A arte de amar. Rio de Janeiro: Zahar, 1956.

HAN, Byung-Chul. O aroma do tempo. Petrópolis: Vozes, 2009.

LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições 70, 1961.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2004.

PESSOA, Fernando. Obras completas. Lisboa: Ática, 1980.

RICOEUR, Paul. Soi-même comme un autre. Paris: Seuil, 1990.


sábado, 20 de setembro de 2025

A Pena e o Coração - A Justiça Iniciática e o Julgamento de Osíris

 

A Pena e o Coração - A Justiça Iniciática e o Julgamento de Osíris

LuCaS

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No Grau 31 do Rito Escocês Antigo e Aceito, o iniciado é conduzido a um tribunal que não pertence ao mundo profano. Ali, não há juízes togados, nem códigos escritos por mãos humanas. O que se ergue diante dele é um quadro ancestral: o Julgamento de Osíris, cena extraída da mitologia egípcia, mas transfigurada em alegoria iniciática. Não se trata de uma representação decorativa, mas de uma chave simbólica que abre as portas da consciência superior.

Osíris, deus da regeneração e da justiça espiritual, preside o tribunal do além. À sua frente, o coração do falecido, símbolo das ações, intenções e omissões, é colocado num dos pratos da balança. No outro prato, repousa a pena de Maat, deusa da verdade, da ordem cósmica e da harmonia universal. Anúbis, o psicopompo, realiza a pesagem com a neutralidade dos que não julgam, mas apenas revelam. Thoth[1], senhor da sabedoria e escriba dos deuses, registra o resultado com precisão divina. E Ammit, criatura híbrida, parte leão, parte hipopótamo, parte crocodilo, aguarda silenciosamente o veredito: devorar o injusto ou permitir sua travessia para os Campos Elísios.

Essa cena não é apenas mitológica. É um espelho. Um espelho que não reflete o rosto, mas a essência. O iniciado, agora investido da função judiciária, é chamado a julgar com retidão, mas também com compaixão. O tribunal que se apresenta não é externo, é interior. A balança não mede delitos, mede consciência. A pena de Maat não exige perfeição, apenas verdade. E a verdade, no contexto iniciático, não é uma fórmula, é uma vivência. É o reconhecimento do erro, a coragem da reparação, a humildade diante do mistério.

No silêncio ritual, o maçom descobre que o julgamento mais profundo não se dá sob os olhos do mundo, mas na penumbra da própria consciência, onde não há testemunhas, apenas o eco da verdade. Cada gesto, cada escolha, cada silêncio pesa. E o coração, esse órgão que pulsa segredos, pode ser leve ou pesado, não pela ausência de erro, mas pela presença de arrependimento e lucidez. A iniciação não é uma fuga da culpa, mas uma travessia pela responsabilidade. O iniciado apreende que não há escapatória simbólica: tudo o que foi feito permanece, e tudo o que foi evitado também.

O Grau 31 ensina que justiça sem misericórdia é tirania, e que rigor sem escuta é cegueira. O iniciado não é um executor da lei, mas um guardião do equilíbrio. Ele depreende que julgar é, antes de tudo, compreender. Que punir é menos eficaz que reconciliar. Que o verdadeiro tribunal é aquele onde o amor e a verdade caminham juntos, não como opostos, mas como complementares. A função judiciária, nesse grau, não é um poder, é um serviço. E servir à justiça é servir à luz.

Assim, o quadro de Osíris não é uma pintura simbólica: é uma convocação. Cada maçom que o contempla é convidado a colocar seu próprio coração na balança. E a pergunta que ecoa não é “o que fizeste?”, mas “quem te tornaste?”. Pois o julgamento iniciático não se baseia em atos isolados, mas na trajetória do ser. Não se trata de pesar o passado, mas de medir o presente à luz do eterno.

Que cada passo na senda iniciática seja uma preparação para esse instante, quando não houver mais véus, e tudo o que fomos estiver diante da pena. E que, ao final, o coração seja leve, não por ter sido perfeito, mas por ter sido verdadeiro.

Paz Profunda!!!



[1] No Egito, houve um velho deus deste país, deus a quem é consagrada a ave que chamam íbis, e a quem chamavam Thoth. Dizem que foi ele quem inventou os números e o cálculo, a geometria e a astronomia, bem como o jogo das damas e dos dados e, finalmente, fica sabendo, os caracteres gráficos (escrita).

terça-feira, 9 de setembro de 2025

O Legado Iniciático do Egito Antigo na Maçonaria Moderna: Um Estudo Comparativo de Rituais, Simbolismo e Transcendência

                                                                                                                                                      LuCaS

Resumo: Este artigo investiga as conexões simbólicas e rituais entre as cerimônias egípcias de coroação faraônica e os ritos iniciáticos da Maçonaria moderna. A partir de uma análise comparativa, demonstra-se como elementos centrais da espiritualidade egípcia, como a transfiguração do soberano, o uso de símbolos sagrados, a arquitetura ritual e a busca pela harmonia cósmica, foram assimilados e reinterpretados por correntes esotéricas ocidentais, especialmente a Maçonaria e o Rosacrucianismo. O estudo também examina rituais específicos, como o Festival Sed e o grau de Mestre Maçom, evidenciando a persistência de estruturas iniciáticas baseadas na morte simbólica e renascimento espiritual.

Palavras-chave: Egito Antigo, Maçonaria, iniciação, simbolismo, esoterismo, Festival Sed, Hiram Abiff, maat.

 

The Initiatic Legacy of Ancient Egypt in Modern Freemasonry: A Comparative Study of Rituals, Symbolism, and Transcendence

LuCaS

Abstract: This article explores the symbolic and ritual connections between the Egyptian ceremonies of pharaonic coronation and the initiatory rites of modern Freemasonry. Through a comparative analysis, it demonstrates how core elements of Egyptian spirituality, such as the sovereign’s transfiguration, the use of sacred symbols, ritual architecture, and the pursuit of cosmic Harmony, were assimilated and reinterpreted by Western esoteric traditions, particularly Freemasonry and Rosicrucianism. The study also examines specific rituals, including the Sed Festival and the Master Mason degree, highlighting the enduring presence of initiatory structures based on symbolic death and spiritual rebirth.

Keywords: Ancient Egypt, Freemasonry, initiation, symbolism, esotericism, Sed Festival, Hiram Abiff, maat.

 

O Legado Iniciático do Egito Antigo na Maçonaria Moderna: Um Estudo Comparativo de Rituais, Simbolismo e Transcendência

LuCaS

 

A Maçonaria, embora tenha emergido oficialmente na Europa moderna, carrega em sua estrutura ritualística e simbólica uma profunda reverência por tradições ancestrais, especialmente as do Egito Antigo. Essa conexão não é meramente estética ou alegórica, mas estrutural e espiritual, refletindo uma continuidade iniciática que transcende os séculos. O Egito, berço de mistérios e arquétipos espirituais, ofereceu à Maçonaria e a outras correntes esotéricas modernas um modelo de iniciação, poder e transcendência que ainda hoje ressoa nos Ritos, rituais e ensinamentos das ordens iniciáticas.

No cerne dessa conexão está o conceito de iniciação como transfiguração. No Egito, a coroação do faraó não era apenas um ato político, mas uma verdadeira metamorfose espiritual. O rei deixava de ser um homem comum para tornar-se a encarnação de Hórus, assumindo a missão de manter a maat, a ordem cósmica que sustenta o universo. Esse processo de elevação espiritual encontra paralelo direto na Maçonaria, onde o iniciado, ao adentrar os mistérios da Ordem, passa por uma morte simbólica do ego e renasce como buscador da luz. O grau de Mestre Maçom, em especial, dramatiza essa passagem por meio da lenda de Hiram Abiff, o arquétipo do mestre construtor que é assassinado por não revelar os segredos da arte. O iniciado revive essa morte e é “levantado” como novo ser, portador da sabedoria oculta.

Ambas as tradições compartilham uma visão ritualística como passagem entre estados de consciência. O rito não é apenas cerimônia, é transformação. E essa transformação é mediada por símbolos sagrados que carregam múltiplos significados. No Egito, o faraó recebia insígnias como o Ankh, símbolo da vida eterna; o cetro Heqa, que representava autoridade; e a coroa Pschent, que simbolizava a unificação do Alto e Baixo Egito. Esses objetos não eram meramente decorativos, mas instrumentos mágicos que canalizavam forças espirituais. Na Maçonaria, ferramentas como o esquadro, o compasso, o nível e o malhete são igualmente carregadas de significados operativos, éticos e cósmicos. Elas representam virtudes como retidão, equilíbrio, justiça e ação consciente, atributos que o iniciado deve cultivar em sua jornada interior.

A arquitetura também desempenha papel fundamental em ambas as tradições. Os templos egípcios, como os de Karnak e Luxor, eram construídos com alinhamentos astronômicos e proporções sagradas, refletindo a ordem do cosmos. Eram espaços onde o tempo humano se encontrava com o tempo divino. Da mesma forma, as lojas maçônicas são concebidas como microcosmos do universo, orientadas simbolicamente de leste a oeste, e decoradas com colunas, estrelas e painéis que remetem à criação e à ordem universal. O espaço ritual é, em ambos os casos, um espelho do cosmos, um lugar onde o iniciado pode reencontrar sua origem espiritual.

A hierarquia e o mistério são outros pontos de convergência. No Egito, o faraó ocupava o ápice da hierarquia espiritual e política, e os sacerdotes guardavam os mistérios religiosos com rigor. Na Maçonaria, a estrutura é igualmente hierárquica, com graus de conhecimento e iniciação que revelam progressivamente os segredos da Ordem. O segredo, o silêncio e o respeito à hierarquia são pilares fundamentais em ambas as práticas, pois o conhecimento sagrado não pode ser profanado, ele deve ser conquistado por mérito e maturidade espiritual.

A busca pela harmonia universal é talvez o elo mais profundo entre essas tradições. O faraó tinha como missão manter a maat, garantindo o equilíbrio entre forças cósmicas, sociais e espirituais. O maçom, por sua vez, é chamado a trabalhar pela harmonia entre os homens, pela construção de um templo interior e pela busca da luz. Ambas as tradições compartilham uma visão de mundo onde o ser humano é um agente da ordem universal, responsável por restaurar o equilíbrio perdido e perpetuar a sabedoria ancestral.

Esse paralelo se aprofunda quando observamos rituais específicos, como o Festival Sed egípcio e o grau de Mestre Maçom. O Festival Sed, realizado após 30 anos de reinado, era uma cerimônia de renovação espiritual do faraó, que passava por provas físicas e rituais simbólicos para reafirmar sua conexão com os deuses. Era uma espécie de rejuvenescimento cósmico, onde o rei renascia como novo governante. Já o grau de Mestre Maçom envolve a vivência simbólica da morte de Hiram Abiff e sua ressurreição espiritual, marcando o renascimento do iniciado como mestre, aquele que compreende os mistérios ocultos. Ambos os rituais envolvem a morte simbólica do ego e a renovação da consciência, revelando que o verdadeiro poder é espiritual, e não político.

A influência egípcia na Maçonaria e no Rosacrucianismo é explícita e profunda. O Rito Egípcio da Maçonaria, desenvolvido no século XVIII, incorpora diretamente símbolos e mitos egípcios. Os graus superiores fazem referência a Ísis, Osíris, Thoth e aos Mistérios do Nilo. O iniciado é conduzido por câmaras que representam estágios da alma, evocando o Livro dos Mortos e os julgamentos de Osíris. O objetivo é despertar o “faraó interior”, o mestre espiritual que governa com sabedoria e equilíbrio. A Ordem Rosacruz, especialmente em suas vertentes modernas como AMORC, reverencia o Egito como berço da sabedoria esotérica. Seus ensinamentos incluem meditações com símbolos egípcios, estudos sobre a alma e o cosmos, e práticas que remetem aos sacerdotes de Heliópolis. O uso do Ankh, do escaravelho, da pirâmide e do Sol como fonte de iluminação espiritual revela uma continuidade hermética que conecta Thoth (Hermes Trismegisto) à tradição alquímica e cabalística.

Como mostram estudos sobre sociedades ocultistas, os Mistérios Egípcios influenciaram diretamente a linguagem simbólica e os rituais da Maçonaria especulativa e da Ordem Rosacruz, especialmente através do Hermetismo e da tradição iniciática dos templos egípcios. O que une o Festival Sed, o grau de Mestre Maçom e as ordens esotéricas modernas é a ideia de que o verdadeiro poder não é político, mas espiritual. O iniciado, seja faraó, maçom ou rosacruz, deve morrer para o mundo profano e renascer como guardião da ordem cósmica. O Egito não é apenas uma inspiração estética: é o arquétipo da iniciação, da sabedoria velada e da transcendência.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

Assmann, J. (2001). The Search for God in Ancient Egypt. Cornell University Press.

Bloch, M. (1983). Les rois thaumaturges. Gallimard.

D’Altroy, T. N. (2014). The Incas. Wiley-Blackwell.

Doniger, W. (2009). The Hindus: An Alternative History. Penguin Books.

Hornung, E. (1999). The Ancient Egyptian Books of the Afterlife. Cornell University Press.

Lehner, M. (1997). The Complete Pyramids. Thames & Hudson.

Pinch, G. (2002). Egyptian Myth: A Very Short Introduction. Oxford University Press.

Puett, M. (2002). To Become a God: Cosmology, Sacrifice, and Self-Divinization in Early China. Harvard University Asia Center.

Wilkinson, T. A. H. (2010). The Rise and Fall of Ancient Egypt. Random House.

Wikipédia. Coroação do faraó 

O Faraó como Eixo Cósmico: A Dimensão Esotérica da Coroação no Egito Antigo

 LuCaS

Resumo: Este artigo investiga a cerimônia de coroação dos faraós do Egito Antigo sob uma perspectiva esotérica e simbólica, destacando sua função como ritual de transfiguração espiritual e renovação cósmica. Através da análise de elementos rituais, mitológicos e arquitetônicos, demonstra-se como o faraó era concebido como mediador entre os deuses e os homens. O estudo também traça paralelos com outras culturas místicas da Antiguidade, evidenciando a universalidade da sacralização do poder político.

Palavras-chave: Egito Antigo, faraó, coroação, esoterismo, ritual, poder sagrado, maat.

 The Pharaoh as Cosmic Axis: The Esoteric Dimension of Coronation in Ancient Egypt

LuCaS

Abstract This article investigates the coronation ceremony of the pharaohs of Ancient Egypt from an esoteric and symbolic perspective, highlighting its function as a ritual of spiritual transfiguration and cosmic renewal. Through the analysis of ritual, mythological, and architectural elements, it demonstrates how the pharaoh was conceived as a mediator between the gods and humankind. The study also draws parallels with other mystical cultures of Antiquity, revealing the universality of the sacralization of political power.

Keywords: Ancient Egypt, pharaoh, coronation, esotericism, ritual, sacred power, maat.

 

O Faraó como Eixo Cósmico: A Dimensão Esotérica da Coroação no Egito Antigo

 

1. Introdução

A figura do faraó no Egito Antigo transcende os limites da governança secular. Considerado uma manifestação divina, o faraó era visto como encarnação de Hórus em vida e de Osíris após a morte. Sua coroação não se limitava a uma formalidade dinástica, mas constituía um ritual de profunda significação espiritual, que reconfigurava a ordem cósmica e legitimava sua função como mantenedor da maat, princípio de equilíbrio, verdade e justiça universal (Assmann, 2001). Este artigo propõe uma análise da coroação faraônica como um evento esotérico, explorando seus símbolos, ritos e implicações cosmológicas.

2. A Teologia do Poder Real

A teologia egípcia atribuía ao faraó uma origem divina. Ele era o elo entre o mundo dos deuses e o mundo dos homens, responsável por manter a harmonia cósmica. Essa concepção está presente desde o período pré-dinástico, como evidenciado na Paleta de Narmer, que representa o rei como agente da unificação e da ordem (Wilkinson, 2010). A legitimidade do faraó derivava não apenas de sua linhagem, mas de sua capacidade de encarnar os princípios divinos e renovar o cosmos por meio de sua investidura.

3. Rituais de Purificação e Consagração

A cerimônia de coroação iniciava-se com ritos de purificação, nos quais o faraó era banhado com águas sagradas do Nilo e ungido com óleos aromáticos. Esses rituais visavam eliminar impurezas físicas e espirituais, preparando o corpo e a alma para receber o poder divino. Segundo registros da Pedra de Palermo, o "ano da coroação" era marcado por festivais, fundações de cidades e oferendas aos deuses, consolidando a renovação da maat (Coroação do faraó – Wikipédia).

4. Simbolismo das Insígnias Reais

As insígnias reais, como a coroa Pschent, o cetro Heqa, o chicote Nekhakha e o símbolo Ankh, possuíam significados esotéricos profundos. Representavam autoridade, disciplina, vida eterna e conexão com o mundo espiritual. A barba postiça e o manto Nemes reforçavam a identidade divina do faraó, evocando Osíris (Pinch, 2002). Esses objetos não eram meramente decorativos, mas instrumentos mágicos que canalizavam forças espirituais e protegiam o faraó contra o caos.

5. Espaço Sagrado e Geometria Cósmica

Os templos egípcios, como os de Karnak e Luxor, eram construídos com base em princípios de geometria sagrada e alinhamentos astronômicos. Esses espaços funcionavam como portais entre o mundo terreno e o divino, tornando a cerimônia de coroação uma reconfiguração do universo (Lehner, 1997). A arquitetura ritualística dos templos reforçava a ideia de que o faraó era o eixo que sustentava o cosmos.

6. A Coroação como Reencenação Mítica

A coroação era também uma dramatização dos mitos fundadores do Egito. O faraó, ao assumir o trono, reencenava a vitória de Hórus sobre Seth, reafirmando a supremacia da ordem sobre o caos. Essa reencenação simbólica legitimava seu poder e renovava a maat (Hornung, 1999). A Paleta de Narmer, por exemplo, representa o rei derrotando inimigos com uma maça cerimonial, gesto que simboliza a renovação da ordem cósmica.

7. Parâmetros Comparativos: Outras Culturas Místicas

A sacralização do poder é um traço comum em diversas civilizações:

  • Índia Védica: Os rituais Rajasuya e Ashvamedha consagravam o rei como sustentador do dharma, com sacrifícios e mantras que o conectavam ao cosmos (Doniger, 2009).
  • China Imperial: O imperador era o “Filho do Céu”, legitimado pelo Mandato Celestial, e sua coroação envolvia oferendas no Templo do Céu (Puett, 2002).
  • Europa Medieval: Reis cristãos eram ungidos com óleo sagrado, legitimados pela Igreja como representantes de Deus na Terra (Bloch, 1983).
  • Império Inca: O Sapa Inca era considerado filho do Sol, e sua coroação envolvia rituais que reafirmavam sua função cósmica (D’Altroy, 2014).

Esses paralelos revelam uma concepção universal: o poder legítimo é aquele que se fundamenta na ordem espiritual e na conexão com o divino.

8. Conclusão

A coroação dos faraós egípcios era um ritual de transfiguração espiritual e renovação cósmica. Mais do que um evento político, tratava-se de uma cerimônia que consagrava o novo rei como eixo do universo, responsável por manter a ordem divina. Essa concepção do poder como manifestação espiritual encontra ressonância em diversas culturas, revelando uma visão universal da autoridade como expressão do sagrado.

Referências

  • Assmann, J. (2001). The Search for God in Ancient Egypt. Cornell University Press.
  • Bloch, M. (1983). Les rois thaumaturges. Gallimard.
  • Doniger, W. (2009). The Hindus: An Alternative History. Penguin Books.
  • D’Altroy, T. N. (2014). The Incas. Wiley-Blackwell.
  • Hornung, E. (1999). The Ancient Egyptian Books of the Afterlife. Cornell University Press.
  • Lehner, M. (1997). The Complete Pyramids. Thames & Hudson.
  • Pinch, G. (2002). Egyptian Myth: A Very Short Introduction. Oxford University Press.
  • Puett, M. (2002). To Become a God: Cosmology, Sacrifice, and Self-Divinization in Early China. Harvard University Asia Center.
  • Wilkinson, T. A. H. (2010). The Rise and Fall of Ancient Egypt. Random House.
  • Coroação do faraó – Wikipédia

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