A
Pena e o Coração - A Justiça Iniciática e o Julgamento de Osíris
LuCaS
S⸫S⸫S⸫
No
Grau 31 do Rito Escocês Antigo e Aceito, o iniciado é conduzido a um tribunal
que não pertence ao mundo profano. Ali, não há juízes togados, nem códigos
escritos por mãos humanas. O que se ergue diante dele é um quadro ancestral: o
Julgamento de Osíris, cena extraída da mitologia egípcia, mas transfigurada em
alegoria iniciática. Não se trata de uma representação decorativa, mas de uma
chave simbólica que abre as portas da consciência superior.
Osíris,
deus da regeneração e da justiça espiritual, preside o tribunal do além. À sua
frente, o coração do falecido, símbolo das ações, intenções e omissões, é
colocado num dos pratos da balança. No outro prato, repousa a pena de Maat,
deusa da verdade, da ordem cósmica e da harmonia universal. Anúbis, o
psicopompo, realiza a pesagem com a neutralidade dos que não julgam, mas apenas
revelam. Thoth[1],
senhor da sabedoria e escriba dos deuses, registra o resultado com precisão
divina. E Ammit, criatura híbrida, parte leão, parte hipopótamo, parte
crocodilo, aguarda silenciosamente o veredito: devorar o injusto ou permitir
sua travessia para os Campos Elísios.
Essa
cena não é apenas mitológica. É um espelho. Um espelho que não reflete o rosto,
mas a essência. O iniciado, agora investido da função judiciária, é chamado a
julgar com retidão, mas também com compaixão. O tribunal que se apresenta não é
externo, é interior. A balança não mede delitos, mede consciência. A pena de
Maat não exige perfeição, apenas verdade. E a verdade, no contexto iniciático,
não é uma fórmula, é uma vivência. É o reconhecimento do erro, a coragem da
reparação, a humildade diante do mistério.
No
silêncio ritual, o maçom descobre que o julgamento mais profundo não se dá sob
os olhos do mundo, mas na penumbra da própria consciência, onde não há
testemunhas, apenas o eco da verdade. Cada gesto, cada escolha, cada silêncio
pesa. E o coração, esse órgão que pulsa segredos, pode ser leve ou pesado, não
pela ausência de erro, mas pela presença de arrependimento e lucidez. A
iniciação não é uma fuga da culpa, mas uma travessia pela responsabilidade. O
iniciado apreende que não há escapatória simbólica: tudo o que foi feito
permanece, e tudo o que foi evitado também.
O
Grau 31 ensina que justiça sem misericórdia é tirania, e que rigor sem escuta é
cegueira. O iniciado não é um executor da lei, mas um guardião do equilíbrio.
Ele depreende que julgar é, antes de tudo, compreender. Que punir é menos
eficaz que reconciliar. Que o verdadeiro tribunal é aquele onde o amor e a
verdade caminham juntos, não como opostos, mas como complementares. A função
judiciária, nesse grau, não é um poder, é um serviço. E servir à justiça é
servir à luz.
Assim,
o quadro de Osíris não é uma pintura simbólica: é uma convocação. Cada maçom
que o contempla é convidado a colocar seu próprio coração na balança. E a
pergunta que ecoa não é “o que fizeste?”, mas “quem te tornaste?”. Pois o
julgamento iniciático não se baseia em atos isolados, mas na trajetória do ser.
Não se trata de pesar o passado, mas de medir o presente à luz do eterno.
Que
cada passo na senda iniciática seja uma preparação para esse instante, quando
não houver mais véus, e tudo o que fomos estiver diante da pena. E que, ao
final, o coração seja leve, não por ter sido perfeito, mas por ter sido
verdadeiro.
Paz Profunda!!!
[1] No Egito, houve um velho deus deste
país, deus a quem é consagrada a ave que chamam íbis, e a quem chamavam Thoth.
Dizem que foi ele quem inventou os números e o cálculo, a geometria e a
astronomia, bem como o jogo das damas e dos dados e, finalmente, fica sabendo,
os caracteres gráficos (escrita).
O Julgamento de Osíris representa a autonomia do nosso pensamento, como Kant ensinou. Para ele, a moralidade depende da intenção e do dever, não das consequências — agir segundo princípios que todos poderiam seguir. A balança pesa não só atos, mas a retidão da vontade, que é o bem mais puro. O julgamento é interno: somos juiz e réu. Julgar é compreender; servir à justiça é servir à luz. A iniciação nos chama a agir por consciência, liberdade e respeito à lei moral. Assim, LuCaS e Kant mostram que o verdadeiro julgamento nasce da honestidade consigo mesmo e do compromisso com a verdade e o dever.
ResponderExcluirÉ impressionante como o texto nos faz refletir sobre tudo o que fizemos e o que teremos a "apresentar" de positivo, talvez comomatenuante às nossas fraquezas !!! Parabéns!!!
ResponderExcluirComo atenuante*
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